Os sapatos vermelhos

Os sapatos vermelhos estavam ali. Parados. Esperando serem usados. Mas não por qualquer um, pois queriam apenas uma garota. A que estava deitada a uns 500 metros de onde o sapato estava.

A vida desta garota era lindamente fácil. Fazia coisas legais a todo o segundo. E eram realmente legais. Ela adorava ouvir blues, rock e até um pouco de reggae. (Os sapatos dela eram pretos, um preto muito vivo). E enquanto ouvia essas músicas, a sua mente dançava. Não com o corpo, porque era superficial para ela, mas com a alma, com o espírito que a levava a jardins floridamente pretos e noturnos. Não apenas na música, mas em outras coisas ela também se destacava como no gosto pelas cores. Uma época pensou que fosse amarelo, a sua cor preferida, e de fato, ela ainda sentia brilhos solares em sua barriga quando via essa cor.Porém uma cor em especial, passou a cativá-la mais do que nunca. (Morango. Pimenta. Coração).  Sim, vermelho era a sua cor. Com ela, sentia a suavidade de rosas, a luxúria de casas mal-assombradas, e o fervor de pimentinhas ardidas. O seu amor por HQ’s era estranhamente lindo, porém diferente das outras pessoas, que sabiam de tudo sobre todos os super-heróis. Ela os amava, mas tinha as suas preferências.

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Ela não falava. Às vezes até queria. Mas preferia ouvir e conversar com seus próprios pensamentos e medos. Como num dia, que irei narrar a seguir.

“A garotinha da cor vermelha estava temerosa. Acabara de ver o vulto assustador. Ela não podia fazer nada (e não podia mesmo), então resolveu conversar com o tal Tranido (nome que ela deu ao monstro por achar fofo). E foi assim:

– Querido Tranido, por que me assombras assim? – perguntou timidamente, e para sua surpresa ele respondeu:

– Minha sssssssssss cara vermelhinha, peço perdão pela sombra, ssssssssssss, mas a minha vergonha é maior do que a sua – falou Tranido, mais timidamente ainda.

– Então já que não és mau, acho que não haverá mais motivos para a minha timidez. Muito boa noite Sr Tranido, gostaria de compartilhar comigo um banho de arroz?

O resto da história já deve ser fácil de imaginar; criaram uma amizade fofamente amiga, e o único temor que ela tinha era agora do amanhecer”.

A nossa menina adorava sociologia, estudar o comportamento das pessoas… Ela fazia isso sempre, com os olhos, apenas.

Mas mais do que todas essas coisas, a pequena garota amava a sua gata, que se chamava Ane Marie. Um nome um tanto engraçado, mas com ele dá pra formar muitas coisas, como Mari Ane. Essa pequena gatinha que a amava também, a todo instante subia em seu colo sentado e se remexia deixando até um pouco de inveja na menina avermelhada. Mas o amor era tanto, que era impossível deixar a inveja vencê-lo. Por mais estranho que pareça, era aquela gata que lhe ensinava a vida. E a essa gata, ela daria tudo o que tinha e conseguiria o que não tinha para tê-la também.

(Um detalhe importante do qual me esqueci de comentar. A garotinha adorava meias de dedinho)

(Outra observação. Para entender a incrível história da menina e da gata, você terá que ler outra história, chamada Uma fita vermelha na bola de lã).

Nessa parte da história haverá dois problemas vermelhamente infelizes, que planejava deixá-los para o fim, porém, será impossível prosseguir com a história sem o conhecimento do leitor sobre esses fatos.

O primeiro é o nome da menina. Seu nome era Lola. E ela o amava. Na verdade, era seu nome preferido depois de Ane Marie, por causa de seu amor pela gata.

O segundo problema, e o menos importante, é o fato de a garota ter paralisia completa. Ela não mexia nada, nem um só músculo. Na verdade, mexia as pálpebras e conseguia movimentar levemente as suas narinas e suas orelhas, mas só depois de muito treino com Ane Marie.

Voltando a sua vida… Lola um dia passeava pela rua com sua gata e sua cadeira negra. Caía um leve orvalho. Quando se deparou com os sapatos vermelhos mais encantadores de sua vida. No momento, ela o quis desesperadamente, mas apesar dos gostos burgueses já apresentados, a garota não tinha dinheiro. Então logo fez com que sua vontade descesse para o umbigo.

Ane Marie lhe sugeriu que entrasse para prová-los. Lola não resistiu e entrou rapidamente (ou rodantemente, como preferir). Quem estava lá dentro era um alguém, que colocou em seus pés os sapatos dançantes. Ao olhar para o garoto a princípio, não o viu, mas depois de colocar os sapatos, deduziu muitas coisas sobre o menino. Coisas que serão enumeradas a seguir.

1-      Amava coisas loucamente físicas e caóticas

2-      Universo❤

3-      Escrevia muito bem

4-      Tinha uma fofura jorrante

5-      MG para ele era Minas Gerais

 

Não sabia muitas coisas. Não sabia nada. Mas até que sabia bastante por um mero olhar. Ela não sabia bem o que era aquilo, mas a pessoa que tinha lhe posto os sapatos, a fazia sentir dentro de si uma girafa dançante, fazendo-a rir sozinha.

Depois disso, foi embora. Dizendo nada. Como sempre.

Porém no dia seguinte, os sapatos a chamaram novamente, e ela foi lá, sentir o sapato. Os encontros passaram a ser repentinos, ao ponto dela aprender algo mais sobre o menino. Seu nome? Era Tirano (e esse nome realmente a havia encantado também).

Numa manhã, de 8 de junho, algo lhe disse algo. E ela até que tentou conseguir mexer as orelhas o suficiente para tampá-las, mas as tentativas eram inúteis. Ouviu e ouviu, e levemente, e suavemente, sem perceber, seus dedos dos pés começaram a se mover. Reação da menina? Nenhuma! Ela não havia sequer percebido, mas algo havia. Um sorriso. Um sorriso de uma gata. Como os dos gatos de Cheshire.

Naquela noite, seus movimentos aumentaram; assim como no dia seguinte também. E o que havia? Havia um sorriso. Havia um Cheshire.

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Os movimentos aumentavam e aumentavam, até que pararam de progredir. O que faltava? Lola não sabia dizer, porque havia dois dias que tinha conseguido comprar o sapato que tanto queria. Não era possível o causador da falta de progresso ser o vermelho. Mas essa era a opinião de Ane Marie. E por confiar em sua gatinha de olhos e mãos vendadas, devolveu o sapato à loja. E dessa vez houve um convite e houve uma resposta.

– Volte aqui amanhã – Disse Tirano – Se não o quis em sua casa, prossiga com o que fazia antes de comprá-lo.

E já com a fala desenvolvida, Lola disse:

– ‘-‘ Ok, eu virei.

E veio, e provou,  então algo de novo começou…

Lola sairia algum dia de sua cadeira negra? Um grande pequeno sorriso dizia que sim. Ela vermelha? Nada dizia, apenas vivia, ouvia, aprendia e se mexia.

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Após ter o completo movimento de seus braços, Lola fez algo. Fez um poema. E a todos citarei, pois há algo nele que me deixa boquiaberto. E isso é a resposta. A resposta que Lola encontrou, mesmo sem saber, foi o amor. Ela amava aquele menino? Talvez ainda não o amasse, mas o amor estava ali, de um jeito ou de outro. Seja através do sapato, ou do vermelho. Ali ele era.

“Doce cereja que agora almofada os meus pés,

Cubra-me também nas mãos, e talvez eu veja o que és

Mas talvez nem nas mãos, nem nos pés precise estar para que eu te descubra

Talvez precise estar em minha unha

Mas minhas unhas são pequenas, são duras

Quero mesmo que você esteja onde os olhos não procuram

Esteja nos ovos de manhã

Esteja no bacon do cutãn

Mas esteja também nos pés que me assombram

Nas danças que me aguardam

E no poço de água que recolho no verão

Esteja no pimentão do macarrão

E nas meias enfeitadas de pimentas

Esteja em cubículos em minhas bochechas

E em tiras nas geladeiras

Espero que ao olhar para o pôr do sol eu veja você

E ao acordar abrace um lance

de escadas brilhantes

E que balance o lustre cantante

No fim das contas, quero você em um só lugar

Em todo momento

Que tal você ficar comigo no relento?

Porque no relento você o fará de novo

Você se colocará nos meus pés com muito entoo

E por favor, isso te peço com certeza

Nunca saia dos meus pés, para não tirar minha clareza

E que mesmo que você fique sujo,

Que o orvalho do amor repare tudo!”

– Camila Matias  09/06/14    21:30

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