Criação Imperfeita, Marcelo Gleiser

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Criação imperfeita, Marcelo Gleiser

Há tempos, cientistas do mundo todo buscam por uma teoria que unifique o cosmos e explique todo o comportamento do Universo. Essa teoria, chamada de teoria de tudo, seria a responsável por interligar a física do muito grande (que rege o funcionamento do Universo) e a do muito pequeno (que rege o funcionamento de partículas elementares da matéria, por exemplo). Em seu livro Criação Imperfeita, Marcelo Gleiser mostra como a Natureza é imperfeita e o cosmos repleto de assimetrias que foram essenciais para o surgimento da vida. A partir disso, ele argumenta que a teoria de tudo não pode existir, já que a Natureza não se comporta de modo simétrico, logo, não faria sentido uma única teoria explicar todo o seu funcionamento.

Muitas teorias são aceitas como verdades em determinada época, até que se prove que estão incorretas anos mais tarde. Kepler, por exemplo, acreditava que os planetas do sistema solar não eram 6 (até então, Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno) por acaso, já que existiam 5 poliedros regulares conhecidos desde o tempo dos gregos, e concluiu então que entre um planeta e outro havia um sólido geométrico. Até o século passado, cientistas acreditavam que a luz precisava de um meio para se propagar, chamado éter, conhecido desde a época dos gregos antigos. Em 1887, Michelson realizou um experimento que, caso existisse, o éter obrigatoriamente seria detectado. Entretanto, os resultados obtidos não mostraram nenhum sinal de qualquer substância que pudesse vir a ser o éter. Michelson morreu acreditando no éter, mesmo seus experimentos provando o contrário. O desejo de acreditar em algo impossível torna-o plausível.

Michael Faraday unificou a eletricidade e o magnetismo a partir de experimentos nos quais percebeu que ambos se tratavam de um único fenômeno, o eletromagnetismo. Sua ambição era unificá-los também com a gravitação, porém, não obteve sucesso. Maxwell equacionou as observações de Faraday e provou que a luz é uma onda eletromagnética e não precisa de meio para se propagar. Entretanto, a unificação da eletricidade com o magnetismo é imperfeita. Enquanto existem monopólos elétricos, não foram detectados até hoje monopólos magnéticos. Ao se quebrar um ímã (com pólos magnéticos norte e sul em cada extremidade), são obtidos dois novos ímãs, cada um com pólos norte e sul.

A Natureza também aparenta ter várias preferências, como, por exemplo, há mais matéria do que antimatéria no Universo. Se a quantidade de ambas fossem comparáveis, a aniquilação entre as duas seria inevitável e geraria uma enorme dose de raios gamas e apenas alguns prótons e antiprótons teriam sobrevivido, o que seria pouco para gerar todas as estruturas que observamos no Universo. Ou seja, sem essa assimetria, muito provavelmente não estaríamos aqui.

A operação de paridade matematicamente, transforma um objeto em sua imagem no espelho. Quando aplicada a uma partícula que gira, pode inverter o sentido da sua rotação (spin). Entretanto, neutrinos não são simétricos de acordo com a operação de paridade, ou seja, eles possuem uma orientação espacial preferida, neutrinos apenas interagem com a matéria girando da direita para a esquerda. A assimetria rotacional dos neutrinos é descrita pelo nome de quiralidade, como também ficou conhecida a assimetria de certos compostos orgânicos. Pasteur realizou experimentos com o ácido tartárico, um composto orgânico comum em uvas e descobriu que as moléculas do ácido podem existir em duas formas, idênticas, mas que não podem ser superpostas, como uma imagem refletida da outra. O ácido sintetizado trazia os dois tipos de moléculas, enquanto que o encontrado nas uvas apresenta sempre um único tipo de molécula, ou seja, a Natureza exibe uma assimetria molecular. Entretanto, a orientação espacial não é a única onde o Universo faz suas preferências. O cosmos também tem uma orientação temporal preferida. Apesar de existirem sistemas que obedecem à reversão temporal, ou seja, não exibem uma direção fixa no tempo podendo evoluir nos dois sentidos sem qualquer diferença, como um pêndulo oscilando no vácuo, por exemplo, ou um fóton colidindo com um elétron, é fácil notar que a Natureza se desloca no tempo sempre no sentido passado – futuro.

Essas e muitas outras assimetrias do Universo são o que possibilitou que este tivesse as condições necessárias para que fosse como o conhecemos hoje e mais, para que a vida surgisse e estivéssemos aqui. Esperar encontrar uma única teoria que explique todo o comportamento e funcionamento do Cosmos, com suas assimetrias e imperfeições, é uma perda de tempo. Afinal, nosso conhecimento do mundo é limitado pelo que nossos instrumentos de medida podem medir e pelo que podemos observar, nunca seremos capazes de medir tudo o que existe, logo, uma teoria de tudo não faz sentido. Não vamos obter uma única resposta final pra tudo, mas sim sequências de descrições cada vez mais precisas do Universo. Mesmo que um dia tenhamos uma visão universal e imparcial do cosmo, sem subjetividade, ainda assim o Universo continuará a ser uma construção humana. “O Universo é o que vemos dele”, segundo Marcelo Gleiser.

Seu texto flui bem e apesar do conteúdo ser muitas vezes considerado de difícil compreensão, ele é extremamente didático e claro, explicando cada termo e expressão de modo que qualquer um sem formação na área possa acompanhar. O autor também argumenta e justifica muito bem as suas opiniões, sendo objetivo na medida certa e seguindo uma linha de raciocínio bem construída. Diferente do autor, acredito na possibilidade de que o cosmos seja uma unidade, mas que, mesmo se for, não está ao alcance do conhecimento humano, visto que para se obter uma teoria que explique tudo é necessário primeiramente, conhecer tudo. Apesar da teoria das cordas ter potencial para ser a teoria de tudo, muito do que ela impõe ainda precisa ser provado empiricamente. É claro que a teoria das cordas é promissora, não há como testá-la diretamente. Este é um dos maiores problemas das teorias modernas, segundo Gleiser, elas não podem ser refutadas, somente comprovadas.