Visão geral sobre o pensamento de Foucault

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Michel Foucault

Nascido em Poitiers, na França, em 1926, Foucault vem de uma família de médicos. Estudou filosofia em École Normale Supérieure, logo após a Segunda guerra mundial. Passou um período na Suécia, depois na Polônia e Alemanha, até retornar à França em 1960. Com a História da loucura, estudo que afirma que a separação entre loucura e sanidade é uma construção social, recebeu um doutorado. Em 1968, Paris passou por um período de greves estudantis, momento no qual Foucault envolveu-se no ativismo político e continuou como ativista e professor pelo resto da vida.

Foucault está inserido na área da epistemologia, também chamada de filosofia do conhecimento, sendo um ramo da filosofia que trata da natureza, das origens e da validade do conhecimento. Ele faz uma abordagem sobre a arqueologia discursiva. Analisando-o dentro do contexto histórico-filosófico, temos no final do século XVIII Immanuel Kant lançando as bases para o modelo de “homem” do século XIX. Em 1859, Darwin provoca uma revolução no modo como interpretamos nós mesmos com A origem das espécies. Em 1883, Nietzsche anuncia que o homem é algo a ser superado, em Assim falou Zaratustra.

Foucault anuncia que o homem é uma invenção recente. Nós temos a ideia de “homem” como uma ideia natural e eterna. Entretanto, analisando a arqueologia do nosso pensamento, Foucault conclui que a ideia de “homem” surgiu como objeto de estudo no início do século XIX. Essa conclusão aparece em As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas.

Temos um conjunto de regras, em sua maioria inconsciente, fixadas pelas condições históricas em que nos encontramos, que formam nosso discurso, tendo por discurso a maneira como falamos e pensamos sobre as coisas. No entanto, essas regras e condições mudam com o tempo, assim temos também a transformação dos discursos. É por isso que Foucault toma por base de sua análise a arqueologia, pois ela se faz necessária na medida em que se pretende entender o “pensamento” atual. Não podemos aceitar os conceitos atuais, como o de natureza humana, como sendo eternos e que somente uma “história das ideias” é suficiente para traçar sua genealogia. Não podemos supor que as ideias que temos hoje podem ser aplicadas a qualquer ponto da história.

Essa ideia de “homem” foi fundada com a filosofia de Kant, quando este revolucionou o pensamento filosófico, trocando a questão de “por que o mundo é como é?” para “por que vemos o mundo como vemos?”. Segundo Foucault, essa ideia que temos de “homem” surgiu no começo do século XIX, com o nascimento das ciências naturais, e é para ele paradoxal, pois nos vemos como objetos no mundo, mas também como sujeitos que estudam o mundo.

Assim, ele sugeriu que essa ideia além de ser uma invenção recente, também pode estar perto do fim. Podemos obter indícios disso com os avanços na computação e nas interfaces homem-máquina, e com filósofos que, tendo domínio da ciência cognitiva, isto é, o estudo científico da mente ou da inteligência, questionam a natureza da subjetividade.

O pensamento de Foucault foi fortemente influenciado por Freud, Marx e Nietzsche, principalmente pela leitura de Nietzsche feita por Heidegger. Ele interpreta Nietzsche como o grande contestador da tradição metafísica no século XIX, em uma leitura que marcará as leituras subsequentes de Nietzsche, principalmente na linha francesa.

Partindo para um resumo de suas obras, temos em História da loucura, uma análise arqueológica da formação do nosso conceito de loucura e da forma de tratá-la. A arqueologia como método de análise do discurso é baseada numa tentativa de mostrar os elementos implícitos do objeto do discurso e o conjunto de práticas que ele estabelece. Foucault realiza uma arqueologia do saber médico e sua formação na modernidade em Nascimento da clínica e em As palavras e as coisas, uma arqueologia das ciências humanas. É em Arqueologia do saber que ele discute a arqueologia como método de análise crítica do discurso. Foucault introduz a noção de genealogia em Vigiar e punir, e a retoma e desenvolve em Microfísica do poder e na História da sexualidade. Ele se inspira na filosofia de Nietzsche sobre a genealogia da moral, no qual este analisa a origem dos valores morais vinculados ao pensamento socrático-cristão. A genealogia é, portanto, uma análise histórica da formação dos discursos, relacionando-os com o exercício do poder num determinado contexto social.

Podemos definir seu trabalho mais como história das ideias do que como vinculado à filosofia em seu sentido tradicional, já que envolve um conhecimento profundo de história, análise documental, pesquisa de campo, que não pertencem à metodologia filosófica. É exatamente com esse tipo de análise que vemos em Foucault sua natureza interdisciplinar e seu rompimento com as fronteiras tradicionais das disciplinas e áreas do saber.

Bibliografia

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia, 14ª reimpressão, 2013. Editora Zahar, páginas 276, 277.

Vários autores. O livro da filosofia, 8ª reimpressão, 2013. Editora Globo, páginas 302, 303.

A triste Felicidade da prisão

gaiola

A dois passos de distância estava eu, da plena liberdade.

Mas na realidade, onde estava eu?

Tortuoso, deprimente e solitário é o caminho para a liberdade. E eu estava lá.

Mas onde estou eu agora? Cercado por ladrilhos estilhaçados, rodas que giram e malditas abelhas que zumbem repentinamente em meu ouvido.

Estava ou estou em um lugar melhor?

Apenas a plena liberdade pode gerar suavidade e calmaria, estado físico de algodão doce e sapatos de alvenaria. Somente lá encontro rios de chocolate.

Mas como ei de voltar a tais dois passos?

Nesses nunca mais estarei… Pois mesmo que volte para lá um dia, já não serei mais eu, serei uma nova pessoa.

O agora, que está em minhas mãos, usarei com sabedoria para me polir o suficiente a fazer-me usufruir com insensatez minha plena liberdade.

A Plena, liberdade… Usufruir com insensatez com uma palavra certinha? Agora, essa palavra é Plena, mas no período de insensatez será Absoluta.

“Como estás longe, minha querida Plena! Gostaria que estivesses perto de mim, porque saberia que estaria muito mais perto do que estou agora, de minha amante! Não te enciúmes da Absoluta! Pois como costuma acontecer, minha amante passará apenas os bons momentos comigo! Enquanto você terá passado os tortuosos e, isso fará com que nunca me esqueça de sua bela existência!”

Pensando por um lado, é bom estar preso… Traz-me segurança! Não posso sair dessa gaiola enferrujada que me aprisiona, mas também não posso morrer comido por uma raposa! Mas é melhor parar de pensar assim, pois em breve minha aventura começará, e não terei uma “gaiola enferrujada” sequer para me consolar.

Aqui vai um poema:

Peço perdão, pela minha falta de educação.

Eu sou um pássaro, e como muitos de vocês não devem ter pensado, uso calção!

Toda manhã comia um pão.

Ficava ele num lugar cheio de crianças sem educação.

Tão sem educação, que um dia tomei um beliscão!

Foi por uma menina, e oh! Como era mal seu coração!

Trancou-me ela quase que em um caixão!

E disse-me com essas palavras, em forma de canção:

“Passarinho, passarinho, seu nome será livrinho!

E não quero que penses que sou má!

Venho aqui para ajudar!

Enquanto estás nessa prisão,

Preparo-te para um mundo que nunca viu desde então!”

Todos os dias, a mesma canção.

Até que este hino passou a confortar meu coração!

O que será que queria esta menina com tanta aptidão?

Como podem ver, agora sei o que é. Meu nome agora é Livrinho, mas um dia será Livrão!

Espero que tenham apreciado este poema. Mas indo agora aos fatos. Há outro motivo que não lhes havia falado a princípio, que me faz querer ficar.

Essa garota, que diz com tanta certeza sobre esta bela liberdade que irei enfrentar, conseguiu me transformar! Amo-a mais que meu calção! Ela se tornou minha amiga! E agora o partir, já não fará mais sentido para mim!

Mas como dizer-lhe que todo o trabalho que ela teve para cuidar de mim e me preparar foi em vão?

É por esse motivo, meus amigos, que tomo minha decisão final! Partirei amanhã bem cedo, pela saída que encontrei há algum tempo, e a deixarei sentir-se realizada pelo bem que me fez, mesmo que na realidade, esteja eu quebrado por inteiro!

A conclusão que tiro aqui, é mais tola que sensata, para alguns. Mas a prisão liberta, e a liberdade… Mata!

Camila Matias  12/05/2014  17:04

Quântica mental envelopada em busca de desenvelopação

O labirinto, Salvador Dalí

O labirinto, Salvador Dalí

Ter a certeza, tendo a certeza.

O que passa pela cabeça certamente inquieta.

A inquietude inquieta o inquietado, e nessa inquietação aliterada e pressuposta há somente palavras. Palavras de sentidos e de sentidos e de sentidos. Sentidos que enraivecem ao amar e entristecem ao tecer a teia do desconhecido.

Aqui, ali, lá. Em nenhum lugar. Em todos.

E o pano encharcado e molhado que agora está revirado e torcido cada vez mais se desfaz pelo som do sino petulante e misterioso.

Não há lugar, não há sentido. No meio de tantos sentidos o sentido que se tem é que não há sentido algum. Onde está? Não está.

E no cantarolar da noite sinestésica e paralisante, tendo apenas o sentido sem sentido, e é claro, o que todos precisam, um ser canino, existe o inexistente; existe o respingado acúmulo de moedas rasgadas em nome da lei e palavras ditas por sufoco. O que sinto ninguém sente. O que sinto, eu não sinto.

Moça à janela, Salvador Dalí

Moça à janela, Salvador Dalí

Amortecido e ao mesmo tempo doído, o arrepio sagaz e ligeiro, a espera e a inquietude, a janela fechada e a janela aberta, vem com um toque de aroma de damas da noite negras como o dia e claras como a noite.

Com um balde eu moverei o mundo.

Entrelaçado, entrelaço, entrelinhas, estilhaços. ESTRELAS.

O fácil já é difícil pelo mudado e finito espaço que damos à mente. Não há lugar. Não há liberdade. Há aquela voz macia que sobe e gira e que depois de dançarmos com ela a ignoramos.

Há o que há e ao mesmo tempo não há.

Há a culpa misturada com vinho, vinho levedurado e borbulhante. O vinho que é bebido é morto pelo veneno do ser humano, e o que se pensa, não há. A morte não mata a morte. A morte mata o morto que já está morto. O morto eu amo. E o açúcar que pertencia a esta pessoa agora não há. As fileiras de formigas pelo seu corpo, não há. Há lembranças, há saudades, não há.

E se o mergulhar no interior da escuridão não for suficiente, o que será? A dança das estrelas por baixo dos meus pés faz cócegas, faz arrepios, faz sensações que não há aqui. O toque em uma de suas douradas pontas faz um fio de sutileza atravessar o corpo e a alma e traz o não há à tona.

Criança geopolitica observando o nascimento do novo Homem, Salvador Dalí

Criança geopolitica observando o nascimento do novo Homem, Salvador Dalí

Bang bang! As cócegas agora estão na barriga, mas essa cócega de morte não há.

Há o pequeno barulho delicado e sedutor. Não há.

Gota por gota e corte por corte a ferida aumenta e aumenta. E não diminui. Por que quando for diminuir, não há mais.

O profundo traz quietude. Ah! A quietude! Esta! A encontrada nas profundezas aquáticas!

A quietude que traz o cheio e que traz o …

 

Camila Matias 09/05/14  23:39

Introdução à ética de Sócrates

Sócrates

Sócrates

A filosofia de Sócrates, diferente dos filósofos pré-socráticos, tinha como objetivo o homem e o conhecimento deste, deixando de lado assim, a busca por conhecer o cosmos e a physis. Sendo assim, Sócrates foi considerado o pai da ética, pois foi o primeiro a se aprofundar nesse assunto. Parte de sua filosofia era a construção do homem, tendo então como visão a constituição de Virtudes fundamentais para que o homem atingisse a plena felicidade. Algumas de suas principais virtudes apresentadas por ele como fundamentais são a justiça, que apenas poderia ser conhecida depois que se soubesse o que é a injustiça; a modéstia, que era a capacidade de ser bom no que faz naturalmente e sem se vangloriar; entre outros.

Importante prática de Sócrates que representava sua filosofia era a prática da Maiêutica, que através da dialética, “paria” o conhecimento das pessoas. Um exemplo dessa prática é o diálogo que Sócrates tem com o escravo Teeteto, em que ele explica ao escravo o processo da Maiêutica que gostaria de aplicar nele, pois a muito já havia percebido que algo na alma deste estava a ponto de vir à luz.

Sobre a dialética de Sócrates tem-se como exemplo o livro Êutifron de Platão. Neste livro há o diálogo entre Êutifron e Sócrates em que estes discutem sobre a piedade. Vemos que, com um mesmo assunto, Sócrates desenvolve a conversa a tal ponto que Êutifron “desiste” de discutir sobre isso e dá desculpas para ir embora. Uma frase boa de Sócrates para representar este livro, seria “Só sei que nada sei”, pois nesse desenrolar da conversa, o que realmente Sócrates quer mostrar é a ignorância do homem, principalmente neste caso em que Êutifron era soberbo e orgulhoso.

 

Ética sofista

Sócrates e Hípias, o sofista

Sócrates e Hípias, o sofista

A filosofia sofista era baseada no relativismo. Cada pessoa, seja pela cultura ou sociedade que vive, contém as suas ideias em que estas se tornam verdades para eles, assim como o ideal de uma outra pessoa, também será uma verdade. Sendo assim, não existe verdade absoluta, objetiva, mas sim uma verdade subjetiva, em que cada um tem a sua.

O trabalho dos sofistas era ensinar jovens sobre política e a arte da retórica, cobrando taxas para aplicar essas aulas. Foram considerados por muitos críticos como prostitutas do saber ou mercenários do saber, pois cobravam de algo que deveria ser dado gratuitamente.

A partir de sua filosofia, vê-se que os sofistas tinham por ética, algo também relativo, mesmo dentro de uma mesma sociedade. Enquanto para alguns era correto se fazer uma determinada coisa, para outros não era.

Ética socrática

Sócrates tinha por visão o objetivismo. Para ele, existia uma Verdade Universal e para se descobrir essa verdade era preciso ter uma vida moral, podendo-se ver isso através das Virtudes antes mencionadas. Por essa razão, Sócrates criticou grandemente os filósofos sofistas, em que tinham uma filosofia ética totalmente contrária a de Sócrates. Se por exemplo fosse pago aos sofistas que afirmassem que uma coisa era verdade, mesmo que não fosse, eles o fariam, pois acreditando em verdades relativas, tudo que se afirmasse estaria correto.

Sören A. Kierkegaard

Sören A. Kierkegaard

Para o filósofo Kierkegaard, que se baseou muito em Sócrates, o considerava irônico, ironia no sentido de fazer a aporia por satisfação pessoal. Atentava em Sócrates a comparação deste com Cristo, em que ambos não deixam nada escrito, possuem discípulos e morrem de forma trágica e significativa. Em muitas características se assemelham Sócrates de Kierkegaard, como pela própria ética, porém se diferem no sentido de alcançar a verdade por seus próprios esforços, que enquanto Sócrates crê nessa possibilidade, Kierkegaard não.

Vê-se que a base da ética socrática é o autoconhecimento. É poder se conhecer subjetivamente a ponto de conseguir entender e praticar a Verdade objetiva. Sendo assim, defendia a frase: “Conhece-te a ti mesmo”.

Introdução à ética de Nietzsche

Tragédia grega, conflito entre razão e emoção

Tragédia grega, conflito entre razão e emoção

Nietzsche, o filósofo do martelo, é conhecido por romper com a filosofia tradicional que visava até então, propondo um novo estilo filosófico que contrapõem a racionalidade filosófica e a moral cristã. Ele foi um grande crítico de Sócrates e da figura de Cristo, principalmente por conta dos valores morais, que afirmava serem instrumentos que os fortes inventaram para submeter e controlar os fracos.

Sua crítica tem início no surgimento da filosofia. A tragédia grega era a representação do equilíbrio entre a razão e a emoção. Esse equilíbrio dava-se através do conflito entre os deuses Apolo, deus da música e da arte, racional, intelectual, estilístico e moderado, e Dionísio, deus do vinho, inebriador dos sentidos humanos, tomando-os de prazer e libertando-lhes os instintos. Para Nietzsche, o homem era a ligação entre essas duas potências (razão e emoção), porém, Sócrates interpretou a arte trágica como irracional, e assim, o racionalismo passou a ser mais valorizado. Quando a razão socrática venceu, os deuses morreram. Essa é a maior crítica de Nietzsche a Sócrates, e a partir dessa crítica, propõe seu novo modo de filosofar, já que afirma que a filosofia é o resultado da relação do homem com a natureza, e que jamais deveríamos ter nos afastado dela.

 

Ética kantiana

Immanuel Kant

Immanuel Kant

A ética de Kant é baseada na busca de uma lei universal. Para saber se uma ação é moral ou não, primeiro é necessário se perguntar qual é a regra que seguiríamos ao realizar uma determinada ação. Depois, é necessário perguntar se estaríamos dispostos que esta regra fosse utilizada por todas as pessoas em todas as circunstâncias e sem exceção (tornando-se lei universal). Se a resposta for sim, então a ação é moralmente permitida; se não, moralmente proibida.

Somos tentados a abrir exceções a nosso favor, porque pensamos nas consequências delas, e nem sempre são boas (a nós, claro). Entretanto, não podemos ter certeza das consequências de nossas ações. Segundo Kant, é melhor evitar o mal conhecido, pois ainda que as consequências sejam más, estaremos justificados, pois cumprimos o nosso dever moral.

 

Ética nietzschiana

Friedrich Nietzsche

Friedrich Nietzsche

Nietzsche propôs uma nova abordagem sobre a genealogia moral, a formação histórica dos valores morais. As concepções morais são elaboradas pelos homens, a partir de interesses humanos. E as religiões têm papel fundamental nisso, pois impõem valores humanos como sendo produtos da “vontade de Deus”. Ele chegou à conclusão de que não existem noções absolutas de bem e mal. Afinal, se os valores morais são produto histórico-cultural, logo, também são mutáveis.

A grande crítica de Nietzsche às éticas socrática, kantiana e cristã, é a de que estas são “morais de rebanho”. O conceito de ética universal coincide com os preceitos de uma religião que tenta controlar as paixões e assim, homogeneizar os homens. A individualidade, tão valorizada por Nietzsche, acaba sendo diluída no meio do rebanho.

Jesus, o Cristo

Jesus, o Cristo

Nietzsche busca a “transmutação de todos os valores”, questionando o conceito de bem e mal em busca de novos valores “afirmativos da vida”, como a vontade, a criatividade e o sentimento estético.

Iluminismo italiano

O iluminismo italiano tem características comuns aos outros iluminismos (francês, inglês, alemão), como o culto da razão, a crítica à escolástica, a postura crítica diante da religião e da autoridade política. A Itália passou por um processo de pré-iluminismo, por causa das Academias nas quais se procuravam novos métodos.

Alguns acreditam que o iluminismo era fundamentado no ateísmo e que muitos dos que escreviam sobre teologia faziam para escapar das perseguições. Mas há aqueles que consideram o iluminismo compatível à religião.

Muratori era muito religioso, mas era iluminista por sua confiança na razão e pelo seu senso crítico, o qual chamava de “bom gosto”. Sobre isso, ele diz: “entendemos por bom gosto conhecer e poder avaliar o que é defeituoso, imperfeito ou medíocre nas ciências ou nas artes, para evitá-lo, e o que é o melhor, ou perfeito, para segui-lo a qualquer preço”. Muratori, assim como Galileu, dizia que não é preciso se basear na autoridade de nenhum homem para buscar o verdadeiro, mas sim, confiar em seu próprio intelecto.

Lodovico Muratori

Lodovico Muratori

Muratori defendia que o saber deve servir para melhorar os homens, tanto material quanto espiritualmente, e valoriza a contemplação a Deus. Entretanto diz que os homens devem ao mesmo tempo, viver para Deus e não deixar de se relacionar com os homens, sendo útil a eles.

Já dizia que a razão é limitada, e por isso, é fundamental ao homem a religião. Contudo, entendia por religião o “crer, adorar, amar e obedecer a Deus na forma que Cristo nos prescreveu”. Sendo a caridade o fundamento da religião cristã, não apenas pregava-a, mas a praticava e constantemente evocava esse mandamento, levantando sua importância.

Antonio Genovesi, outro filósofo iluminista, defendia a liberdade de filosofar, sendo ela uma liberdade em relação a toda autoridade humana. Ele teria praticado um “ecletismo programático”, tendo por eclético o que usa o senso crítico, aquele chamado por Muratori de “bom gosto”.

Era antiaristotélico, mas não por isso adepto à filosofia de Platão, que está distante da sua concepção de que qualquer teoria deve ser consolidada na experiência. Assim como Muratori, gostava da teologia iniciada por Newton, aquela que busca na física e em teorias científicas motivos para demonstrar a existência de Deus.

Por seu ideal de um saber útil à humanidade, dedicou-se ao estudo de economia, enquadrando-a numa concepção de vida em que a justificativa última é dada pela filosofia e pela religião. (ver sinônimos) A filosofia de Genovesi deu origem a duas vertentes distintas, uma corrente mais utópica e outra “ligada a problemas concretos e imediatos”.

Da primeira corrente, temos como um dos representantes Filangieri. Ele defendia que as leis devem responder às exigências da razão, e para isso, precisavam ter por princípio a filosofia. Portanto, era contrário aos fundamentos feudais, principalmente a liderança hereditária. Da segunda, temos Delfico, que também criticava o feudalismo, principalmente o controle político que era exercido pelo proprietário da terra. Seus ideais eram apoiados numa concepção filosófica materialista e irreligiosa.

Outro iluminista italiano foi Beccaria, que se baseava na filosofia dos enciclopedistas, fundamentalmente materialista e utilitarista. Sobre a legislação, diz que sua finalidade deveria ser “a máxima felicidade para o maior número de pessoas”. Ele é contra a tortura e a pena de morte, já que defendia que as penas têm como objetivo impedir que o cidadão delinquente cause novos danos à sociedade, e convencer os demais a não fazer o mesmo.

Dos assuntos filosóficos discutidos pelos iluministas, surgiu aquele que visava saber se prevaleciam os prazeres ou os sofrimentos. Seus representantes são La Mettrie, com uma visão mais otimista, e Maupertius, com uma pessimista.

Referências:

ROVIGHI, Sofia Vanni. História da filosofia moderna. Edições Loyola, 3ª edição, 2002.

Confissões de Santo Agostinho

CAPÍTULO IV – Livro I

As perfeições de Deus

 Que és, portanto, ó meu Deus? Que és, repito, senão o Senhor Deus? Ó Deus sumo, excelente, poderosíssimo, onipotentíssimo, misericordiosíssimo e justíssimo.

Tão oculto e tão presente, formosíssimo e fortíssimo, estável e incompreensível; imutável, mudando todas as coisas; nunca novo e nunca velho; renovador de todas as coisas, conduzindo à ruína os soberbos sem que eles o saibam; sempre agindo e sempre repouso; sempre sustentando, enchendo e protegendo; sempre criando, nutrindo e aperfeiçoando, sempre buscando, ainda que nada te falte.

Amas sem paixão; tens zelos, e estás tranquilo; te arrependes, e não tens dor; te iras, e continuas calmo; mudas de obra, mas não de resolução; recebes o que encontras, e nunca perdeste nada; não és avaro, e exiges lucro. A ti oferecemos tudo, para que sejas nosso devedor; porém, quem terá algo que não seja teu, pois, pagas dívidas que a ninguém deves, e perdoas dívidas sem que nada percas com isso?

E que é o que até aqui dissemos, meu Deus, minha vida, minha doçura santa, ou que poderá alguém dizer quando fala de ti? Mas ai dos que nada dizem de ti, pois, embora seu muito falar, não passam de mudos charlatães.

Santo Agostinho

Santo Agostinho

A perfeição sempre foi uma qualidade desejada pelo homem. Santo Agostinho descreve aqui algumas das perfeições de Deus, construindo a imagem de seu caráter divino. Ele faz uso de algumas antíteses, como “sempre agindo e sempre repouso” ou “te iras e continuas calmo”, para fortalecer ainda mais o peculiar poder ilimitado de Deus. Ao mesmo tempo, essas contradições são o que priva o homem de tamanha virtude. Afinal, como ser oculto e ainda presente? Ou se irar e ser calmo? E ainda encontrar algo que nunca foi perdido? Essas são algumas das qualidades que a torna inatingível pelo homem. Santo Agostinho ainda termina por acentuar nossa limitação frente à perfeição divina, expressando a impossibilidade da descrição dos atributos de Deus por nós, e ainda critica aqueles que muito falam, mas que não passa de palavras vazias.

CAPÍTULO VIII – Livro II

O prazer da cumplicidade

E que fruto colhi eu, miserável, daquelas ações que agora recordo com rubor? Sobretudo daquele furto, em que amei o próprio furto, e nada mais? Nenhum, pois o furto, em si nada valia, ficando eu mais miserável com ele. Todavia, é certo que eu sozinho não o teria praticado – a julgar pela disposição de meu ânimo na ocasião; – não, de modo algum; eu sozinho não o faria.

Portanto, apreciei também na ocasião a companhia daqueles com quem o cometi. Logo, também é certo que apreciei algo mais além do furto; embora não amasse de fato nada mais, pois também essa cumplicidade era nada.

Mas, que é esta, na verdade? E quem mo poderá ensinar, senão o que ilumina meu coração e rasga minhas sombras? De onde vem à minha alma a ideia destas indagações, desta discussão e considerações? Se eu então amasse as peras que roubei, e quisesse apenas seu desfrute, podia tê-las roubado sozinho, se isso bastasse. Poderia fazer a iniquidade pela qual chegaria meu deleite sem necessidade de excitar o prurido da minha cobiça com a conivência de almas cúmplices.

Porém, como não achava deleite algum nas peras, colocava este no próprio pecado, que consistia na companhia dos que pecavam comigo.

Neste texto, Santo Agostinho trata de um de seus erros do passado, um ocorrido relatado em outro capítulo, “o furto das pêras” (capítulo IV). Conta que numa noite, roubaram os frutos de uma pereira. Não pela necessidade do furto, nem pelo próprio fruto, pois destes tinha até melhores, mas somente pelo prazer de pecar. Se realmente quisesse desfrutar das peras, poderia tê-las roubado sozinho. Não o fez, porque não queria as peras, logo, seu pecado não estava em amar os frutos, mas amar o furto. Passa então a traçar uma reflexão sobre o seu pecado, e nos faz pensar se estamos pecando apenas pelo anseio do objeto cobiçado, ou pelo prazer em fazer o que é proibido. Sua conclusão vem ao confessar que seu pecado, antes de tudo, estava nas suas companhias.

CAPÍTULO VII – Livro III

Alguns erros dos maniqueus

Não conhecia eu outra realidade – a verdadeira – e me sentia como que movido por um aguilhão a aceitar a opinião daqueles insensatos impostores quando me perguntavam de onde procedia o mal, se Deus estava limitado por forma corpórea, se tinha cabelos e unhas, e se deviam ser considerados justos os que tinham várias mulheres simultaneamente, e os que causavam a morte de outros ou sacrificavam animais.Santo Agostinho 0

Eu, ignorando essas coisas, perturbava-me com essas perguntas. Afastando-me da verdade, parecia-me encaminhar para ela, porque não sabia que o mal é apenas privação do bem, até chegar ao seu limite, o próprio nada. E como poderia ter eu tal conhecimento, se com os olhos não conseguia ver mais do que corpos, e com a alma não ia além de fantasmas?

Tampouco sabia que Deus é espírito, que não tem membros dotados de comprimento ou largura, nem quantidade material alguma, porque a quantidade ou matéria é sempre menor na parte que no todo e, mesmo que fosse infinita, sempre seria menor em uma parte definida por um espaço determinado do que em sua infinitude, não podendo estar toda inteira em todas as partes, como o espírito, como Deus.

Ignorava totalmente o princípio de nossa existência, que há em nós, e pelo qual a Escritura nos chama de imagem e semelhança de Deus.

Não conhecia tampouco a verdadeira justiça interior, que não julga pelo costume, mas pela lei retíssima do Deus onipotente. Por ela se hão de formar os costumes dos países conforme os mesmos países e tempos, e sendo a mesma em todas as partes e tempos, não varia de acordo com as latitudes e as épocas; lei essa segundo a qual foram justos Abraão, Isaac, Jacó e Davi, e todos os que são louvados pela boca de Deus. Os ignorantes, julgando as coisas de acordo com a sabedoria humana, e medindo a conduta alheia pela própria, os julgam iníquos. É como se um ignorante em armaduras, não sabendo o que é próprio de cada membro, quisesse cobrir a cabeça com a couraça e os pés com o elmo, e se queixasse de que as peças não se lhe adaptem convenientemente. Ou como se alguém se queixasse de que, em determinado dia considerado feriado do meio-dia em diante, não lhe permitissem vender a mercadoria à tarde, como acontecera pela manhã; ou porque vê que na mesma casa permite-se a um escravo qualquer tocar no que não é permitido ao copeiro; ou porque não se permite fazer diante dos comensais o que se faz atrás de uma estrebaria; ou, finalmente, se indignasse porque, sendo uma a casa e uma a família, não se atribuíssem a todos as mesmas coisas.

Tais são os que se indignam quando ouvem dizer que em outros tempos se permitiam aos justos coisas que não se lhe permitem agora, e que Deus mandou àqueles uma coisa e a estes outra, conforme os tempos, servindo uns e outros à mesma norma de santidade. E, contudo, é bem visível que no mesmo homem, no mesmo dia e na mesma hora e na mesma casa, o que convém a um membro não convém a outro; e aquilo que há pouco era licito, já não o é mais; e que o que se concede em uma parte, é justamente proibido e castigado em outra.

Diremos, por isso, que a justiça é vária e inconstante? O que acontece é que os tempos a que ela preside não caminham no mesmo passo, porque são tempos. Mas os homens, cuja vida terrestre é breve, por não saberem harmonizar as causas dos tempos idos, e das gentes que não viram nem conheceram, com as que agora veem e experimentam e, como também veem facilmente o que no mesmo corpo, na mesma hora e lugar convém a cada membro, a cada tempo, a cada parte e a cada pessoa, escandalizam-se com as coisas daqueles tempos, enquanto aceitam as de agora.

Ignorava eu então estas coisas e não as refletia e, embora de todos os lados me ferissem os olhos, eu não as via. Quando declamava algum poema, não me era lícito por um pé em qualquer outra parte do verso, senão em uma espécie de metro uns e em outra outros, e em um mesmo verso não podia meter em todas as partes o mesmo pé; e a própria arte da prosódia, apesar de mandar coisas tão distintas, não era diversa em cada parte, senão uma só e coerente.

Contudo, não via como a justiça, à qual serviram aqueles varões bons e santos, pudesse conter simultaneamente, de modo mais belo e sublime, preceitos tão diversos, sem variar em sua essência, apesar de não mandar ou distribuir aos diferentes tempos todas as coisas simultaneamente, mas a cada um as que lhe são próprias. E, cego, censurava àqueles piedosos patriarcas, que não só usavam do presente como Deus lhes mandava e inspirava, mas também prediziam o futuro conforme Deus lhes revelava.

Santo Agostinho fora acometido por perguntas e questões das quais nunca havia refletido, e que agora passavam a perturbá-lo. Ele então tece uma série de reflexões a respeito destas. Como poderia saber que o mal é a privação do bem se com os olhos, até então, só via os corpos, e com a alma, fantasmas? Também não sabia que Deus não tinha comprimento nem largura, pois era espírito, e que toda matéria, por infinita que fosse, é parte de um todo, no qual Deus estaria limitado. Não tinha consciência da verdadeira justiça, a que julga segundo a Lei de Deus, não as práticas humanas. Muitos se escandalizam ao ver a justiça de Deus nos tempos antigos, mas tanto aquela como esta, tem por padrão a santidade. A justiça não muda, o que muda é o tempo. E mesmo que fossem julgadas duas pessoas, no mesmo tempo e no mesmo lugar, ainda sim seriam julgadas de maneira diferente, afinal, o juízo é individual. Longe de entender essas coisas, Agostinho não via como a justiça podia ser imutável e ao mesmo tempo se adequar as diferentes ocasiões. Por isso, criticava os patriarcas, que pela Lei foram considerados santos, acusando-os de injustos.

CAPÍTULO XVI – Livro VII

Onde está o mal

Entendi por experiência que não é de admirar que o pão seja enjoativo ao paladar enfermo, mesmo tão agradável para o paladar sadio, e que olhos enfermos considerem odiosa a luz, que para os límpidos é tão cara. Se tua justiça desagrada aos maus, muito mais desagradam a víbora e o caruncho, que criaste bons e adaptados à parte inferior da tua criação, com a qual também os maus se assemelham, tanto mais quanto mais diferem de ti, assim como os justos se assemelham às partes superiores do mundo na medida em que se assemelham a ti. Indaguei o que era a iniquidade, e não achei substância, mas a perversão de uma vontade que se afasta da suprema substância, de ti, meu Deus – e se inclina para as coisas baixas, e que derrama suas entranhas, e se intumesce exteriormente.

O pecado de Adão e Eva, de Michelângelo

O pecado de Adão e Eva, de Michelângelo

Aqui é retratado um assunto já discorrido em outros capítulos, no qual Santo Agostinho busca constantemente a origem do mal. Ele entendia que o mal não poderia ter procedido de Deus, o bem supremo. Também seria irracional pensar que um Deus ilimitado e infinito teria criado uma força tão poderosa quanto si. Neste capítulo, Agostinho exemplifica sua reflexão pelo pão, de gosto ruim para os doentes, porém agradável para os sadios, e a luz, desagradável aos enfermos, mas almejado pelos sãos. Ao analisar a situação, percebe-se então que a origem do problema não está em substâncias exteriores ao homem, mas sim nele próprio. Agostinho termina por concluir que o mal não é uma substância, mas sim o uso do livre-arbítrio para escolher caminhos distantes ou contrários ao bem supremo, Deus. Sendo assim, o mal nada mais é que a própria ausência de bem.

CAPÍTULO XIV – Livro XI

Que é o tempo?

Não houve, pois, tempo algum em que nada fizesses, pois fizeste o próprio tempo. E nenhum tempo pode ser coeterno contigo, pois és imutável; se, o tempo também o fosse, não seria tempo. Que é pois o tempo? Quem poderia explicá-lo de maneira breve e fácil? Quem pode concebê-lo, mesmo no pensamento, com bastante clareza para exprimir a ideia com palavras? E no entanto, haverá noção mais familiar e mais conhecida usada em nossas conversações?

Quando falamos dele, certamente compreendemos o que dizemos; o mesmo acontece quando ouvimos alguém falar do tempo. Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se quiser explicar a quem indaga, já não sei. Contudo, afirmo com certeza e sei que, se nada passasse, não haveria tempo passado; que se não houvesse os acontecimentos, não haveria tempo futuro; e que se nada existisse agora, não haveria tempo presente. Como então podem existir esses dois tempos, o passado e o futuro, se o passado já não existe e se o futuro ainda não chegou? Quanto ao presente, se continuasse sempre presente e não passasse ao pretérito, não seria tempo, mas eternidade. Portanto, se o presente, para ser tempo, deve tornar-se passado, como podemos afirmar que existe, se sua razão de ser é aquela pela qual deixará de existir? Por isso, o que nos permite afirmar que o tempo existe é a sua tendência para não existir.

O tempo

O tempo

A reflexão de Agostinho a respeito do tempo deixa claro: o tempo passado e o tempo futuro não existem. E o tempo presente, para ser tempo, deve tornar-se passado, afinal, o presente que não passa não é tempo, mas eternidade. Santo Agostinho trata desse assunto em vários outros capítulos. Outra reflexão é a respeito da medida do tempo. Como o passado pode ser longo ou breve se já não existe? Pode-se medir somente o presente, pois é real. Sendo assim, não existem três tempos, passado, presente e futuro, mas somente um, o presente, pois o passado, quando aconteceu, não era passado, mas presente, e o futuro quando acontecer, também será presente. Porém, o que é o presente? Se dissermos o mês, não o seria, pois o dia que se foi é passado, e o que ainda viria é o futuro. O mesmo aconteceria com o dia, as horas que já foram é passado, e as que virão, futuro. Se pudéssemos dividir o tempo na menor fração possível, teríamos uma passagem tão rápida do futuro para o passado, que não teríamos presente.

Sendo esta inclinação do presente de deixar de existir para ser tempo, Agostinho termina por concluir que “o que nos permite afirmar que o tempo existe é a sua tendência para não existir”.

O conhecimento – Spinoza (1632 – 1677)

O filósofo francês René Descartes é considerado o fundador do dualismo moderno, que consiste na separação entre duas substâncias, corpo (substância material) e mente (substância imaterial). Nesse contexto, a filosofia de Spinoza vem como uma resposta ao dualismo de Descartes.

Mente e corpo, dualismo de René Descartes

Mente e corpo, dualismo de René Descartes

Quando se tem uma definição verdadeira, pode-se deduzir a partir dessa, outras verdades, formando com essas deduções um sistema metafísico. Portanto, pode-se demonstrar a metafísica dedutivamente, através de consequências evidentes derivadas de definições iniciais verdadeiras, só podendo-se chegar a conclusões verdadeiras se essas definições iniciais forem corretas.

Para que todo esse sistema metafísico faça sentido, é necessário entender que a substância, definida logo no início de sua obra “Ética”, é aquilo que necessariamente existe, para que todas as deduções feitas a partir dela se encaixem no seu modelo. Para se obter esses axiomas verdadeiros, Spinoza sugere então a distinção entre três formas de conhecimento, sendo o imaginativo, o racional e o intuitivo.

Segundo Spinoza, não existem ideias falsas ou verdadeiras em relação ao conhecimento. O que existem são proposições mais, ou menos, adequadas, de modo que ele evidencia três tipos de conhecimento. O conhecimento opinativo, também chamado de imaginativo, é o conhecimento prático, que é adquirido a partir das percepções que nós temos das coisas, sem a preocupação com sua causa ou finalidade. É considerado por ele uma forma mínima de conhecimento, pois é subjetivo. Assim, não apresenta a natureza das coisas conhecidas, mas representações que são baseadas nas qualidades do objeto e do sujeito, sendo estas fragmentadas e incompletas. Para tal, precisa-se de uma experiência vaga, mas é um conhecimento empírico no sentido depreciativo, pois é fundamentado na “impressão”. Dos seus limites decorrem o sofrimento e as paixões.

Baruch Spinoza

Baruch Spinoza

O conhecimento racional é aquele tipo de conhecimento notável que baseado na matemática, física ou geometria, permite ao homem compreender algumas realidades em relação a ele próprio e ao universo. É uma dedução imediata alcançada pelo raciocínio, havendo a preocupação com a causa e a finalidade. Pode-se obter o conhecimento através da observação, mas somente se for dirigida pelas características que todos os objetos têm em comum, não apresentando, assim, as distorções causadas pela experiência dos sentidos, como no conhecimento imaginativo. É desse modo que se dá o conhecimento a priori, segundo Spinoza, na matemática, física e geometria. Mas esse ainda não é o conhecimento completo.

O conhecimento intuitivo é considerado por ele o conhecimento perfeito. Por meio da intuição o homem consegue perceber diversas realidades, inclusive a própria noção que ele tem de Deus e de si mesmo. Esse conhecimento racional particular é a própria substância divina e é pela intuição que se pode afirmar que as coisas dependem de Deus como sua causa completa. Essa experiência mística viria acompanhada, segundo ele, por uma forte emoção, a qual chamou de “o amor intelectual de Deus”. É desse conhecimento que derivam a felicidade e a virtude plenas. Perceber as coisas por meio da intuição seria, para Spinoza, “ver com os olhos de Deus”.

Dessa forma, podemos concluir que o conhecimento não é uma adequação entre a mente e a coisa, mas uma relação de adequação entre a mens (do latim, mente, espírito) do sujeito com a mens do objeto.

O início da filosofia moderna – Nicolau Copérnico (1473 – 1543)

“Há certos ‘paroleiros’ que se acham no direito de julgar, embora sejam completamente ignorantes em matemática e, por distorcerem descaradamente o sentido de algumas passagens nas Santas Escrituras para ajustar-se ao seu objetivo, eles ousam censurar e atacar minha obra; preocupo-me tão pouco com eles que vou até mesmo desprezar seus julgamentos irrefletidos.”Das revoluções dos orbes celestes

Nicolau Copérnico

Nicolau Copérnico

Muitas fórmulas matemáticas foram usadas por Ptolomeu para explicar a teoria de Aristóteles, no qual a Terra estava imóvel no centro do universo e ao redor dela, estavam os planetas e o sol, fixos em esferas transparentes, que se encaixavam e giravam, dando movimento ao sistema. Mas foram as falhas na teoria de Ptolomeu que levaram Copérnico a estudar o movimento dos planetas. Foi assim que Nicolau Copérnico “parou o sol e moveu a terra”.

Sua obra “De revolutionibus orbium coelestium” (1543, Das revoluções dos orbes celestes) marcou o início da transição do pensamento geocêntrico para o heliocêntrico. Neste livro, ele propõe um modelo heliocêntrico para o universo, no qual o sol estaria imóvel no centro e a Terra, assim como os demais planetas, estaria em órbitas girando ao redor do sol. Agora o homem, criação de Deus, passava a deixar o seu lugar central no universo, para estar num lugar igual a tantos outros planetas.

Modelo heliocêntrico de Copérnico

Modelo heliocêntrico de Copérnico

Os primeiros a se opor a nova ideia de Copérnico foram os luteranos. Eles usavam como argumento a passagem bíblica tal qual dizia que Josué pediu a Deus que parasse o sol e não a Terra. Não demorou muito e a obra de Copérnico entrou no Index, lista de livros proibidos pela Igreja Católica. Pelo fato da Igreja interpretar os relatos bíblicos de forma literal, condenavam qualquer teoria que, supostamente, estivesse em contradição com o texto sagrado. Galileu escreveu a respeito desse conflito: “Copérnico não ignorou a Bíblia, mas sabia muito bem que, se sua doutrina fosse provada, não iria contradizer as Escrituras quando estas fossem entendidas corretamente”.

Copérnico foi o responsável por revolucionar o pensamento humano, mostrando a fragilidade dos conceitos religiosos e científicos consagrados até então, por meio da matemática e de suas pesquisas.

Heliocentrismo

Heliocentrismo

“Assim, uma vez que nada impede que a Terra se mova, sugiro que devemos considerar também se adequar várias moções, de modo que ela pode ser considerada como um dos planetas. Pois, não é o centro de todas as revoluções.” – Nicolau Copérnico (Das revoluções dos orbes celestes, 1543)

O início da filosofia moderna – Sir Isaac Newton (1643 – 1727)

“Muito do que concerne a Deus, no que diz respeito ao discurso sobre ele a partir das aparências das coisas, certamente pertence à filosofia natural.”Princípios matemáticos da filosofia natural

Sir Isaac Newton

Sir Isaac Newton

Em sua principal obra, “Princípios matemáticos da filosofia natural” (1687), Newton sintetiza as duas grandes correntes metodológicas da ciência moderna, a matematização e a experiência. Galileu Galilei já tinha concebido a ideia de lei natural e sua significação metodológica, porém, só a aplicou corretamente em poucos fenômenos particulares. Newton foi o responsável por mostrar que esta legalidade rigorosa poderia ser estendida por todo o universo. Também fundamenta a ciência que influenciará os pensadores iluministas, motivo pelo qual foi importante para a filosofia.

Newton fundamenta o uso do método indutivo pela ciência, ou seja, pode-se deduzir que das causas parecidas ou iguais obtém-se consequências iguais. Toda a sua filosofia foi desenvolvida com base na sua visão do universo como uma máquina que está constantemente em funcionamento. Para ele, a causa última das coisas não pode ser conhecida por meio de pesquisas científicas, pois não é mecânica, e só está contemplada no Ser Supremo. Ao estudar o sistema solar, os planetas e os cometas, afirma que estes só poderiam proceder do domínio de um Ser inteligente e poderoso. Ele diz, a respeito de Deus, que um ser, mesmo que perfeito, sem domínio, não pode dizer-se ser Senhor Deus (Newton, 1687).

Espaço absoluto, segundo Newton

Espaço absoluto, segundo Newton

Newton desempenha um papel importante para a história da filosofia pelas suas noções de espaço e tempo absolutos, formuladas nos Princípios. Não apenas de aspecto físico, essas noções apresentam consequências de ordem metafísica. O tempo absoluto liga-se à teoria do espaço absoluto. Ambos fluem uniformemente sem relação com nada externo, e este fato é o que confere ao tempo seu caráter de imutabilidade. Apesar das teorias do espaço e do tempo absolutos conferirem ao pensamento de Newton uma configuração metafísica, o autor repele qualquer noção de ordem metafísica ou religiosa.

Pelas palavras de Sir Isaac Newton:

“Nos livros precedentes tratei dos princípios da filosofia, mas não dos filosóficos, e sim apenas dos matemáticos, isto é, daqueles sobre os quais se pode discutir nos assuntos filosóficos. Tais são as leis e condições dos movimentos e das forças, coisas que dizem bem respeito à filosofia. (…) Resta deduzir desses princípios a constituição do sistema do mundo.” – Sir Isaac Newton (Princípios matemáticos da filosofia natural, 1687)

Referências:

NEWTON, Sir Isaac. Princípios matemáticos da filosofia natural, 1687.