A realidade oculta, Brian Greene

13095_gg

A realidade oculta, Brian Greene

Por muito tempo, a palavra Universo significou tudo o que existe e, por isso, num primeiro momento “multiversos” soa como uma contradição, já que sugere mais de um Universo. Conforme a ideia de multiverso foi se desenvolvendo, a interpretação de universo precisou ser alterada de modo a representar porções da totalidade a que alguém pode ter acesso. Muitas teorias sobre multiversos procuram explicar suas origens e como funcionam, seja partindo dos mesmos princípios, como a teoria das cordas, por exemplo, ou então de ideias diferentes, e Brian Greene em seu livro A realidade oculta, publicada pela Companhia das Letras em 2012, procura mostrar como todas essas teorias levam a uma única resposta: universos paralelos existem.

Uma dessas teorias é a do multiverso inflacionário, que afirma uma expansão rápida inicial do cosmo, dada por uma pressão negativa que gera uma gravidade repulsiva. O responsável por essa expansão seria o campo ínflaton, um campo hipotético que tem valor uniforme por toda a região do espaço, preenchendo essa região não só com energia, mas também com pressão negativa. O valor de um campo pode mudar e isso faz com que a gravidade repulsiva opere apenas durante um breve período de tempo. No início, o ínflaton estava com alto nível de energia potencial e pressão negativa, o que desencadeou um surto de expansão inflacionária, descarregando assim sua energia potencial. Com essa queda, a energia e a pressão negativa nele contidas se dissipam e tem-se o fim do período de expansão intensa e rápida. A energia do ínflaton dissipada condensa-se então em uma sopa de partículas que enchem o espaço. A teoria inflacionária explica a temperatura uniforme do universo: quando tudo estava condensado e bem próximo, havia um equilíbrio térmico estabelecido, de modo que tudo se expandiu tão rápido que não houve tempo suficiente para a temperatura mudar em alguns lugares. Houve desde então um resfriamento progressivo, mas a uniformidade estabelecida antes determina o resultado constante de hoje.

Uma ótima analogia visual para enxergar esse multiverso inflacionário é imaginá-lo como um queijo suíço, onde o material do queijo é a região onde o campo do ínflaton tem valor alto e os buracos onde ele diminui. Esses buracos seriam as regiões como a nossa que deixaram a expansão super-rápida e converteram a energia do campo ínflaton em partículas, também chamados de universos-bolha. As partes cheias de queijo expandem-se cada vez mais por estarem submetidas à expansão inflacionária. Se a construção física da teoria inflacionária for eterna, então o multiverso é inevitável. Um número infinito de ocasiões com um número finito de combinações garante um número infinito de repetições, supondo que o Universo seja infinito. Há um limite para a quantidade de matéria e energia que pode existir dentro de uma região do espaço de um tamanho determinado. O número de diferentes configurações possíveis das partículas que existem dentro de um horizonte cósmico é finito. Logo, com um número finito de arranjos possíveis de partículas, esses arranjos terão de repetir-se um número infinito de vezes, garantindo universos idênticos, como outros iguais ao nosso, outros parecidos, com muitas semelhanças, mas com constantes da natureza diferentes das nossas por exemplo, ou até mesmo totalmente incompatíveis com a vida. Os universos do multiverso podem ter diferentes características físicas, ainda que todos os universos sejam governados pelas mesmas leis fundamentais. Com o tempo, esses retalhos cósmicos aumentarão e se superporão, ou seja, os universos paralelos serão fundidos. No multiverso inflacionário, os universos podem colidir: se duas bolhas se formam relativamente próximas uma à outra, o espaço entre elas poderá ser tão pequeno que sua taxa de separação será menor do que sua taxa de expansão.

Durante anos, físicos e cientistas do mundo todo buscam por uma teoria de tudo, que possa unificar toda a natureza. Atualmente, a grande candidata a teoria de tudo é a teoria das cordas, que garante a união entre a gravidade e a mecânica quântica e também a unificação de todas as forças, entre outras coisas. A teoria das cordas diz que as partículas fundamentais da matéria são filamentos semelhantes a cordas e não pontos adimensionais, e que por causa das limitações do poder de resolução dos nossos instrumentos as cordas nos aparecem como pontos. A teoria das cordas resolve o problema da unificação, pois as cordas, diferente das partículas puntiformes que existem em único local, são dotadas de extensão espacial e apresentam uma pequeniníssima dispersão, o que dilui as turbulentas flutuações quânticas que prejudicavam as tentativas anteriores de juntar a gravidade com a mecânica quântica. A teoria das cordas não se trata apenas de cordas, mas também de membranas, que também são capazes de vibrar como as cordas. Essas membranas também podem ser chamadas de branas. Chegamos então à outra teoria de multiverso: o multiverso das branas. Assim como as cordas podem ser enormes de acordo com a quantidade de energia, as branas também podem e a teoria diz que, inclusive, estamos vivendo em uma delas. Analogamente, essa brana seria como uma única fatia de pão de forma, correspondendo ao nosso universo, e todas as outras fatias do pão também seriam outros universos. As cordas e as branas estão relacionadas pois as branas são o único lugar em que as pontas das cordas-traços (as cordas podem ter forma de laços fechados ou traços) podem residir. Se nos chocássemos com outra brana, a energia contida em seu movimento produziria um enorme fluxo de partículas e radiação que eclipsaria todas as estruturas organizadas e haveria então um ambiente quente e denso, conforme as condições do Big Bang. Muitos outros assuntos foram discutidos pelo autor, como buracos negros e energia escura, e nove teorias sobre multiversos foram abordadas no livro A realidade oculta, aqui foram tratadas apenas duas: o multiverso inflacionário e o das branas, visto que estas são suficientes para dar noção sobre o objetivo do autor com este livro.

Quando se trata de divulgação científica, a didática é fundamental e para isso, o uso de analogias é muitas vezes indispensável. O público alvo de um livro como esse não é alguém pós-graduado na área ou com conhecimentos específicos de determinado assunto, nem pode ser. Afinal, o objetivo deve ser tornar o conteúdo científico acessível ao público leigo, e neste ponto, Brian Greene não respondeu de acordo às expectativas. Claro que essa tarefa não é fácil, visto que o livro traz um conteúdo denso e de difícil interpretação. O objetivo do autor com este livro, entretanto, foi alcançado plenamente, já que sua conclusão sobre multiversos foi bem argumentada, inclusive usando nove teorias distintas que a justificam. O texto todo é bem estruturado e com conteúdo histórico importante pra se entender algumas das ideias trabalhadas. A realidade oculta é um ótimo livro pra quem já tem interesse por assuntos como universos paralelos, teoria das cordas, buracos negros e matéria escura, e também algum conhecimento prévio sobre, pois aproveitará melhor a leitura.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s