Introdução à ética de Sócrates

Sócrates

Sócrates

A filosofia de Sócrates, diferente dos filósofos pré-socráticos, tinha como objetivo o homem e o conhecimento deste, deixando de lado assim, a busca por conhecer o cosmos e a physis. Sendo assim, Sócrates foi considerado o pai da ética, pois foi o primeiro a se aprofundar nesse assunto. Parte de sua filosofia era a construção do homem, tendo então como visão a constituição de Virtudes fundamentais para que o homem atingisse a plena felicidade. Algumas de suas principais virtudes apresentadas por ele como fundamentais são a justiça, que apenas poderia ser conhecida depois que se soubesse o que é a injustiça; a modéstia, que era a capacidade de ser bom no que faz naturalmente e sem se vangloriar; entre outros.

Importante prática de Sócrates que representava sua filosofia era a prática da Maiêutica, que através da dialética, “paria” o conhecimento das pessoas. Um exemplo dessa prática é o diálogo que Sócrates tem com o escravo Teeteto, em que ele explica ao escravo o processo da Maiêutica que gostaria de aplicar nele, pois a muito já havia percebido que algo na alma deste estava a ponto de vir à luz.

Sobre a dialética de Sócrates tem-se como exemplo o livro Êutifron de Platão. Neste livro há o diálogo entre Êutifron e Sócrates em que estes discutem sobre a piedade. Vemos que, com um mesmo assunto, Sócrates desenvolve a conversa a tal ponto que Êutifron “desiste” de discutir sobre isso e dá desculpas para ir embora. Uma frase boa de Sócrates para representar este livro, seria “Só sei que nada sei”, pois nesse desenrolar da conversa, o que realmente Sócrates quer mostrar é a ignorância do homem, principalmente neste caso em que Êutifron era soberbo e orgulhoso.

 

Ética sofista

Sócrates e Hípias, o sofista

Sócrates e Hípias, o sofista

A filosofia sofista era baseada no relativismo. Cada pessoa, seja pela cultura ou sociedade que vive, contém as suas ideias em que estas se tornam verdades para eles, assim como o ideal de uma outra pessoa, também será uma verdade. Sendo assim, não existe verdade absoluta, objetiva, mas sim uma verdade subjetiva, em que cada um tem a sua.

O trabalho dos sofistas era ensinar jovens sobre política e a arte da retórica, cobrando taxas para aplicar essas aulas. Foram considerados por muitos críticos como prostitutas do saber ou mercenários do saber, pois cobravam de algo que deveria ser dado gratuitamente.

A partir de sua filosofia, vê-se que os sofistas tinham por ética, algo também relativo, mesmo dentro de uma mesma sociedade. Enquanto para alguns era correto se fazer uma determinada coisa, para outros não era.

Ética socrática

Sócrates tinha por visão o objetivismo. Para ele, existia uma Verdade Universal e para se descobrir essa verdade era preciso ter uma vida moral, podendo-se ver isso através das Virtudes antes mencionadas. Por essa razão, Sócrates criticou grandemente os filósofos sofistas, em que tinham uma filosofia ética totalmente contrária a de Sócrates. Se por exemplo fosse pago aos sofistas que afirmassem que uma coisa era verdade, mesmo que não fosse, eles o fariam, pois acreditando em verdades relativas, tudo que se afirmasse estaria correto.

Sören A. Kierkegaard

Sören A. Kierkegaard

Para o filósofo Kierkegaard, que se baseou muito em Sócrates, o considerava irônico, ironia no sentido de fazer a aporia por satisfação pessoal. Atentava em Sócrates a comparação deste com Cristo, em que ambos não deixam nada escrito, possuem discípulos e morrem de forma trágica e significativa. Em muitas características se assemelham Sócrates de Kierkegaard, como pela própria ética, porém se diferem no sentido de alcançar a verdade por seus próprios esforços, que enquanto Sócrates crê nessa possibilidade, Kierkegaard não.

Vê-se que a base da ética socrática é o autoconhecimento. É poder se conhecer subjetivamente a ponto de conseguir entender e praticar a Verdade objetiva. Sendo assim, defendia a frase: “Conhece-te a ti mesmo”.

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Introdução à ética de Nietzsche

Tragédia grega, conflito entre razão e emoção

Tragédia grega, conflito entre razão e emoção

Nietzsche, o filósofo do martelo, é conhecido por romper com a filosofia tradicional que visava até então, propondo um novo estilo filosófico que contrapõem a racionalidade filosófica e a moral cristã. Ele foi um grande crítico de Sócrates e da figura de Cristo, principalmente por conta dos valores morais, que afirmava serem instrumentos que os fortes inventaram para submeter e controlar os fracos.

Sua crítica tem início no surgimento da filosofia. A tragédia grega era a representação do equilíbrio entre a razão e a emoção. Esse equilíbrio dava-se através do conflito entre os deuses Apolo, deus da música e da arte, racional, intelectual, estilístico e moderado, e Dionísio, deus do vinho, inebriador dos sentidos humanos, tomando-os de prazer e libertando-lhes os instintos. Para Nietzsche, o homem era a ligação entre essas duas potências (razão e emoção), porém, Sócrates interpretou a arte trágica como irracional, e assim, o racionalismo passou a ser mais valorizado. Quando a razão socrática venceu, os deuses morreram. Essa é a maior crítica de Nietzsche a Sócrates, e a partir dessa crítica, propõe seu novo modo de filosofar, já que afirma que a filosofia é o resultado da relação do homem com a natureza, e que jamais deveríamos ter nos afastado dela.

 

Ética kantiana

Immanuel Kant

Immanuel Kant

A ética de Kant é baseada na busca de uma lei universal. Para saber se uma ação é moral ou não, primeiro é necessário se perguntar qual é a regra que seguiríamos ao realizar uma determinada ação. Depois, é necessário perguntar se estaríamos dispostos que esta regra fosse utilizada por todas as pessoas em todas as circunstâncias e sem exceção (tornando-se lei universal). Se a resposta for sim, então a ação é moralmente permitida; se não, moralmente proibida.

Somos tentados a abrir exceções a nosso favor, porque pensamos nas consequências delas, e nem sempre são boas (a nós, claro). Entretanto, não podemos ter certeza das consequências de nossas ações. Segundo Kant, é melhor evitar o mal conhecido, pois ainda que as consequências sejam más, estaremos justificados, pois cumprimos o nosso dever moral.

 

Ética nietzschiana

Friedrich Nietzsche

Friedrich Nietzsche

Nietzsche propôs uma nova abordagem sobre a genealogia moral, a formação histórica dos valores morais. As concepções morais são elaboradas pelos homens, a partir de interesses humanos. E as religiões têm papel fundamental nisso, pois impõem valores humanos como sendo produtos da “vontade de Deus”. Ele chegou à conclusão de que não existem noções absolutas de bem e mal. Afinal, se os valores morais são produto histórico-cultural, logo, também são mutáveis.

A grande crítica de Nietzsche às éticas socrática, kantiana e cristã, é a de que estas são “morais de rebanho”. O conceito de ética universal coincide com os preceitos de uma religião que tenta controlar as paixões e assim, homogeneizar os homens. A individualidade, tão valorizada por Nietzsche, acaba sendo diluída no meio do rebanho.

Jesus, o Cristo

Jesus, o Cristo

Nietzsche busca a “transmutação de todos os valores”, questionando o conceito de bem e mal em busca de novos valores “afirmativos da vida”, como a vontade, a criatividade e o sentimento estético.

Iluminismo italiano

O iluminismo italiano tem características comuns aos outros iluminismos (francês, inglês, alemão), como o culto da razão, a crítica à escolástica, a postura crítica diante da religião e da autoridade política. A Itália passou por um processo de pré-iluminismo, por causa das Academias nas quais se procuravam novos métodos.

Alguns acreditam que o iluminismo era fundamentado no ateísmo e que muitos dos que escreviam sobre teologia faziam para escapar das perseguições. Mas há aqueles que consideram o iluminismo compatível à religião.

Muratori era muito religioso, mas era iluminista por sua confiança na razão e pelo seu senso crítico, o qual chamava de “bom gosto”. Sobre isso, ele diz: “entendemos por bom gosto conhecer e poder avaliar o que é defeituoso, imperfeito ou medíocre nas ciências ou nas artes, para evitá-lo, e o que é o melhor, ou perfeito, para segui-lo a qualquer preço”. Muratori, assim como Galileu, dizia que não é preciso se basear na autoridade de nenhum homem para buscar o verdadeiro, mas sim, confiar em seu próprio intelecto.

Lodovico Muratori

Lodovico Muratori

Muratori defendia que o saber deve servir para melhorar os homens, tanto material quanto espiritualmente, e valoriza a contemplação a Deus. Entretanto diz que os homens devem ao mesmo tempo, viver para Deus e não deixar de se relacionar com os homens, sendo útil a eles.

Já dizia que a razão é limitada, e por isso, é fundamental ao homem a religião. Contudo, entendia por religião o “crer, adorar, amar e obedecer a Deus na forma que Cristo nos prescreveu”. Sendo a caridade o fundamento da religião cristã, não apenas pregava-a, mas a praticava e constantemente evocava esse mandamento, levantando sua importância.

Antonio Genovesi, outro filósofo iluminista, defendia a liberdade de filosofar, sendo ela uma liberdade em relação a toda autoridade humana. Ele teria praticado um “ecletismo programático”, tendo por eclético o que usa o senso crítico, aquele chamado por Muratori de “bom gosto”.

Era antiaristotélico, mas não por isso adepto à filosofia de Platão, que está distante da sua concepção de que qualquer teoria deve ser consolidada na experiência. Assim como Muratori, gostava da teologia iniciada por Newton, aquela que busca na física e em teorias científicas motivos para demonstrar a existência de Deus.

Por seu ideal de um saber útil à humanidade, dedicou-se ao estudo de economia, enquadrando-a numa concepção de vida em que a justificativa última é dada pela filosofia e pela religião. (ver sinônimos) A filosofia de Genovesi deu origem a duas vertentes distintas, uma corrente mais utópica e outra “ligada a problemas concretos e imediatos”.

Da primeira corrente, temos como um dos representantes Filangieri. Ele defendia que as leis devem responder às exigências da razão, e para isso, precisavam ter por princípio a filosofia. Portanto, era contrário aos fundamentos feudais, principalmente a liderança hereditária. Da segunda, temos Delfico, que também criticava o feudalismo, principalmente o controle político que era exercido pelo proprietário da terra. Seus ideais eram apoiados numa concepção filosófica materialista e irreligiosa.

Outro iluminista italiano foi Beccaria, que se baseava na filosofia dos enciclopedistas, fundamentalmente materialista e utilitarista. Sobre a legislação, diz que sua finalidade deveria ser “a máxima felicidade para o maior número de pessoas”. Ele é contra a tortura e a pena de morte, já que defendia que as penas têm como objetivo impedir que o cidadão delinquente cause novos danos à sociedade, e convencer os demais a não fazer o mesmo.

Dos assuntos filosóficos discutidos pelos iluministas, surgiu aquele que visava saber se prevaleciam os prazeres ou os sofrimentos. Seus representantes são La Mettrie, com uma visão mais otimista, e Maupertius, com uma pessimista.

Referências:

ROVIGHI, Sofia Vanni. História da filosofia moderna. Edições Loyola, 3ª edição, 2002.

Confissões de Santo Agostinho

CAPÍTULO IV – Livro I

As perfeições de Deus

 Que és, portanto, ó meu Deus? Que és, repito, senão o Senhor Deus? Ó Deus sumo, excelente, poderosíssimo, onipotentíssimo, misericordiosíssimo e justíssimo.

Tão oculto e tão presente, formosíssimo e fortíssimo, estável e incompreensível; imutável, mudando todas as coisas; nunca novo e nunca velho; renovador de todas as coisas, conduzindo à ruína os soberbos sem que eles o saibam; sempre agindo e sempre repouso; sempre sustentando, enchendo e protegendo; sempre criando, nutrindo e aperfeiçoando, sempre buscando, ainda que nada te falte.

Amas sem paixão; tens zelos, e estás tranquilo; te arrependes, e não tens dor; te iras, e continuas calmo; mudas de obra, mas não de resolução; recebes o que encontras, e nunca perdeste nada; não és avaro, e exiges lucro. A ti oferecemos tudo, para que sejas nosso devedor; porém, quem terá algo que não seja teu, pois, pagas dívidas que a ninguém deves, e perdoas dívidas sem que nada percas com isso?

E que é o que até aqui dissemos, meu Deus, minha vida, minha doçura santa, ou que poderá alguém dizer quando fala de ti? Mas ai dos que nada dizem de ti, pois, embora seu muito falar, não passam de mudos charlatães.

Santo Agostinho

Santo Agostinho

A perfeição sempre foi uma qualidade desejada pelo homem. Santo Agostinho descreve aqui algumas das perfeições de Deus, construindo a imagem de seu caráter divino. Ele faz uso de algumas antíteses, como “sempre agindo e sempre repouso” ou “te iras e continuas calmo”, para fortalecer ainda mais o peculiar poder ilimitado de Deus. Ao mesmo tempo, essas contradições são o que priva o homem de tamanha virtude. Afinal, como ser oculto e ainda presente? Ou se irar e ser calmo? E ainda encontrar algo que nunca foi perdido? Essas são algumas das qualidades que a torna inatingível pelo homem. Santo Agostinho ainda termina por acentuar nossa limitação frente à perfeição divina, expressando a impossibilidade da descrição dos atributos de Deus por nós, e ainda critica aqueles que muito falam, mas que não passa de palavras vazias.

CAPÍTULO VIII – Livro II

O prazer da cumplicidade

E que fruto colhi eu, miserável, daquelas ações que agora recordo com rubor? Sobretudo daquele furto, em que amei o próprio furto, e nada mais? Nenhum, pois o furto, em si nada valia, ficando eu mais miserável com ele. Todavia, é certo que eu sozinho não o teria praticado – a julgar pela disposição de meu ânimo na ocasião; – não, de modo algum; eu sozinho não o faria.

Portanto, apreciei também na ocasião a companhia daqueles com quem o cometi. Logo, também é certo que apreciei algo mais além do furto; embora não amasse de fato nada mais, pois também essa cumplicidade era nada.

Mas, que é esta, na verdade? E quem mo poderá ensinar, senão o que ilumina meu coração e rasga minhas sombras? De onde vem à minha alma a ideia destas indagações, desta discussão e considerações? Se eu então amasse as peras que roubei, e quisesse apenas seu desfrute, podia tê-las roubado sozinho, se isso bastasse. Poderia fazer a iniquidade pela qual chegaria meu deleite sem necessidade de excitar o prurido da minha cobiça com a conivência de almas cúmplices.

Porém, como não achava deleite algum nas peras, colocava este no próprio pecado, que consistia na companhia dos que pecavam comigo.

Neste texto, Santo Agostinho trata de um de seus erros do passado, um ocorrido relatado em outro capítulo, “o furto das pêras” (capítulo IV). Conta que numa noite, roubaram os frutos de uma pereira. Não pela necessidade do furto, nem pelo próprio fruto, pois destes tinha até melhores, mas somente pelo prazer de pecar. Se realmente quisesse desfrutar das peras, poderia tê-las roubado sozinho. Não o fez, porque não queria as peras, logo, seu pecado não estava em amar os frutos, mas amar o furto. Passa então a traçar uma reflexão sobre o seu pecado, e nos faz pensar se estamos pecando apenas pelo anseio do objeto cobiçado, ou pelo prazer em fazer o que é proibido. Sua conclusão vem ao confessar que seu pecado, antes de tudo, estava nas suas companhias.

CAPÍTULO VII – Livro III

Alguns erros dos maniqueus

Não conhecia eu outra realidade – a verdadeira – e me sentia como que movido por um aguilhão a aceitar a opinião daqueles insensatos impostores quando me perguntavam de onde procedia o mal, se Deus estava limitado por forma corpórea, se tinha cabelos e unhas, e se deviam ser considerados justos os que tinham várias mulheres simultaneamente, e os que causavam a morte de outros ou sacrificavam animais.Santo Agostinho 0

Eu, ignorando essas coisas, perturbava-me com essas perguntas. Afastando-me da verdade, parecia-me encaminhar para ela, porque não sabia que o mal é apenas privação do bem, até chegar ao seu limite, o próprio nada. E como poderia ter eu tal conhecimento, se com os olhos não conseguia ver mais do que corpos, e com a alma não ia além de fantasmas?

Tampouco sabia que Deus é espírito, que não tem membros dotados de comprimento ou largura, nem quantidade material alguma, porque a quantidade ou matéria é sempre menor na parte que no todo e, mesmo que fosse infinita, sempre seria menor em uma parte definida por um espaço determinado do que em sua infinitude, não podendo estar toda inteira em todas as partes, como o espírito, como Deus.

Ignorava totalmente o princípio de nossa existência, que há em nós, e pelo qual a Escritura nos chama de imagem e semelhança de Deus.

Não conhecia tampouco a verdadeira justiça interior, que não julga pelo costume, mas pela lei retíssima do Deus onipotente. Por ela se hão de formar os costumes dos países conforme os mesmos países e tempos, e sendo a mesma em todas as partes e tempos, não varia de acordo com as latitudes e as épocas; lei essa segundo a qual foram justos Abraão, Isaac, Jacó e Davi, e todos os que são louvados pela boca de Deus. Os ignorantes, julgando as coisas de acordo com a sabedoria humana, e medindo a conduta alheia pela própria, os julgam iníquos. É como se um ignorante em armaduras, não sabendo o que é próprio de cada membro, quisesse cobrir a cabeça com a couraça e os pés com o elmo, e se queixasse de que as peças não se lhe adaptem convenientemente. Ou como se alguém se queixasse de que, em determinado dia considerado feriado do meio-dia em diante, não lhe permitissem vender a mercadoria à tarde, como acontecera pela manhã; ou porque vê que na mesma casa permite-se a um escravo qualquer tocar no que não é permitido ao copeiro; ou porque não se permite fazer diante dos comensais o que se faz atrás de uma estrebaria; ou, finalmente, se indignasse porque, sendo uma a casa e uma a família, não se atribuíssem a todos as mesmas coisas.

Tais são os que se indignam quando ouvem dizer que em outros tempos se permitiam aos justos coisas que não se lhe permitem agora, e que Deus mandou àqueles uma coisa e a estes outra, conforme os tempos, servindo uns e outros à mesma norma de santidade. E, contudo, é bem visível que no mesmo homem, no mesmo dia e na mesma hora e na mesma casa, o que convém a um membro não convém a outro; e aquilo que há pouco era licito, já não o é mais; e que o que se concede em uma parte, é justamente proibido e castigado em outra.

Diremos, por isso, que a justiça é vária e inconstante? O que acontece é que os tempos a que ela preside não caminham no mesmo passo, porque são tempos. Mas os homens, cuja vida terrestre é breve, por não saberem harmonizar as causas dos tempos idos, e das gentes que não viram nem conheceram, com as que agora veem e experimentam e, como também veem facilmente o que no mesmo corpo, na mesma hora e lugar convém a cada membro, a cada tempo, a cada parte e a cada pessoa, escandalizam-se com as coisas daqueles tempos, enquanto aceitam as de agora.

Ignorava eu então estas coisas e não as refletia e, embora de todos os lados me ferissem os olhos, eu não as via. Quando declamava algum poema, não me era lícito por um pé em qualquer outra parte do verso, senão em uma espécie de metro uns e em outra outros, e em um mesmo verso não podia meter em todas as partes o mesmo pé; e a própria arte da prosódia, apesar de mandar coisas tão distintas, não era diversa em cada parte, senão uma só e coerente.

Contudo, não via como a justiça, à qual serviram aqueles varões bons e santos, pudesse conter simultaneamente, de modo mais belo e sublime, preceitos tão diversos, sem variar em sua essência, apesar de não mandar ou distribuir aos diferentes tempos todas as coisas simultaneamente, mas a cada um as que lhe são próprias. E, cego, censurava àqueles piedosos patriarcas, que não só usavam do presente como Deus lhes mandava e inspirava, mas também prediziam o futuro conforme Deus lhes revelava.

Santo Agostinho fora acometido por perguntas e questões das quais nunca havia refletido, e que agora passavam a perturbá-lo. Ele então tece uma série de reflexões a respeito destas. Como poderia saber que o mal é a privação do bem se com os olhos, até então, só via os corpos, e com a alma, fantasmas? Também não sabia que Deus não tinha comprimento nem largura, pois era espírito, e que toda matéria, por infinita que fosse, é parte de um todo, no qual Deus estaria limitado. Não tinha consciência da verdadeira justiça, a que julga segundo a Lei de Deus, não as práticas humanas. Muitos se escandalizam ao ver a justiça de Deus nos tempos antigos, mas tanto aquela como esta, tem por padrão a santidade. A justiça não muda, o que muda é o tempo. E mesmo que fossem julgadas duas pessoas, no mesmo tempo e no mesmo lugar, ainda sim seriam julgadas de maneira diferente, afinal, o juízo é individual. Longe de entender essas coisas, Agostinho não via como a justiça podia ser imutável e ao mesmo tempo se adequar as diferentes ocasiões. Por isso, criticava os patriarcas, que pela Lei foram considerados santos, acusando-os de injustos.

CAPÍTULO XVI – Livro VII

Onde está o mal

Entendi por experiência que não é de admirar que o pão seja enjoativo ao paladar enfermo, mesmo tão agradável para o paladar sadio, e que olhos enfermos considerem odiosa a luz, que para os límpidos é tão cara. Se tua justiça desagrada aos maus, muito mais desagradam a víbora e o caruncho, que criaste bons e adaptados à parte inferior da tua criação, com a qual também os maus se assemelham, tanto mais quanto mais diferem de ti, assim como os justos se assemelham às partes superiores do mundo na medida em que se assemelham a ti. Indaguei o que era a iniquidade, e não achei substância, mas a perversão de uma vontade que se afasta da suprema substância, de ti, meu Deus – e se inclina para as coisas baixas, e que derrama suas entranhas, e se intumesce exteriormente.

O pecado de Adão e Eva, de Michelângelo

O pecado de Adão e Eva, de Michelângelo

Aqui é retratado um assunto já discorrido em outros capítulos, no qual Santo Agostinho busca constantemente a origem do mal. Ele entendia que o mal não poderia ter procedido de Deus, o bem supremo. Também seria irracional pensar que um Deus ilimitado e infinito teria criado uma força tão poderosa quanto si. Neste capítulo, Agostinho exemplifica sua reflexão pelo pão, de gosto ruim para os doentes, porém agradável para os sadios, e a luz, desagradável aos enfermos, mas almejado pelos sãos. Ao analisar a situação, percebe-se então que a origem do problema não está em substâncias exteriores ao homem, mas sim nele próprio. Agostinho termina por concluir que o mal não é uma substância, mas sim o uso do livre-arbítrio para escolher caminhos distantes ou contrários ao bem supremo, Deus. Sendo assim, o mal nada mais é que a própria ausência de bem.

CAPÍTULO XIV – Livro XI

Que é o tempo?

Não houve, pois, tempo algum em que nada fizesses, pois fizeste o próprio tempo. E nenhum tempo pode ser coeterno contigo, pois és imutável; se, o tempo também o fosse, não seria tempo. Que é pois o tempo? Quem poderia explicá-lo de maneira breve e fácil? Quem pode concebê-lo, mesmo no pensamento, com bastante clareza para exprimir a ideia com palavras? E no entanto, haverá noção mais familiar e mais conhecida usada em nossas conversações?

Quando falamos dele, certamente compreendemos o que dizemos; o mesmo acontece quando ouvimos alguém falar do tempo. Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se quiser explicar a quem indaga, já não sei. Contudo, afirmo com certeza e sei que, se nada passasse, não haveria tempo passado; que se não houvesse os acontecimentos, não haveria tempo futuro; e que se nada existisse agora, não haveria tempo presente. Como então podem existir esses dois tempos, o passado e o futuro, se o passado já não existe e se o futuro ainda não chegou? Quanto ao presente, se continuasse sempre presente e não passasse ao pretérito, não seria tempo, mas eternidade. Portanto, se o presente, para ser tempo, deve tornar-se passado, como podemos afirmar que existe, se sua razão de ser é aquela pela qual deixará de existir? Por isso, o que nos permite afirmar que o tempo existe é a sua tendência para não existir.

O tempo

O tempo

A reflexão de Agostinho a respeito do tempo deixa claro: o tempo passado e o tempo futuro não existem. E o tempo presente, para ser tempo, deve tornar-se passado, afinal, o presente que não passa não é tempo, mas eternidade. Santo Agostinho trata desse assunto em vários outros capítulos. Outra reflexão é a respeito da medida do tempo. Como o passado pode ser longo ou breve se já não existe? Pode-se medir somente o presente, pois é real. Sendo assim, não existem três tempos, passado, presente e futuro, mas somente um, o presente, pois o passado, quando aconteceu, não era passado, mas presente, e o futuro quando acontecer, também será presente. Porém, o que é o presente? Se dissermos o mês, não o seria, pois o dia que se foi é passado, e o que ainda viria é o futuro. O mesmo aconteceria com o dia, as horas que já foram é passado, e as que virão, futuro. Se pudéssemos dividir o tempo na menor fração possível, teríamos uma passagem tão rápida do futuro para o passado, que não teríamos presente.

Sendo esta inclinação do presente de deixar de existir para ser tempo, Agostinho termina por concluir que “o que nos permite afirmar que o tempo existe é a sua tendência para não existir”.

Burocracia, Max Weber

Com o desenvolvimento tecnológico, é cobrado cada vez mais das atividades administrativas um aperfeiçoamento para poder acompanhá-lo. Com isso, as grandes empresas precisaram desenvolver técnicas de organização que permitem uma previsão de todas as ações, para garantir o lucro e seu crescimento.

Max Weber

Max Weber

A organização, presente em diferentes aspectos da nossa vida, é um tipo de manifestação do racionalismo humano. Partindo desse ponto, a burocracia consiste na forma de organização do Estado. Este conceito resulta da concepção de autoridade legal, em Weber, que é exercida por funcionários que obedecem a uma norma de conduta bem estabelecida. Segundo ele, a organização é eficiente, pois é puramente racional, mas para isso, deve-se detalhar as coisas que ainda acontecerão, definindo antecipadamente como a organização deverá funcionar.

Em nosso contexto, a burocracia ganhou um sinônimo errôneo de papelada e demora, mas é justamente o oposto do que propôs Weber, pois, segundo ele, esse modelo de organização facilita todo o processo de desenvolvimento administrativo numa corporação.

Um Estado que seja orientado em termos legais possui uma racionalidade que permite a previsão da ação, pois caso contrário não se tem capitalismo, não se tem ação econômica que possibilite rendimentos. A garantia de uma previsibilidade é necessária e isso o Estado racional, legal, permite. Precisa-se de garantias para a existência de empresas que forneçam lucro, que é essencial para o capitalismo, o retorno financeiro para o proprietário. E para isso, precisa-se também de um Estado equipado para produzir e implementar políticas, ou seja, é necessário um aparato administrativo eficiente no Estado. Esse aparato é a chamada burocracia.

bureaucracy_stampingA burocracia é um tipo de norma que busca atender não os interesses pessoais, mas parte para uma lógica racional buscando o melhor para o coletivo, estabelecendo uma ordem. Essa ordem pode ser garantida, pois, com a burocracia, os funcionários tem conhecimento exato dos seus deveres e do que deve ser feito, e isso também possibilita uma rapidez nas decisões, além de evitar a discriminação, pois com ela já se pode prever a decisão a ser tomada. Por ser formal e escrita, ela também reduz custos e erros e, uniformizando a rotina e os procedimentos, favorece a padronização. Nesse modelo, está vigente a hierarquia dos cargos, onde cada funcionário é subordinado por um supervisor, que é estabelecida por meio de regras limitadas e claras. A racionalização da burocracia, para Weber, é o que garante a eficiência do seu funcionamento.

A burocracia acabou concentrando a atenção do Weber para entender quais são os limites de um capitalismo competitivo de mercado, pois a ela não gera novas políticas, não toma novas iniciativas, simplesmente age rotineiramente. O problema do Weber é que esse corpo burocrático funciona muito bem assim e, gradativamente, vai se consolidando, pois conhece cada vez melhor as rotinas e dessa forma, a burocracia vai impondo o modo rotineiro de operar sobre a sociedade, incluindo nisso o próprio Estado, ou seja, a dimensão política da sociedade, impondo-se também às empresas. Contudo, a política não pode depender-se da rotina. Em função disso, Weber constrói toda uma análise sobre os descompassos entre o burocrático e o político. O burocrata quer que tudo continue do modo como está habituado, podendo-se prever as consequências. Já o foco político deve estar nas necessidades de novas ações, novos projetos e novos programas para a sociedade toda. A questão é saber quem vai subordinar quem. E a aposta do Weber era no político, pois seu grande medo era uma sociedade submetida a uma espécie de rotina.

Apesar dos aparentes benefícios da burocracia, que realmente estão presentes nos processos de organização, obtêm-se também Morto pela burocraciaalgumas desvantagens, como o trabalho em função das regras e regulamentos. Isso faz com que a racionalização da burocracia perca o sentido, já que a flexibilidade também é característica da razão. Por ter caráter impessoal, a burocracia faz com os relacionamentos interpessoais se enfraqueçam, pois os cargos se tornam mais importantes do que as pessoas.

As mudanças também devem ter valor numa organização, mas esta, adaptada à rotina, reage àquelas como sendo uma ameaça a sua segurança, tornando-as indesejadas. O próprio Weber reconhecia a importância das novas ações, pois temia que a sociedade fosse subordinada pela rotina. A flexibilidade aliada à burocracia garantiria um sucesso ainda maior, em determinada circunstância, à corporação, e ainda, à sociedade.

Manifesto do partido Comunista

“Proletários do mundo, uni-vos!”

Tendo como concepção de mundo uma visão de conjunto da natureza e do homem, que implica uma ação e não se trata da obra de um único pensador, mas sim da expressão de uma época, temos apenas três. A primeira, concepção cristã, define-se por uma teoria de hierarquia de seres vivos, valores e pessoas, na qual se encontra no topo o Ser Supremo, Deus. Mais visível na Idade Média, ficou conhecida por concepção medieval, porém é válida até hoje. Com o declínio da Idade Média, no século XVI, surge outra concepção, na qual a hierarquia dá lugar ao indivíduo: a concepção individualista. Corresponde à visão burguesa do mundo, ao liberalismo e a uma teoria otimista de harmonia entre o homem e a natureza. comunismo-3

Analisando as contradições da sociedade moderna – afinal, verifica-se contradições no homem e na sociedade, no qual o interesse individual pode opor-se ao interesse comum, e a inexistência de uma harmonia entre o homem e a natureza, já que este luta contra ela e tem a necessidade de dominá-la – surge então o marxismo como uma expressão da vida social, prática e real, uma concepção que não estabelece uma hierarquia nem se encerra na consciência do indivíduo isoladamente. Antes, toma conhecimento de realidades naturais, práticas, sociais e históricas.

Karl Marx e Friedrich Engels introduzem sua obra “Manifesto do partido comunista” a partir da situação da Europa naquele período: os poderes europeus já reconhecem o comunismo como um poder, aliaram-se contra ele e é tempo dos comunistas se manifestarem.  Na história da luta de classes, toda luta tem seu fim ou numa reconfiguração da sociedade ou num declínio de ambas as classes em luta. Na nossa época, as oposições de classes foram simplificadas a dois grupos que se enfrentam diretamente, a burguesia e o proletariado.

Na crise do feudalismo, o modo de produção feudal já não supria os novos mercados que surgiram com as grandes descobertas. Com a burguesia em ascensão, surgiu um novo modo de produção, a manufatura, que ocasionou num crescimento ainda maior dos mercados. Agora, a manufatura já não é mais suficiente e novamente o modo de produção passou por uma transformação. Surgiu a maquinofatura e com ela as grandes indústrias, que facilitou ainda mais o desenvolvimento do comércio, reagindo sobre a extensão da Indústria, permitindo o grande crescimento da burguesia. Sendo assim, a burguesia é o produto das revoluções no modo de produção num longo curso.

Marx e Engels

Marx e Engels

Com a industrialização, as necessidades velhas foram todas supridas, porém agora, surgem novas necessidades, que só podem ser supridas com produtos de outros países, gerando assim uma ligação entre eles. Essa dependência entre os países fez surgir produtos padronizados, formando um bem comum, e agora das literaturas locais formam-se mundiais.

O capitalismo, inevitavelmente, vem acompanhado das crises. Com o aumento cada vez maior do capital sob o domínio da burguesia, a sociedade moderna vive uma contradição histórica, pois o problema agora é a superprodução. Assim, a solução da crise para a burguesia está na aniquilação das forças produtivas e na exploração mais profunda dos mercados e a conquista de novos.

A burguesia não trouxe consigo somente a produção, a arma que lhe traz a morte, mas com ela também aqueles que a manejam, os proletários. Estes são mercadorias, vendem-se e por isso estão expostos as oscilações do mercado como qualquer outra mercadoria. Assim que surge o proletário, surge também sua luta contra a burguesia. A concordância entre eles não é vinda ainda da sua união, mas sim da união da burguesia, que põe em movimento todo o proletariado para atingir seus objetivos.

Segundo Marx, a burguesia não pode dominar por muito tempo, porque é incapaz de permitir a seu escravo a própria existência, deixando-o numa situação em que dependa dela para se alimentar, no entanto, ela deveria ser alimentada por ele. O próprio progresso da indústria acaba colocando a união dos proletários no lugar de seu isolamento causado pela concorrência.

Os comunistas compartilham os mesmos interesses com os proletários, porém, diferem por fazer valer os interesses comuns de burguesiatodo o proletariado, sendo o setor mais decidido e impulsionador. Ambos, comunistas e proletários, defendem a “formação do proletário em classe, derrubamento da dominação da burguesia, conquista do poder político pelo proletariado”. O comunismo não defende a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa. Marx afirma que o trabalho assalariado não cria a propriedade, e que a propriedade explora o trabalho assalariado. Ele também critica o caráter dessa apropriação, pois o operário só vive para aumentar o capital, conforme o interesse da burguesia. Até mesmo as ideias dos trabalhadores vêm da relação de produção e propriedade burguesas.

Portanto, através de uma revolução, o proletariado deve se elevar a classe dominante, usar sua dominação para tirar o capital da burguesia e centralizar os meios de produção na mão do Estado (proletário), para aí poder multiplicar as forças de produção. Marx acredita que se isso realmente acontecer e os antigos meios de produção forem realmente suprimidos, com eles também são suprimidas as condições de existência da oposição de classes, e com isso, as classes e também a dominação como classe. Marx termina por concluir que “o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”.

Ao falar do socialismo reacionário, Marx cita três. O primeiro, o socialismo feudal, surge quando as aristocracias francesas e inglesas, não podendo travar uma luta política com a burguesia, passa a usar as cantigas e os panfletos para tentar alcançar seus objetivos. Passaram a aparentar a perda de seus verdadeiros interesses e apoiar a causa dos proletários. Os feudais usam como argumento a diferença entre sua exploração e a dos burgueses, mas se esquecem de que os tempos mudaram e que seus métodos são ultrapassados.

Com o desenvolvimento da burguesia, e consequentemente do proletariado, surgiu também uma “pequena burguesia”, que se encontra entre essas duas classes. Seus membros estão constantemente sendo atirados para o proletariado pela concorrência. Com o desenvolvimento das indústrias, desaparecerão como parte autônoma e serão substituídos por criados. O objetivo do socialismo pequeno-burguês é restabelecer os antigos meios de produção e relações de propriedade, ou tornar passado os atuais.

A Comuna de Paris

A Comuna de Paris

Quando os burgueses alemães estavam em luta contra o absolutismo feudal, chegou à Alemanha a literatura socialista e comunista da França. Porém, por estarem em contexto histórico e social diferentes, a literatura francesa perdeu todo o seu significado. A partir daí, os literatos alemães passaram a adaptar as ideias francesas de acordo com seu ponto de vista. À esta adaptação filosófica dos ideais franceses, deram o nome de “socialismo verdadeiro”. A literatura socialista-comunista alemã, por não exprimir a luta de uma classe contra a outra, acreditava que defendia os interesses da essência humana, do homem em geral, que não pertence a nenhuma classe, ao invés dos interesses do proletariado. No entanto com o tempo, foi perdendo pouco a pouco a sua inocência. Por fim, acabou nomeando o alemão como o homem normal e a nação alemã como a nação normal. Deu a isto um sentido superior, anunciando-se como imparcial acima de todas as lutas de classe, de modo a distorcer todo o sentido original da literatura socialista francesa.

Para garantir a sua existência, a burguesia precisa remediar os males sociais. Ela não quer as lutas e nem os perigos decorrentes destas. Para isso, os burgueses buscam fazer com que o proletariado perca o interesse de movimentos revolucionários, camuflando seus verdadeiros objetivos e fazendo com que este acredite que defende seus interesses. Este é chamado socialismo burguês.

Para os socialistas utópicos, a classe trabalhadora só existe como a classe sofredora. Eles não veem do lado do proletariado nenhuma atividade histórica ou movimento político que lhes seja particular. Querem melhorar a vida de todos na sociedade, por isso defendem também os interesses da classe dominante e com isso, rejeitam toda a ação política e revolucionária, buscando atingir seus objetivos de forma pacífica. Quanto mais se desenvolve a luta de classes, mais perdem sua elevação fantástica e, pouco a pouco, vão entrando na categoria de socialistas conservadores.

Marx termina o Manifesto falando das lutas de classes que estavam acontecendo em diferentes lugares. Em toda parte, os comunistas estavam apoiando o movimento revolucionário. Travada a luta, estavam declarando que seus objetivos só podiam ser alcançados através do derrube de toda ordem social.

Se analisarmos a história da sociedade e sua evolução, vamos ver que as sociedades primitivas eram de certa forma, comunistas. comunismo_beer1Após a dissolução das comunidades aldeãs, foram se formando classes separadas que cada vez mais foram se opondo. Conforme as revelações da realidade foram pedindo revolução, estas foram reconfigurando as sociedades na história. É difícil imaginar uma revolução que consiga fazer com que a sociedade de hoje volte a ser como as primitivas, afinal, foram muitos anos e várias revoluções que permitiram suas constantes transformações até aqui e isso mostraria que a teoria da evolução de Darwin é um grande equívoco.

Ainda temos outro empecilho. Pensando na mudança da mente dos proletários que permitiria a revolução, ainda assim não temos garantia nenhuma de que será diferente da Comuna de Paris. Qual mudança seria necessária para vencer os frutos de um poder nas mãos? Essa é a fraqueza humana que corrompe até o melhor dos homens. A educação dos indivíduos que crescem numa sociedade tribal ou numa comunidade de famílias já é de caráter comunitário. As pessoas do mundo globalizado são educadas da maneira mais egoísta possível e com o acesso ao poder mais comum a nós do que àqueles, o egoísmo se tornou quase que inerente ao homem agora.

Com certeza, ainda muitas outras revoluções virão e mudarão o rumo da história. Mas fugir de um modelo em que há alguém no comando não cabe à realidade, pois a humanidade precisa de um controle e até mesmo nos agrupamentos familiares há o “chefe de família”, afinal, o homem que é mandado tem direção, mas aquele que é verdadeiramente livre, não sabe o que fazer.

 

Referências:

MARX e ENGELS. Manifesto do Partido Comunista, 1848.

LEFEBVRE, Henri. O marxismo, 1963.

O conhecimento – Spinoza (1632 – 1677)

O filósofo francês René Descartes é considerado o fundador do dualismo moderno, que consiste na separação entre duas substâncias, corpo (substância material) e mente (substância imaterial). Nesse contexto, a filosofia de Spinoza vem como uma resposta ao dualismo de Descartes.

Mente e corpo, dualismo de René Descartes

Mente e corpo, dualismo de René Descartes

Quando se tem uma definição verdadeira, pode-se deduzir a partir dessa, outras verdades, formando com essas deduções um sistema metafísico. Portanto, pode-se demonstrar a metafísica dedutivamente, através de consequências evidentes derivadas de definições iniciais verdadeiras, só podendo-se chegar a conclusões verdadeiras se essas definições iniciais forem corretas.

Para que todo esse sistema metafísico faça sentido, é necessário entender que a substância, definida logo no início de sua obra “Ética”, é aquilo que necessariamente existe, para que todas as deduções feitas a partir dela se encaixem no seu modelo. Para se obter esses axiomas verdadeiros, Spinoza sugere então a distinção entre três formas de conhecimento, sendo o imaginativo, o racional e o intuitivo.

Segundo Spinoza, não existem ideias falsas ou verdadeiras em relação ao conhecimento. O que existem são proposições mais, ou menos, adequadas, de modo que ele evidencia três tipos de conhecimento. O conhecimento opinativo, também chamado de imaginativo, é o conhecimento prático, que é adquirido a partir das percepções que nós temos das coisas, sem a preocupação com sua causa ou finalidade. É considerado por ele uma forma mínima de conhecimento, pois é subjetivo. Assim, não apresenta a natureza das coisas conhecidas, mas representações que são baseadas nas qualidades do objeto e do sujeito, sendo estas fragmentadas e incompletas. Para tal, precisa-se de uma experiência vaga, mas é um conhecimento empírico no sentido depreciativo, pois é fundamentado na “impressão”. Dos seus limites decorrem o sofrimento e as paixões.

Baruch Spinoza

Baruch Spinoza

O conhecimento racional é aquele tipo de conhecimento notável que baseado na matemática, física ou geometria, permite ao homem compreender algumas realidades em relação a ele próprio e ao universo. É uma dedução imediata alcançada pelo raciocínio, havendo a preocupação com a causa e a finalidade. Pode-se obter o conhecimento através da observação, mas somente se for dirigida pelas características que todos os objetos têm em comum, não apresentando, assim, as distorções causadas pela experiência dos sentidos, como no conhecimento imaginativo. É desse modo que se dá o conhecimento a priori, segundo Spinoza, na matemática, física e geometria. Mas esse ainda não é o conhecimento completo.

O conhecimento intuitivo é considerado por ele o conhecimento perfeito. Por meio da intuição o homem consegue perceber diversas realidades, inclusive a própria noção que ele tem de Deus e de si mesmo. Esse conhecimento racional particular é a própria substância divina e é pela intuição que se pode afirmar que as coisas dependem de Deus como sua causa completa. Essa experiência mística viria acompanhada, segundo ele, por uma forte emoção, a qual chamou de “o amor intelectual de Deus”. É desse conhecimento que derivam a felicidade e a virtude plenas. Perceber as coisas por meio da intuição seria, para Spinoza, “ver com os olhos de Deus”.

Dessa forma, podemos concluir que o conhecimento não é uma adequação entre a mente e a coisa, mas uma relação de adequação entre a mens (do latim, mente, espírito) do sujeito com a mens do objeto.

“Capitalismo, é você?”

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Mesmo com todas as fotos do mundo, mostrar o que essas pessoas passam é impossível, porque apenas elas conseguem sentir uma dor incontrolável em sua barriga, o desejo de comer o resto de um iogurte estragado e cheirando mal, de frequentar uma escola que não cheira bem, e principalmente a dor de saber que o dinheiro que era pra estar alimentado-os está indo pra lindas 1016474_440723186058537_1848990024_narquibancadas, com uma grama verdinha. Se você que está lendo gostaria de ir assistir a Copa, pare de ler, porque isso não é pra você. Usando agora de um exemplo que li mais cedo, nós temos vergonha de tudo, temos vergonha de ir com uma blusa velha na escola, ir com uma calça que não marca o bumbum, usar a mesma mochila do ano passado, duvido que se você não tivesse um chinelo pra vestir 1621688_440723276058528_884101055_nfaria essas reclamações.

Tente imaginar, se é que pode, você entrando numa escola particular, onde todos ali tem pelo menos o que vestir, sem sapato nos pés, com fome. Será que se fosse com você ia querer que a Copa fosse no Brasil? Gastar bilhões enquanto uma criança com menos de um ano passa fome? A cagada já foi feita! Parabéns, Ronaldo! Você conseguiu os estádios que queria ao invés dos hospitais! Só espero que seu filho não morra na fila de um deles! Opa, espera, ele tem médico particular, ou pode ir pra um país com 1795537_440726629391526_2107232507_nhospitais PÚBLICOS bons! Então vamos deixar os pobres morrerem enquanto os brasileiros assistem a Copa pela televisão!
Black blocs, vocês não tem um cérebro muito avançado (tentei usar o máximo de eufemismo que consegui), se não sabem, não façam, se fazem pra zoar, façam isso com a sua avó e sua mãe, e parem de atrapalhar uma coisa que pode dar certo passivamente! Só espero que depois do Brasil se deliciar com a Copa e com as oportunidades de emprego abertas em 2014, consigam superar o vazio e os desempregos que virão depois.

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Toma essa Hitler!

Muitas pessoas veem as revistinhas do Capitão América apenas como um incentivo e uma forma de entrar na cabeça dos jovens para que se alistassem na época da 2ª GM. E é óbvio que estão certos. Por trás desse personagem estava todas as maneiras possíveis para se transmitir patriotismo aos americanos. Mas parando um pouco de ver apenas essa parte de “interesses”… Elas causaram um impacto muito grande… Eles conseguiram transformar o governo Hitlerista num monstro que “se você cortar a cabeça crescerá duas no lugar”. Domável apenas para o super patriota, antes magro, Steve Rogers, que apenas com sua coragem provou bravura a ponto de se tornar, então forte, Capitão América.
O interessante é que eles não se voltaram contra o Hitler (teoricamente, sim) mas contra o Caveira Vermelha, que na verdade era fiel à Hitler, mas depois se tornou fiel à HYDRA somente…. (“HEIL HYDRA!” – ~imaginando os carinhas gritando isso com o braço levantado, rsrs). Talvez pra mostrar que, na verdade, a fidelidade das pessoas à Hitler era supérflua…
O sacrifício do Capitão acho que é um dos mais patriotas que existe, se não o mais… Ele não havia se declarado nenhuma vez à sua amada (diretamente, não) e decidia morrer pelo seu país, que quando era um homem qualquer não aceitava sua “mera” participação no exército… A sorte dele foi encontrar pessoas que olham o interior antes do exterior… Como sua “girlfriend”, a agente Carter (uma das melhores da S.H.I.E.L.D., na sua época), e o doutor responsável pela criação do C.A., Dr. Erskine.

Capitão América

Capitão América

 

A árvore da vida, a vida da árvore

Assim como a árvore cresce e vai espalhando seus ramos por todos os lados, em sua busca constante pela liberdade, somos nós. A seiva bruta, transportada pelo xilema, é fotossintetizada, tornando-se seiva elaborada, que nutre a planta e permite o seu crescimento. Dessa mesma forma, os sonhos são sintetizados pela nossa mente, nutrindo nossa alma. Entretanto, quando estamos plantados em terreno fértil, esses ideais que tanto enriquecem o solo, são a própria causa da seca fisiológica. Vamos definhando, secando aos poucos, e a única certeza que temos é a morte. E mesmo que viéssemos a crescer e a nos tornar uma Árvore de Tule, nem os sonhos, nem os ramos, e a busca pela fuga da imobilidade, seriam suficientes para nos tirar do lugar. E ainda assim queremos viver, e nossa única esperança é sonhos, nossa seiva bruta… Justamente aquela que pode nos tirar a vida.

 

Arvorear