Os sapatos vermelhos

Os sapatos vermelhos estavam ali. Parados. Esperando serem usados. Mas não por qualquer um, pois queriam apenas uma garota. A que estava deitada a uns 500 metros de onde o sapato estava.

A vida desta garota era lindamente fácil. Fazia coisas legais a todo o segundo. E eram realmente legais. Ela adorava ouvir blues, rock e até um pouco de reggae. (Os sapatos dela eram pretos, um preto muito vivo). E enquanto ouvia essas músicas, a sua mente dançava. Não com o corpo, porque era superficial para ela, mas com a alma, com o espírito que a levava a jardins floridamente pretos e noturnos. Não apenas na música, mas em outras coisas ela também se destacava como no gosto pelas cores. Uma época pensou que fosse amarelo, a sua cor preferida, e de fato, ela ainda sentia brilhos solares em sua barriga quando via essa cor.Porém uma cor em especial, passou a cativá-la mais do que nunca. (Morango. Pimenta. Coração).  Sim, vermelho era a sua cor. Com ela, sentia a suavidade de rosas, a luxúria de casas mal-assombradas, e o fervor de pimentinhas ardidas. O seu amor por HQ’s era estranhamente lindo, porém diferente das outras pessoas, que sabiam de tudo sobre todos os super-heróis. Ela os amava, mas tinha as suas preferências.

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Ela não falava. Às vezes até queria. Mas preferia ouvir e conversar com seus próprios pensamentos e medos. Como num dia, que irei narrar a seguir.

“A garotinha da cor vermelha estava temerosa. Acabara de ver o vulto assustador. Ela não podia fazer nada (e não podia mesmo), então resolveu conversar com o tal Tranido (nome que ela deu ao monstro por achar fofo). E foi assim:

– Querido Tranido, por que me assombras assim? – perguntou timidamente, e para sua surpresa ele respondeu:

– Minha sssssssssss cara vermelhinha, peço perdão pela sombra, ssssssssssss, mas a minha vergonha é maior do que a sua – falou Tranido, mais timidamente ainda.

– Então já que não és mau, acho que não haverá mais motivos para a minha timidez. Muito boa noite Sr Tranido, gostaria de compartilhar comigo um banho de arroz?

O resto da história já deve ser fácil de imaginar; criaram uma amizade fofamente amiga, e o único temor que ela tinha era agora do amanhecer”.

A nossa menina adorava sociologia, estudar o comportamento das pessoas… Ela fazia isso sempre, com os olhos, apenas.

Mas mais do que todas essas coisas, a pequena garota amava a sua gata, que se chamava Ane Marie. Um nome um tanto engraçado, mas com ele dá pra formar muitas coisas, como Mari Ane. Essa pequena gatinha que a amava também, a todo instante subia em seu colo sentado e se remexia deixando até um pouco de inveja na menina avermelhada. Mas o amor era tanto, que era impossível deixar a inveja vencê-lo. Por mais estranho que pareça, era aquela gata que lhe ensinava a vida. E a essa gata, ela daria tudo o que tinha e conseguiria o que não tinha para tê-la também.

(Um detalhe importante do qual me esqueci de comentar. A garotinha adorava meias de dedinho)

(Outra observação. Para entender a incrível história da menina e da gata, você terá que ler outra história, chamada Uma fita vermelha na bola de lã).

Nessa parte da história haverá dois problemas vermelhamente infelizes, que planejava deixá-los para o fim, porém, será impossível prosseguir com a história sem o conhecimento do leitor sobre esses fatos.

O primeiro é o nome da menina. Seu nome era Lola. E ela o amava. Na verdade, era seu nome preferido depois de Ane Marie, por causa de seu amor pela gata.

O segundo problema, e o menos importante, é o fato de a garota ter paralisia completa. Ela não mexia nada, nem um só músculo. Na verdade, mexia as pálpebras e conseguia movimentar levemente as suas narinas e suas orelhas, mas só depois de muito treino com Ane Marie.

Voltando a sua vida… Lola um dia passeava pela rua com sua gata e sua cadeira negra. Caía um leve orvalho. Quando se deparou com os sapatos vermelhos mais encantadores de sua vida. No momento, ela o quis desesperadamente, mas apesar dos gostos burgueses já apresentados, a garota não tinha dinheiro. Então logo fez com que sua vontade descesse para o umbigo.

Ane Marie lhe sugeriu que entrasse para prová-los. Lola não resistiu e entrou rapidamente (ou rodantemente, como preferir). Quem estava lá dentro era um alguém, que colocou em seus pés os sapatos dançantes. Ao olhar para o garoto a princípio, não o viu, mas depois de colocar os sapatos, deduziu muitas coisas sobre o menino. Coisas que serão enumeradas a seguir.

1-      Amava coisas loucamente físicas e caóticas

2-      Universo❤

3-      Escrevia muito bem

4-      Tinha uma fofura jorrante

5-      MG para ele era Minas Gerais

 

Não sabia muitas coisas. Não sabia nada. Mas até que sabia bastante por um mero olhar. Ela não sabia bem o que era aquilo, mas a pessoa que tinha lhe posto os sapatos, a fazia sentir dentro de si uma girafa dançante, fazendo-a rir sozinha.

Depois disso, foi embora. Dizendo nada. Como sempre.

Porém no dia seguinte, os sapatos a chamaram novamente, e ela foi lá, sentir o sapato. Os encontros passaram a ser repentinos, ao ponto dela aprender algo mais sobre o menino. Seu nome? Era Tirano (e esse nome realmente a havia encantado também).

Numa manhã, de 8 de junho, algo lhe disse algo. E ela até que tentou conseguir mexer as orelhas o suficiente para tampá-las, mas as tentativas eram inúteis. Ouviu e ouviu, e levemente, e suavemente, sem perceber, seus dedos dos pés começaram a se mover. Reação da menina? Nenhuma! Ela não havia sequer percebido, mas algo havia. Um sorriso. Um sorriso de uma gata. Como os dos gatos de Cheshire.

Naquela noite, seus movimentos aumentaram; assim como no dia seguinte também. E o que havia? Havia um sorriso. Havia um Cheshire.

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Os movimentos aumentavam e aumentavam, até que pararam de progredir. O que faltava? Lola não sabia dizer, porque havia dois dias que tinha conseguido comprar o sapato que tanto queria. Não era possível o causador da falta de progresso ser o vermelho. Mas essa era a opinião de Ane Marie. E por confiar em sua gatinha de olhos e mãos vendadas, devolveu o sapato à loja. E dessa vez houve um convite e houve uma resposta.

– Volte aqui amanhã – Disse Tirano – Se não o quis em sua casa, prossiga com o que fazia antes de comprá-lo.

E já com a fala desenvolvida, Lola disse:

– ‘-‘ Ok, eu virei.

E veio, e provou,  então algo de novo começou…

Lola sairia algum dia de sua cadeira negra? Um grande pequeno sorriso dizia que sim. Ela vermelha? Nada dizia, apenas vivia, ouvia, aprendia e se mexia.

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Após ter o completo movimento de seus braços, Lola fez algo. Fez um poema. E a todos citarei, pois há algo nele que me deixa boquiaberto. E isso é a resposta. A resposta que Lola encontrou, mesmo sem saber, foi o amor. Ela amava aquele menino? Talvez ainda não o amasse, mas o amor estava ali, de um jeito ou de outro. Seja através do sapato, ou do vermelho. Ali ele era.

“Doce cereja que agora almofada os meus pés,

Cubra-me também nas mãos, e talvez eu veja o que és

Mas talvez nem nas mãos, nem nos pés precise estar para que eu te descubra

Talvez precise estar em minha unha

Mas minhas unhas são pequenas, são duras

Quero mesmo que você esteja onde os olhos não procuram

Esteja nos ovos de manhã

Esteja no bacon do cutãn

Mas esteja também nos pés que me assombram

Nas danças que me aguardam

E no poço de água que recolho no verão

Esteja no pimentão do macarrão

E nas meias enfeitadas de pimentas

Esteja em cubículos em minhas bochechas

E em tiras nas geladeiras

Espero que ao olhar para o pôr do sol eu veja você

E ao acordar abrace um lance

de escadas brilhantes

E que balance o lustre cantante

No fim das contas, quero você em um só lugar

Em todo momento

Que tal você ficar comigo no relento?

Porque no relento você o fará de novo

Você se colocará nos meus pés com muito entoo

E por favor, isso te peço com certeza

Nunca saia dos meus pés, para não tirar minha clareza

E que mesmo que você fique sujo,

Que o orvalho do amor repare tudo!”

– Camila Matias  09/06/14    21:30

Danúbio azul

Por Gustavo Martinez

Amanhece o dia na Vila das Tucandeiras. A dura e tortuosa rotina recomeça, no transparecer do primeiro raio de sol. Sob a doce melodia das Cigarras Vizinhas, que cantam sem cessar, a marcha vai firme, fluindo como um rio, e, como o tempo, em duas direções. Enquanto umas vão, outras voltam. A batida dos pés é constante e esparsa, dançando com as flores e o vento.

A Vila das Tucandeiras é uma importante e conceituada cidade do universo dos Formigueiros. É considerada pela elite intelectual local como um grande centro artístico, e referencia em design urbanístico. Foi por anos um grande exemplo de organização e pioneira na introdução da música e da dança como motivação coletiva. A felicidade geral da nação Tucandeira era garantida.

A marcha em si, não era voltada para o extermínio cultural ou étnico de nenhum grupo dentre seus semelhantes. Não visava garantir os privilégios de um grupo social em detrimento da liberdade de outros. E não estava corrompido por interesses de governantes opressores. Muito pelo contrário, a liberdade de expressão e de pensamento sempre fora defendida e assegurada na Vila das Tucandeiras. Cada participante da marcha entendia seu papel, e o cumpria de forma digna e inquestionavelmente da melhor forma possível. Segundo especialistas socioeconômicos, e os dizeres populares, ela era o processo mais importante para a sobrevivência e manutenção da vida Tucandeira.Formigas-carregando-folhas1

Anda, corta, carrega, entrega, anda, dança, rápido. O movimento não para. Os sons encantam. Para os observadores internos, grandes e densas florestas, acompanhadas de uma dinâmica constante. Para externos, apenas gramíneas. O barulho surge destas e do mato seco ao redor coloca em cheque a confiabilidade das faculdades mentais deste segundo grupo. A conclusão óbvia é que se está louco. Mas o barulho existe. E basta se aproximar para um pouco mais para entendê-lo. Era a intensa movimentação das milhares de formigas, que garantiam a perpetuação do formigueiro. Sem vaidades, sem individualismo, e com uma consciência coletiva totalmente incompreensível para espécies baseadas em carbono ditas avançadas com terem o telencéfalo altamente desenvolvido.

Amanhece a noite na Vila das Tucandeiras. O sol se deita para descansar e brilhar no próximo dia. A lua sobe em seu estandarte, e reina, brilhando avassaladoramente. O turno do dia se retira, e entra o pessoal da madrugada. Os trabalhos continuam. Os mais apaixonados, dão breves pausas para contemplar a imensa imensidão que está sobre suas cabeças. Grande demais para qualquer compreensão.

A noite é fria, e o suor escorre de cada integrante do rio Tucandeiro que não cessa em seu movimento harmônico e caótico. Cada uma carregando dez vezes o seu peso, suas dores, desamparos e sentimentos. As cigarras não cantam mais. O orvalho brilha sobre as flores gigantes e maravilhosas que nascem e levam suas vidas batendo papo e floreando como quem não quer nada.

Um estrondo súbito rompe, então, a árdua paz das Tucandeiras. Passos. Gigantes, destruidores, genocidas. Quando se cansam de odiar e matar seus companheiros de vivência, decidem que podem brincar com a vida dos demais seres vivos que, por azar, coabitam o mesmo mundo. Passos daqueles que se acham superiores a tudo e todos, que se consideram grandes o suficiente para julgar quem merece viver ou morrer.

O desespero é geral. Treinadas, as guerreiras Tucandeiras agem o mais rápido que suas curtas pernas lhes permitem. Mães protegem seus filhos, todos se escondem, suas vidas e sentimentos passam diante de seus pequenos olhos, e apreensivos, esperam a passagem daquele anjo da morte.

Os movimentos, no entanto, são diferentes dessa vez. As formigas entendem o padrão, e sentem-se confiantes para sair e observar o que estava acontecendo. Não era violência. Não era o desejo pela morte. Era dança. Dança semelhante àquela que acompanha tão intrinsecamente a marcha Tucandeira. A dança da amável sinfonia das cigarras. São movimentos circulares.

Um casal de gigantes, entorpecidos em seu momento de felicidade, demonstrava algo praticamente esquecido pelo restante da espécie, amor ao próximo. E sob a luz incessante da lua e o brilho do orvalho, dançavam incansavelmente. Um pra cá, um pra lá. Uns tropeços, e outros pisões. Apaixonadas e maravilhadas, as formigas tomaram seus pares e começaram a dançar.

Uma formiga especifica, com fama de ser completamente louca, conversava com um pedaço de Gramínea próximo. A Gramínea parecia não estar muito a fim de interações sociais e recusava-se a responder. Mas isso não desanimou nosso poeta, em seu belo e solitário monólogo. Perguntava-se quantas vezes os gigantes já haviam mudado a sua vida. E além. Perguntava-se quantas vezes elas, as pequenas Tucandeiras, já haviam mudado a vida dos gigantes. E ainda mais. Perguntava-se quantos gigantes já se perguntaram como elas já mudaram suas vidas.

Talvez nenhum gigante tenha se perguntado algo tão importante. Talvez eles não fossem loucos o suficiente para admitir tal possibilidade. Ou recusavam-se a acreditar que suas seguras e perfeitas vidas pudessem ser alteradas por algo tão pequeno. Ou simplesmente preferiam não pensar.

Mas no fundo, aquela pequena e solitária Formiga cujo nome não consigo me lembrar, teve certeza de que aqueles dois gigantes dançantes já haviam se questionado a respeito. E ele, melhor que ninguém, sabia que o amor ali demonstrado através da dança, era conseqüência direta desse questionamento. Eles sabiam que as formigas haviam mudado às suas vidas. E dança era uma forma de agradecimento.

A dança acabou.  Os gigantes pararam de se movimentar e se abraçaram. Ainda encantadas e cantarolando, as Tucandeiras seguiram sua marcha. A marcha pela sobrevivência e felicidade coletiva. Suas vidas jamais seriam as mesmas. E a formiga solitária de nome desconhecido decidiu que iria embora. Decidiu que iria procurar um lugar onde pudesse ser feliz. Onde poderia encontrar-se. Ou pelo menos um lugar onde as gramíneas respondessem.

E foi-se, sem olhar para trás.

Tempo

Por Jessica Barbieri

A torre do relógio era muito alta. Ela adorava quando o mecanismo de corda fazia girar a engrenagem principal.  Brincava naquela torre, pulava as engrenagens no segundo exato, sem tempo para erros e distrações. Ela era apenas uma criança e não tinha medo de viver.

Não entendia como funcionava o tempo, às vezes passava tão rápido, como naquela torre, e outras vezes tão lento.

Quando mais velha, construiu uma família, mas nunca se esqueceu da torre, de como era a sensação dos cabelos voando enquanto pulava de uma engrenagem a outra em movimento, enquanto o ponteiro marcava mais um minuto no relógio, sentindo o tempo passar como uma batida mais acelerada de seu coração.images

O tempo passou.  Ela cresceu e as mesmas engrenagens envelheceram, ficaram tão velhas que o minuto já não era um minuto. O tempo passava mais devagar. As engrenagens foram ficando mais lentas e ruidosas ao passar dos anos.

Seus pés não cabiam mais perfeitamente nos eixos das engrenagens. Agora a dificuldade de se equilibrar era maior, mas mesmo assim ela queria ter aquela sensação por mais uma vez. A sensação de estar livre, de viver.

Pulou a primeira engrenagem, seu pé escorregou, entretanto suas mãos seguraram firmemente ao ponteiro, o equilíbrio veio com muito custo, mas, com um sorriso, tirou seus finos cabelos dos olhos e recomeçou a pular. Das outras vezes, seus pés tocaram a engrenagem com leveza e conseguiu manter se em movimento.

Ela se lembrou da sensação quando criança e percebeu que nada tinha mudado; era a mesma sensação, a mesma torre e a mesma menina.  Adorava aquela sensação, queria ter aquilo de novo. Queria ser jovem de novo. Seu sangue correu nas suas veias mais freneticamente que o normal, sentia a adrenalina no seu corpo e ficava feliz por isso. Ela vivia mais uma vez.

Até que um erro fatal ocorreu, seus pés se embolaram e o pingente de sua sapatilha prendeu na barra de sua calça; a mesma sapatilha que seu primeiro namorado, amor e o pai de seus únicos filhos lhe deu;  suas mãos tentaram sem forças e agilidade suficiente agarrar ao ponteiro mais uma vez.  A sua queda foi de mais de 30 metros até o chão. Seu coração se apertou e pensou em chorar, ao mesmo tempo pensou em como era incrível voar.

Ela viveu sem ambição, sua vida não foi grandiosa, porém viveu tudo o que queria viver. Ela fazia o tempo passar sem medo de ser feliz. Ela foi feliz. Morreu feliz.

Faixas amarelas

Peter estava sentado numa cadeira de madeira desgastada e carcomida pelo tempo. Seu olhar estava fixo no ponteiro do relógio, que avançava lentamente, mais lento do que achava que deveria. Algo não estava bem. Ele sentia a sua cabeça girar com uma dor tão forte como nunca havia sentido. E continuava com o olhar imóvel ouvindo o tic tac incessante do relógio. Como um zumbi, ele se levanta e vai arrastando suas pernas até a mesa, num ritmo compassado ao ranger do chão de madeira, onde pega uma xícara de chá, que por estar lá há muito tempo, estava frio.

Peter levou a xícara à boca. Estava com os olhos arregalados e permaneceu imóvel por alguns segundos após devolver a xícara à mesa. Algo realmente não estava bem. Ele se jogou no sofá rasgado e sujo e se se encostou a uma almofada amassada. Dali podia ver a chuva forte e as gotas de água que escorriam pelo vidro da janela.

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Seu rosto estava contraído numa expressão séria. Os olhos bem abertos e a boca levemente caída. Estava num momento de introspecção profunda e não fazia a menor ideia do que estava fazendo ali. Sua cabeça doía ainda mais. Ela começou a pender lentamente, quando passou os olhos por uma lagarta, que estava na parte inferior da janela. Ele piscou forte várias vezes, com os olhos presos nela. De repente, a lagarta começou a se contorcer e rapidamente se transformou numa crisálida. Peter realmente deveria estar confuso, mas sua mesma expressão, com a boca aberta e com lentas piscadas, revelavam sua despreocupação. Poucos segundos se passaram e a crisálida se transformou numa borboleta. A linda borboleta azul abriu suas asas e batendo-as graciosamente partiu da janela e rodopiou pela sala. A dança da borboleta foi acompanhada por uma fumaça alaranjada e leve, que aos poucos, foi cobrindo toda a atmosfera do ambiente. Peter levantou lentamente uma sobrancelha. Nesse instante, ele ouviu batidas fortes na porta, tão fortes e agitadas que o fez virar a cabeça para a sua direção. Agora, ele se perguntava do que podia se tratar aquilo, já que estava numa casa abandonada, muito afastada da cidade, e como imaginara até então, sozinho. As batidas foram se tornando mais intensas e a cada solavanco, toda a casa e seus utensílios tremiam. Nisso, uma fresta foi aberta na madeira da porta e Peter pode ver, do sofá onde estava, o tamanho do peixe que se debatia do lado de fora.

Nesse momento, uma onda de desespero tomou conta dele e pode sentir um forte arrepio por todo o seu corpo. As batidas não paravam e o enorme peixe prateado continuava se jogando na porta, enquanto aquela borboleta psicodélica continuava batendo suas delicadas asas espalhando aquela fumaçinha diabólica que Peter sentia, aos poucos, o sufocando. Foi então nesse tempo de agonia e desespero que ele sentiu algo no seu ombro direito. Era um camundongo. Aquele pequeno roedor passou a mordê-lo muito forte mas lentamente no ombro, arrancando o primeiro pedaço de carne.

Peter abriu a boca e podia-se esperar um grito ensurdecedor e desesperado, mas nenhum som saiu. Ele queria se levantar, mover seus braços, arrancar aquele animal de seu ombro, mas não podia se mover. Seu rosto trazia uma expressão de agonia como de alguém que está sendo comido vivo. Aos poucos, foi perdendo a visão que por conta da borboleta azul, agora via tudo laranja. Não conseguia ouvir mais nada além daquelas batidas do peixe que incessantemente queria entrar. E aquele roedor, com o focinho vermelho de sangue, que continuava rasgando a carne do seu peito, como já fizera com todo o seu ombro.

Dias depois, os peritos recolhiam os restos já em decomposição de Peter. A casa foi toda lacrada com faixas amarelas, que terminavam amarradas na frente da janela. Enquanto terminava de lacrar, algo chamou a atenção do policial.

– Mcfloor, venha ver uma coisa.

– O quê?

– Tem alguma coisa aqui, do lado de dentro da janela.

Mcfloor se aproximou.

– Relaxa, Jake. É só uma lagarta.

Dê lugar ao caos (deixe-me entrar)

Era uma vez uma Casa. Uma Casa muito arrumadinha e certinha. Ela era de um azul suave e leve que mostrava ainda mais a limpeza que a casa tinha. Tudo estava limpo. Tudo estava certo. Até algo mudar tudo.

Tudo começou com um vidro, um bem simples de primeira vista. Ele estava na mão de um camundongo que estava sentado em uma almofada que havia sido arremessada por uma bruxa. Era uma bruxa diferente, era na verdade uma mulher comum e só recebia esse nome por morar na Casa número 61, bem a frente da nossa personagem principal. Algo, porém, acontecia com a bruxa. Ela tinha 16 anos (engraçado, não?) e acabara de torcer o ombro. Ficou tão zangada com isso que arremessou a almofada de seu sofá pela porta de sua Casa. A almofada, porém, acertou a janela da nossa Casa e a quebrou. Se não fosse pelo vidro que estava na mão do camundongo que estava na almofada, a janela não teria se quebrado; mas quebrou. Ao ouvir o barulho, a bruxa decidiu ir se redimir com a casa, por tê-la quebrado. A Casa a recebeu com muito carinho, porém tinha medo. Medo da bagunça da bruxa ao entrar em sua casa. Mas era tarde demais.

DSC04890A Casa lhe serviu um delicioso chá com peixe e botas secas à bruxa, que muito a vontade observava o relógio agressivo à parede. A senhora Casa percebeu o incômodo e então disse a bruxa que retirasse o simples e límpido relógio da parede. A bruxa tirou, e ao retirar entrou em sono profundo por causa da água que começou a respirar em sua cara saindo da parede onde o relógio estava. Nisso, na casa já toda molhada e inundada, uma incrível lagarta aparece remando em uma folha no rio que havia se formado. Muito simpática, começou a conversar com o camundongo e seu filho camundongo que acabara de sair de uma crisálida que estava no relógio assustador.

A Casa ainda estava atordoada em meio a tanta bagunça quando sua cabeça explodiu por causa de tanta água. Resultado? Todas as janelas quebradas. Após sua cabeça explodir, Casa chorou amargamente pela situação. Ninguém morava na Casa. A Casa era vazia de pessoas para que não sujassem nada. E agora tudo estava bagunçado e caótico. Mas não era o fim. A história ainda precisa de um príncipe para despertar a bruxa! E quem será esse príncipe?

O príncipe será a mesa, que escorregou escada abaixo e acertou a cabeça da bruxa fazendo-a despertar, muito grata e com dor de cabeça.

Casa não se desesperava mais; Casa amou a confusão e sorriu. O que ela esperava agora era que isso não acabasse mais, pois apenas assim ela conseguiria ver a alegria pousar sobre ela. Uma incrível borboleta de asas amarelas 99.

Moral do era uma vez: sempre esteja preparado para quando a bagunça chegar (e ela sempre chega).

Luna no céu

Por Gustavo Martinez e Lais Takada

Era uma vez, Luna. Não, melhor não começar com era uma vez. Ao leitor mais desavisado, pode parecer um conto divertido e entusiasmante, onde as coisas tendem a dar certo e seus personagens acabam felizes. Pode até ser que seja. Não sei. Estamos ainda no primeiro parágrafo, de modo que me parece precipitado tirar conclusões.

Já no segundo, pulamos o início conturbado, e conhecemos Luna, de fato. Como prometido, Luna é uma garota de 16 anos, com uma mente um tanto quanto diferente em relação às garotas de sua idade. Tinha uma paixão tão inexplicavelmente curiosa quanto curiosamente insana. Amava o universo, e vivia a pensar na imensidão das coisas, no movimento das ruas, mo ciclo entrópico da vida e da cidade, vivendo sempre distante e distraída.

Nossa heroína não era muito vaidosa. De heroína em si, não tinha muita coisa. Tinha medo de viver na mesma proporção em que vivia com medo. Era recheada de dúvidas, e sua única certeza é que todas elas eram complexamente insolucionáveis. Evitava sempre tomar decisões, e tentava sempre fazer com que os outros aturassem esse fardo por ela. Andava sempre com camisas simples, geralmente das bandas de rock internacional que gostava, e ainda mais geralmente, pretas. Alguns dizem que nunca fora vista sem sua tradicional calça jeans surrada e seu tênis casual velho e sujo. Seu cabelo, castanho escuro e longo, vivia solto, de modo harmonioso com sua pele branca e seus olhos grandes e escuros. Pode-se dizer que era bonita.

Talvez você não esteja interessado em como Luna era, ou deixava de ser. Mas falo de Luna com imensa nostalgia e grande carinho, de modo que não poderia simplesmente introduzi-la nesta breve história sem lhe dar uma digna descrição. Mas não se preocupe, já estou iniciando a história, de fato.

digitalizar0002Certo dia, andando pela cidade em uma tarde ensolarada, porém fria, Luna observou um estranho e divertido fluído rosa, que se esgueirava por uma estreita rua, e parecia não ter fim. Com contornos vistosos e brilhantes, o fluído parecia a convidar para dançar. Sem pensar duas vezes, Luna o seguiu, tentando entender porque as outras pessoas não faziam o mesmo.

É importante notar que cumpro minha palavra, pois pela segunda vez nessa história, cumpri o que havia dito. Sem mais delongas, continuemos a história.

Andou por um bom tempo até achar o início, ou o fim, ou a origem do rastro cor de rosa. Não saberia dizer ao certo quanto tempo andou, ou que distância percorreu, mas mesmo que soubesse, esses dados não acrescentariam qualquer valor a sua experiência, e seriam facilmente questionados pela física moderna. Deparou-se com um sobrado, bem cuidado, porém abandonado. Decidiu-se sem saber bem o porquê questionar-se se deveria ou não entrar, mas sua curiosidade venceu a prudência, e ela entrou para desvendar o que havia lá, mesmo sem saber o que era exatamente “lá”.

O que viu, então, superou todas as suas mais esplendorosas expectativas. De início, encontrou inúmeras formas geométricas, prismas e objetos coloridos, dispostos caoticamente em uma prateleira imensuravelmente grande, e que, como bem observou Luna, não deveria caber dentro do sobrado. Intrigada, decidiu que se tratava apenas de um erro de proporção da realidade, e resolveu esquecer o assunto.

Mais abaixo, ainda na prateleira, encontrou CDs e LPs das bandas que mais gostava. Ficou maravilhada, e sua curiosidade só aumentava. Onde estava? O que era aquele fluído rosa? Quem teria feito tudo isso?

Antes de discutirmos um pouco mais sobre essas e tantas outras dúvidas que permeavam a cabeça de Luna, precisamos fazer uma pausa para nos redimir com ela. Além do mais, escrever contos é difícil, e estou cansado. Como já dito, nossa heroína não se enquadra bem na definição formal e matemática de herói.  Mas insisto em chamá-la assim. Em partes porque a amo. E em partes porque, em meio a tantas incertezas e indefinições, Luna nunca deixou de sonhar. Nunca deixou de acreditar que o universo dentro de sua cabeça era muito mais importante que qualquer restrição externa, e por isso, contra toda e qualquer influência, nunca deixou de ser ela mesma.

Agora sim, confiantes e redimidos, seguimos em frente.

Destemida e cada vez mais inquieta, Luna subiu as escadas, e encontrou uma exposição minuciosa e muito bem elaborada do sistema solar, com cartazes e maquetes, organizada de forma muito didática e esclarecedora. Achou tudo encantadoramente estranho, e estranhamente deslumbrante. Ao aproximar-se mais das maquetes, de uma forma súbita e completamente inesperada, encontrou um cachorro, sentado elegantemente, e olhando para ela de maneira inteligente. Com cuidado e sem movimentos bruscos, o cachorro aproximou-se e disse:

– Olá, Luna. Meu nome é Jetul. Você me parece com dúvidas. Posso ajudá-la?

Não sei descrever exatamente o que se passou pela cabeça de Luna. De fato, nem ela mesmo poderia dizer como se sentiu. Suas pernas tremeram, e por pouco não caiu sentada. Ainda espantada, conseguiu formar algumas palavras, e iniciar um diálogo com o interessante cão.

– Como você sabe meu nome? – perguntou, enfim.

– Ora, por favor, não temos tempo. Evitemos trivialidades e partimos ao que interessa. Tenho certeza que você tem dúvidas muito mais pertinentes do que essas questões burocráticas. – respondeu-lhe Jetul, de modo carinhoso e paternal.

– O que era o fluído rosa? – instigou Luna. Aqui vale a pena fazermos uma observação. Mesmo que tenhamos dado muitas voltas, e que o conto pareça um tanto complexo, ele, na verdade, é muito simples, e toda a atenção deve-se girar em torno do fluído rosa. Não porque ele seja, de fato, mais importante para a história do que qualquer outro elemento desta. Somente e tão somente porque essa foi à primeira pergunta que veio a cabeça de Luna, em meio ao turbilhão que era sua mente naquele instante.

– Agora estamos chegando a algum lugar – disse Jetul, que se demonstrou imensamente animado. – Eu estou aqui para te mostrar o poder do conhecimento e do questionamento. Para que você contemple a criação em sua essência. O fluído rosa é o caminho que precisa ser seguido para que isso se torne possível. É para atrair curiosos, sonhadores, mentes apaixonadas, como você. Diga-me Luna, onde gostaria de ir, nesse exato momento?

– Saturno. – respondeu Luna, sem hesitar. Não se sabe ao certo porque sua resposta foi tão imediata, nem como ela decidiu abruptamente que poderia confiar em Jetul. De fato, Luna sempre quis conhecer Saturno.

Tão logo quanto ouviu a resposta de Luna, Jetul mostrou-se mais ágil do que aparentava, andou até uma parte baixa da imensa prateleira e trouxe consigo uma pesada caixa, que depositou sobre a mesa dos fundos do sobrado, convidando a menina para juntar-se a ele. Na caixa havia uma garrafa de uísque que aparentava ser velho, dois copos vidro, um pote de um vivo pó azulado, e uma tigela com milho.

Serviram-se e brindaram meio copo do uísque, o que foi incrivelmente difícil para o infantil paladar de Luna. Em seguida, Jetul colocou a tigela de milho à sua esquerda, retirou um punhado de pó do pote, que em seguida fechou cuidadosamente, e jogou o pó sobre suas cabeças. O pó mágico teletransportador, então, os levou para Saturno.

Como até mesmo um leitor não tão atento pode imaginar, a viagem para Saturno não é fácil, e as rotas hiperespaciais encontram-se constantemente com um trânsito complicado. Para a espera não ficar cansativa em demasia, faremos uma última e derradeira pausa para divagarmos sobre dois aspectos importantes dentro dessa narrativa.digitalizar0004

O primeiro deles são as viagens realizadas com um pó mágico transportador. Um pó mágico tem a função de levar uma pessoa de um lugar para outro de uma forma mágica, não necessariamente por teletransporte. O teletransporte, por sua vez, por motivos óbvios, leva uma pessoa de um lugar para outro, necessariamente por teletransporte. O interessante pó azulado de Jetul, descrito como pó mágico teletransportador, leva uma pessoa de um lugar para outro, de uma forma teletransportadoramente mágica, ou magicamente teletransportadora. As diferenças são meramente gramaticais. Quanto ao tom azulado, pode-se dizer que a cor era para efeitos meramente visuais e estéticos.

O segundo e último ponto a ser discutido é o milho, a comida preferida de Luna e Jetul. O milho apresenta uma importante influência na história social e política humana, embora este fato passe, geralmente, despercebido. É notável também a grande versatilidade culinária que ele apresenta. Talvez ambos os fatos estejam relacionados. Afinal, quem imagina a vida na terra sem pipoca? E da mesma forma em que é facilmente transformado em pipoca, o milho pode também ser cozido, e continuar sendo uma excelente refeição, seja enlatado, ou em pequenos suportes de isopor, comumente encontrados nas regiões litorâneas.

Esclarecidos tais pontos, seguimos para a conclusão de nossa história.

Chegando a Saturno, encontraram diversos elementos, gases, metais, e as mais inusitadas e curiosas substâncias. Viajaram nas nuvens de amônia, e surfaram em ventos de até 1800km/h, enquanto dirigiam-se para Titã, a mais bela lua daquele majestoso planeta. Lá sentaram e se acomodaram, enquanto o maior espetáculo da vida de Luna estava para acontecer. Todo o Universo, a criação em sua completa abrangência, começou a desfilar em frente aos seus brilhantes, curiosos e insaciáveis olhos. Planetas, cometas, estrelas, sóis e luas, em uma dança impecável e que deixou a pequenina garota maravilhada.

Após um tempo indescritivelmente longo, Jetul disse a Luna que era hora de voltar, e, da forma como chegaram, abandonaram Saturno. Para agilizar a narrativa, pularemos a viagem e admitiremos que eles chegaram à Terra no exato momento em que deixaram o planeta anterior.

Estava anoitecendo, e Luna precisava voltar para casa. Despediu-se de Jetul e disse que voltaria assim que possível. Jetul dirigiu-lhe um olhar cheio de lágrimas, e disse que também estava de partida. De momento, a menina não compreendeu exatamente o que aquilo queria dizer, e foi pra casa com a completa esperança de que veria seu amigo no dia seguinte, e juntos, explorariam o universo.

E no dia seguinte, como se esperava de nossa heroína, lá estava ela, em frente ao sobrado, gritando por Jetul, que não estava mais lá. E nunca mais voltaria. Tudo estava intacto, exceto pelo fluído rosa, que havia desaparecido. Ao se aproximar da maquete de Saturno, Luna encontrou um bilhete, com uma caligrafia descuidada de um cachorro apressado, e molhado por lágrimas, que dizia: “Busque sempre mais”.

Dia após dia, todos os dias, Luna voltou ao sobrado, que agora era, para ela, muito mais do que um sobrado, mas um templo, um refúgio. Lá estudava, dançava, sonhava. Não esperava mais encontrar Jetul, mas tinha certeza de que ele estava ali, com ela, o tempo todo.

Novamente, tratarei de dados imprecisos. Não se sabe ao certo quando foi que ocorreu, mas Luna decidiu ser astrônoma. E conseguiu. Continuou a mesma menina que sempre foi, porém uma menina crescida, adulta, e astrônoma. Continuou alimentando seus sonhos, sendo alimentada por eles, e vivendo por eles. E continuou na espera do dia em que reencontraria o misterioso fluído rosa, para que pudesse conversar com Jetul e visitar Saturno. Uma última vez.