Luna no céu

Por Gustavo Martinez e Lais Takada

Era uma vez, Luna. Não, melhor não começar com era uma vez. Ao leitor mais desavisado, pode parecer um conto divertido e entusiasmante, onde as coisas tendem a dar certo e seus personagens acabam felizes. Pode até ser que seja. Não sei. Estamos ainda no primeiro parágrafo, de modo que me parece precipitado tirar conclusões.

Já no segundo, pulamos o início conturbado, e conhecemos Luna, de fato. Como prometido, Luna é uma garota de 16 anos, com uma mente um tanto quanto diferente em relação às garotas de sua idade. Tinha uma paixão tão inexplicavelmente curiosa quanto curiosamente insana. Amava o universo, e vivia a pensar na imensidão das coisas, no movimento das ruas, mo ciclo entrópico da vida e da cidade, vivendo sempre distante e distraída.

Nossa heroína não era muito vaidosa. De heroína em si, não tinha muita coisa. Tinha medo de viver na mesma proporção em que vivia com medo. Era recheada de dúvidas, e sua única certeza é que todas elas eram complexamente insolucionáveis. Evitava sempre tomar decisões, e tentava sempre fazer com que os outros aturassem esse fardo por ela. Andava sempre com camisas simples, geralmente das bandas de rock internacional que gostava, e ainda mais geralmente, pretas. Alguns dizem que nunca fora vista sem sua tradicional calça jeans surrada e seu tênis casual velho e sujo. Seu cabelo, castanho escuro e longo, vivia solto, de modo harmonioso com sua pele branca e seus olhos grandes e escuros. Pode-se dizer que era bonita.

Talvez você não esteja interessado em como Luna era, ou deixava de ser. Mas falo de Luna com imensa nostalgia e grande carinho, de modo que não poderia simplesmente introduzi-la nesta breve história sem lhe dar uma digna descrição. Mas não se preocupe, já estou iniciando a história, de fato.

digitalizar0002Certo dia, andando pela cidade em uma tarde ensolarada, porém fria, Luna observou um estranho e divertido fluído rosa, que se esgueirava por uma estreita rua, e parecia não ter fim. Com contornos vistosos e brilhantes, o fluído parecia a convidar para dançar. Sem pensar duas vezes, Luna o seguiu, tentando entender porque as outras pessoas não faziam o mesmo.

É importante notar que cumpro minha palavra, pois pela segunda vez nessa história, cumpri o que havia dito. Sem mais delongas, continuemos a história.

Andou por um bom tempo até achar o início, ou o fim, ou a origem do rastro cor de rosa. Não saberia dizer ao certo quanto tempo andou, ou que distância percorreu, mas mesmo que soubesse, esses dados não acrescentariam qualquer valor a sua experiência, e seriam facilmente questionados pela física moderna. Deparou-se com um sobrado, bem cuidado, porém abandonado. Decidiu-se sem saber bem o porquê questionar-se se deveria ou não entrar, mas sua curiosidade venceu a prudência, e ela entrou para desvendar o que havia lá, mesmo sem saber o que era exatamente “lá”.

O que viu, então, superou todas as suas mais esplendorosas expectativas. De início, encontrou inúmeras formas geométricas, prismas e objetos coloridos, dispostos caoticamente em uma prateleira imensuravelmente grande, e que, como bem observou Luna, não deveria caber dentro do sobrado. Intrigada, decidiu que se tratava apenas de um erro de proporção da realidade, e resolveu esquecer o assunto.

Mais abaixo, ainda na prateleira, encontrou CDs e LPs das bandas que mais gostava. Ficou maravilhada, e sua curiosidade só aumentava. Onde estava? O que era aquele fluído rosa? Quem teria feito tudo isso?

Antes de discutirmos um pouco mais sobre essas e tantas outras dúvidas que permeavam a cabeça de Luna, precisamos fazer uma pausa para nos redimir com ela. Além do mais, escrever contos é difícil, e estou cansado. Como já dito, nossa heroína não se enquadra bem na definição formal e matemática de herói.  Mas insisto em chamá-la assim. Em partes porque a amo. E em partes porque, em meio a tantas incertezas e indefinições, Luna nunca deixou de sonhar. Nunca deixou de acreditar que o universo dentro de sua cabeça era muito mais importante que qualquer restrição externa, e por isso, contra toda e qualquer influência, nunca deixou de ser ela mesma.

Agora sim, confiantes e redimidos, seguimos em frente.

Destemida e cada vez mais inquieta, Luna subiu as escadas, e encontrou uma exposição minuciosa e muito bem elaborada do sistema solar, com cartazes e maquetes, organizada de forma muito didática e esclarecedora. Achou tudo encantadoramente estranho, e estranhamente deslumbrante. Ao aproximar-se mais das maquetes, de uma forma súbita e completamente inesperada, encontrou um cachorro, sentado elegantemente, e olhando para ela de maneira inteligente. Com cuidado e sem movimentos bruscos, o cachorro aproximou-se e disse:

– Olá, Luna. Meu nome é Jetul. Você me parece com dúvidas. Posso ajudá-la?

Não sei descrever exatamente o que se passou pela cabeça de Luna. De fato, nem ela mesmo poderia dizer como se sentiu. Suas pernas tremeram, e por pouco não caiu sentada. Ainda espantada, conseguiu formar algumas palavras, e iniciar um diálogo com o interessante cão.

– Como você sabe meu nome? – perguntou, enfim.

– Ora, por favor, não temos tempo. Evitemos trivialidades e partimos ao que interessa. Tenho certeza que você tem dúvidas muito mais pertinentes do que essas questões burocráticas. – respondeu-lhe Jetul, de modo carinhoso e paternal.

– O que era o fluído rosa? – instigou Luna. Aqui vale a pena fazermos uma observação. Mesmo que tenhamos dado muitas voltas, e que o conto pareça um tanto complexo, ele, na verdade, é muito simples, e toda a atenção deve-se girar em torno do fluído rosa. Não porque ele seja, de fato, mais importante para a história do que qualquer outro elemento desta. Somente e tão somente porque essa foi à primeira pergunta que veio a cabeça de Luna, em meio ao turbilhão que era sua mente naquele instante.

– Agora estamos chegando a algum lugar – disse Jetul, que se demonstrou imensamente animado. – Eu estou aqui para te mostrar o poder do conhecimento e do questionamento. Para que você contemple a criação em sua essência. O fluído rosa é o caminho que precisa ser seguido para que isso se torne possível. É para atrair curiosos, sonhadores, mentes apaixonadas, como você. Diga-me Luna, onde gostaria de ir, nesse exato momento?

– Saturno. – respondeu Luna, sem hesitar. Não se sabe ao certo porque sua resposta foi tão imediata, nem como ela decidiu abruptamente que poderia confiar em Jetul. De fato, Luna sempre quis conhecer Saturno.

Tão logo quanto ouviu a resposta de Luna, Jetul mostrou-se mais ágil do que aparentava, andou até uma parte baixa da imensa prateleira e trouxe consigo uma pesada caixa, que depositou sobre a mesa dos fundos do sobrado, convidando a menina para juntar-se a ele. Na caixa havia uma garrafa de uísque que aparentava ser velho, dois copos vidro, um pote de um vivo pó azulado, e uma tigela com milho.

Serviram-se e brindaram meio copo do uísque, o que foi incrivelmente difícil para o infantil paladar de Luna. Em seguida, Jetul colocou a tigela de milho à sua esquerda, retirou um punhado de pó do pote, que em seguida fechou cuidadosamente, e jogou o pó sobre suas cabeças. O pó mágico teletransportador, então, os levou para Saturno.

Como até mesmo um leitor não tão atento pode imaginar, a viagem para Saturno não é fácil, e as rotas hiperespaciais encontram-se constantemente com um trânsito complicado. Para a espera não ficar cansativa em demasia, faremos uma última e derradeira pausa para divagarmos sobre dois aspectos importantes dentro dessa narrativa.digitalizar0004

O primeiro deles são as viagens realizadas com um pó mágico transportador. Um pó mágico tem a função de levar uma pessoa de um lugar para outro de uma forma mágica, não necessariamente por teletransporte. O teletransporte, por sua vez, por motivos óbvios, leva uma pessoa de um lugar para outro, necessariamente por teletransporte. O interessante pó azulado de Jetul, descrito como pó mágico teletransportador, leva uma pessoa de um lugar para outro, de uma forma teletransportadoramente mágica, ou magicamente teletransportadora. As diferenças são meramente gramaticais. Quanto ao tom azulado, pode-se dizer que a cor era para efeitos meramente visuais e estéticos.

O segundo e último ponto a ser discutido é o milho, a comida preferida de Luna e Jetul. O milho apresenta uma importante influência na história social e política humana, embora este fato passe, geralmente, despercebido. É notável também a grande versatilidade culinária que ele apresenta. Talvez ambos os fatos estejam relacionados. Afinal, quem imagina a vida na terra sem pipoca? E da mesma forma em que é facilmente transformado em pipoca, o milho pode também ser cozido, e continuar sendo uma excelente refeição, seja enlatado, ou em pequenos suportes de isopor, comumente encontrados nas regiões litorâneas.

Esclarecidos tais pontos, seguimos para a conclusão de nossa história.

Chegando a Saturno, encontraram diversos elementos, gases, metais, e as mais inusitadas e curiosas substâncias. Viajaram nas nuvens de amônia, e surfaram em ventos de até 1800km/h, enquanto dirigiam-se para Titã, a mais bela lua daquele majestoso planeta. Lá sentaram e se acomodaram, enquanto o maior espetáculo da vida de Luna estava para acontecer. Todo o Universo, a criação em sua completa abrangência, começou a desfilar em frente aos seus brilhantes, curiosos e insaciáveis olhos. Planetas, cometas, estrelas, sóis e luas, em uma dança impecável e que deixou a pequenina garota maravilhada.

Após um tempo indescritivelmente longo, Jetul disse a Luna que era hora de voltar, e, da forma como chegaram, abandonaram Saturno. Para agilizar a narrativa, pularemos a viagem e admitiremos que eles chegaram à Terra no exato momento em que deixaram o planeta anterior.

Estava anoitecendo, e Luna precisava voltar para casa. Despediu-se de Jetul e disse que voltaria assim que possível. Jetul dirigiu-lhe um olhar cheio de lágrimas, e disse que também estava de partida. De momento, a menina não compreendeu exatamente o que aquilo queria dizer, e foi pra casa com a completa esperança de que veria seu amigo no dia seguinte, e juntos, explorariam o universo.

E no dia seguinte, como se esperava de nossa heroína, lá estava ela, em frente ao sobrado, gritando por Jetul, que não estava mais lá. E nunca mais voltaria. Tudo estava intacto, exceto pelo fluído rosa, que havia desaparecido. Ao se aproximar da maquete de Saturno, Luna encontrou um bilhete, com uma caligrafia descuidada de um cachorro apressado, e molhado por lágrimas, que dizia: “Busque sempre mais”.

Dia após dia, todos os dias, Luna voltou ao sobrado, que agora era, para ela, muito mais do que um sobrado, mas um templo, um refúgio. Lá estudava, dançava, sonhava. Não esperava mais encontrar Jetul, mas tinha certeza de que ele estava ali, com ela, o tempo todo.

Novamente, tratarei de dados imprecisos. Não se sabe ao certo quando foi que ocorreu, mas Luna decidiu ser astrônoma. E conseguiu. Continuou a mesma menina que sempre foi, porém uma menina crescida, adulta, e astrônoma. Continuou alimentando seus sonhos, sendo alimentada por eles, e vivendo por eles. E continuou na espera do dia em que reencontraria o misterioso fluído rosa, para que pudesse conversar com Jetul e visitar Saturno. Uma última vez.

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