A realidade oculta, Brian Greene

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A realidade oculta, Brian Greene

Por muito tempo, a palavra Universo significou tudo o que existe e, por isso, num primeiro momento “multiversos” soa como uma contradição, já que sugere mais de um Universo. Conforme a ideia de multiverso foi se desenvolvendo, a interpretação de universo precisou ser alterada de modo a representar porções da totalidade a que alguém pode ter acesso. Muitas teorias sobre multiversos procuram explicar suas origens e como funcionam, seja partindo dos mesmos princípios, como a teoria das cordas, por exemplo, ou então de ideias diferentes, e Brian Greene em seu livro A realidade oculta, publicada pela Companhia das Letras em 2012, procura mostrar como todas essas teorias levam a uma única resposta: universos paralelos existem.

Uma dessas teorias é a do multiverso inflacionário, que afirma uma expansão rápida inicial do cosmo, dada por uma pressão negativa que gera uma gravidade repulsiva. O responsável por essa expansão seria o campo ínflaton, um campo hipotético que tem valor uniforme por toda a região do espaço, preenchendo essa região não só com energia, mas também com pressão negativa. O valor de um campo pode mudar e isso faz com que a gravidade repulsiva opere apenas durante um breve período de tempo. No início, o ínflaton estava com alto nível de energia potencial e pressão negativa, o que desencadeou um surto de expansão inflacionária, descarregando assim sua energia potencial. Com essa queda, a energia e a pressão negativa nele contidas se dissipam e tem-se o fim do período de expansão intensa e rápida. A energia do ínflaton dissipada condensa-se então em uma sopa de partículas que enchem o espaço. A teoria inflacionária explica a temperatura uniforme do universo: quando tudo estava condensado e bem próximo, havia um equilíbrio térmico estabelecido, de modo que tudo se expandiu tão rápido que não houve tempo suficiente para a temperatura mudar em alguns lugares. Houve desde então um resfriamento progressivo, mas a uniformidade estabelecida antes determina o resultado constante de hoje.

Uma ótima analogia visual para enxergar esse multiverso inflacionário é imaginá-lo como um queijo suíço, onde o material do queijo é a região onde o campo do ínflaton tem valor alto e os buracos onde ele diminui. Esses buracos seriam as regiões como a nossa que deixaram a expansão super-rápida e converteram a energia do campo ínflaton em partículas, também chamados de universos-bolha. As partes cheias de queijo expandem-se cada vez mais por estarem submetidas à expansão inflacionária. Se a construção física da teoria inflacionária for eterna, então o multiverso é inevitável. Um número infinito de ocasiões com um número finito de combinações garante um número infinito de repetições, supondo que o Universo seja infinito. Há um limite para a quantidade de matéria e energia que pode existir dentro de uma região do espaço de um tamanho determinado. O número de diferentes configurações possíveis das partículas que existem dentro de um horizonte cósmico é finito. Logo, com um número finito de arranjos possíveis de partículas, esses arranjos terão de repetir-se um número infinito de vezes, garantindo universos idênticos, como outros iguais ao nosso, outros parecidos, com muitas semelhanças, mas com constantes da natureza diferentes das nossas por exemplo, ou até mesmo totalmente incompatíveis com a vida. Os universos do multiverso podem ter diferentes características físicas, ainda que todos os universos sejam governados pelas mesmas leis fundamentais. Com o tempo, esses retalhos cósmicos aumentarão e se superporão, ou seja, os universos paralelos serão fundidos. No multiverso inflacionário, os universos podem colidir: se duas bolhas se formam relativamente próximas uma à outra, o espaço entre elas poderá ser tão pequeno que sua taxa de separação será menor do que sua taxa de expansão.

Durante anos, físicos e cientistas do mundo todo buscam por uma teoria de tudo, que possa unificar toda a natureza. Atualmente, a grande candidata a teoria de tudo é a teoria das cordas, que garante a união entre a gravidade e a mecânica quântica e também a unificação de todas as forças, entre outras coisas. A teoria das cordas diz que as partículas fundamentais da matéria são filamentos semelhantes a cordas e não pontos adimensionais, e que por causa das limitações do poder de resolução dos nossos instrumentos as cordas nos aparecem como pontos. A teoria das cordas resolve o problema da unificação, pois as cordas, diferente das partículas puntiformes que existem em único local, são dotadas de extensão espacial e apresentam uma pequeniníssima dispersão, o que dilui as turbulentas flutuações quânticas que prejudicavam as tentativas anteriores de juntar a gravidade com a mecânica quântica. A teoria das cordas não se trata apenas de cordas, mas também de membranas, que também são capazes de vibrar como as cordas. Essas membranas também podem ser chamadas de branas. Chegamos então à outra teoria de multiverso: o multiverso das branas. Assim como as cordas podem ser enormes de acordo com a quantidade de energia, as branas também podem e a teoria diz que, inclusive, estamos vivendo em uma delas. Analogamente, essa brana seria como uma única fatia de pão de forma, correspondendo ao nosso universo, e todas as outras fatias do pão também seriam outros universos. As cordas e as branas estão relacionadas pois as branas são o único lugar em que as pontas das cordas-traços (as cordas podem ter forma de laços fechados ou traços) podem residir. Se nos chocássemos com outra brana, a energia contida em seu movimento produziria um enorme fluxo de partículas e radiação que eclipsaria todas as estruturas organizadas e haveria então um ambiente quente e denso, conforme as condições do Big Bang. Muitos outros assuntos foram discutidos pelo autor, como buracos negros e energia escura, e nove teorias sobre multiversos foram abordadas no livro A realidade oculta, aqui foram tratadas apenas duas: o multiverso inflacionário e o das branas, visto que estas são suficientes para dar noção sobre o objetivo do autor com este livro.

Quando se trata de divulgação científica, a didática é fundamental e para isso, o uso de analogias é muitas vezes indispensável. O público alvo de um livro como esse não é alguém pós-graduado na área ou com conhecimentos específicos de determinado assunto, nem pode ser. Afinal, o objetivo deve ser tornar o conteúdo científico acessível ao público leigo, e neste ponto, Brian Greene não respondeu de acordo às expectativas. Claro que essa tarefa não é fácil, visto que o livro traz um conteúdo denso e de difícil interpretação. O objetivo do autor com este livro, entretanto, foi alcançado plenamente, já que sua conclusão sobre multiversos foi bem argumentada, inclusive usando nove teorias distintas que a justificam. O texto todo é bem estruturado e com conteúdo histórico importante pra se entender algumas das ideias trabalhadas. A realidade oculta é um ótimo livro pra quem já tem interesse por assuntos como universos paralelos, teoria das cordas, buracos negros e matéria escura, e também algum conhecimento prévio sobre, pois aproveitará melhor a leitura.

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Criação Imperfeita, Marcelo Gleiser

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Criação imperfeita, Marcelo Gleiser

Há tempos, cientistas do mundo todo buscam por uma teoria que unifique o cosmos e explique todo o comportamento do Universo. Essa teoria, chamada de teoria de tudo, seria a responsável por interligar a física do muito grande (que rege o funcionamento do Universo) e a do muito pequeno (que rege o funcionamento de partículas elementares da matéria, por exemplo). Em seu livro Criação Imperfeita, Marcelo Gleiser mostra como a Natureza é imperfeita e o cosmos repleto de assimetrias que foram essenciais para o surgimento da vida. A partir disso, ele argumenta que a teoria de tudo não pode existir, já que a Natureza não se comporta de modo simétrico, logo, não faria sentido uma única teoria explicar todo o seu funcionamento.

Muitas teorias são aceitas como verdades em determinada época, até que se prove que estão incorretas anos mais tarde. Kepler, por exemplo, acreditava que os planetas do sistema solar não eram 6 (até então, Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno) por acaso, já que existiam 5 poliedros regulares conhecidos desde o tempo dos gregos, e concluiu então que entre um planeta e outro havia um sólido geométrico. Até o século passado, cientistas acreditavam que a luz precisava de um meio para se propagar, chamado éter, conhecido desde a época dos gregos antigos. Em 1887, Michelson realizou um experimento que, caso existisse, o éter obrigatoriamente seria detectado. Entretanto, os resultados obtidos não mostraram nenhum sinal de qualquer substância que pudesse vir a ser o éter. Michelson morreu acreditando no éter, mesmo seus experimentos provando o contrário. O desejo de acreditar em algo impossível torna-o plausível.

Michael Faraday unificou a eletricidade e o magnetismo a partir de experimentos nos quais percebeu que ambos se tratavam de um único fenômeno, o eletromagnetismo. Sua ambição era unificá-los também com a gravitação, porém, não obteve sucesso. Maxwell equacionou as observações de Faraday e provou que a luz é uma onda eletromagnética e não precisa de meio para se propagar. Entretanto, a unificação da eletricidade com o magnetismo é imperfeita. Enquanto existem monopólos elétricos, não foram detectados até hoje monopólos magnéticos. Ao se quebrar um ímã (com pólos magnéticos norte e sul em cada extremidade), são obtidos dois novos ímãs, cada um com pólos norte e sul.

A Natureza também aparenta ter várias preferências, como, por exemplo, há mais matéria do que antimatéria no Universo. Se a quantidade de ambas fossem comparáveis, a aniquilação entre as duas seria inevitável e geraria uma enorme dose de raios gamas e apenas alguns prótons e antiprótons teriam sobrevivido, o que seria pouco para gerar todas as estruturas que observamos no Universo. Ou seja, sem essa assimetria, muito provavelmente não estaríamos aqui.

A operação de paridade matematicamente, transforma um objeto em sua imagem no espelho. Quando aplicada a uma partícula que gira, pode inverter o sentido da sua rotação (spin). Entretanto, neutrinos não são simétricos de acordo com a operação de paridade, ou seja, eles possuem uma orientação espacial preferida, neutrinos apenas interagem com a matéria girando da direita para a esquerda. A assimetria rotacional dos neutrinos é descrita pelo nome de quiralidade, como também ficou conhecida a assimetria de certos compostos orgânicos. Pasteur realizou experimentos com o ácido tartárico, um composto orgânico comum em uvas e descobriu que as moléculas do ácido podem existir em duas formas, idênticas, mas que não podem ser superpostas, como uma imagem refletida da outra. O ácido sintetizado trazia os dois tipos de moléculas, enquanto que o encontrado nas uvas apresenta sempre um único tipo de molécula, ou seja, a Natureza exibe uma assimetria molecular. Entretanto, a orientação espacial não é a única onde o Universo faz suas preferências. O cosmos também tem uma orientação temporal preferida. Apesar de existirem sistemas que obedecem à reversão temporal, ou seja, não exibem uma direção fixa no tempo podendo evoluir nos dois sentidos sem qualquer diferença, como um pêndulo oscilando no vácuo, por exemplo, ou um fóton colidindo com um elétron, é fácil notar que a Natureza se desloca no tempo sempre no sentido passado – futuro.

Essas e muitas outras assimetrias do Universo são o que possibilitou que este tivesse as condições necessárias para que fosse como o conhecemos hoje e mais, para que a vida surgisse e estivéssemos aqui. Esperar encontrar uma única teoria que explique todo o comportamento e funcionamento do Cosmos, com suas assimetrias e imperfeições, é uma perda de tempo. Afinal, nosso conhecimento do mundo é limitado pelo que nossos instrumentos de medida podem medir e pelo que podemos observar, nunca seremos capazes de medir tudo o que existe, logo, uma teoria de tudo não faz sentido. Não vamos obter uma única resposta final pra tudo, mas sim sequências de descrições cada vez mais precisas do Universo. Mesmo que um dia tenhamos uma visão universal e imparcial do cosmo, sem subjetividade, ainda assim o Universo continuará a ser uma construção humana. “O Universo é o que vemos dele”, segundo Marcelo Gleiser.

Seu texto flui bem e apesar do conteúdo ser muitas vezes considerado de difícil compreensão, ele é extremamente didático e claro, explicando cada termo e expressão de modo que qualquer um sem formação na área possa acompanhar. O autor também argumenta e justifica muito bem as suas opiniões, sendo objetivo na medida certa e seguindo uma linha de raciocínio bem construída. Diferente do autor, acredito na possibilidade de que o cosmos seja uma unidade, mas que, mesmo se for, não está ao alcance do conhecimento humano, visto que para se obter uma teoria que explique tudo é necessário primeiramente, conhecer tudo. Apesar da teoria das cordas ter potencial para ser a teoria de tudo, muito do que ela impõe ainda precisa ser provado empiricamente. É claro que a teoria das cordas é promissora, não há como testá-la diretamente. Este é um dos maiores problemas das teorias modernas, segundo Gleiser, elas não podem ser refutadas, somente comprovadas.

O beijo de Juliana, de Osame Kinouchi

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O beijo de Juliana, Osame Kinouchi

Em O gene egoísta, obra que visa explicar a evolução na perspectiva do gene e não do organismo, Richard Dawkins trata o sorriso como um mecanismo que foi selecionado pois permite aos pais saber quais de suas ações são mais benéficas a suas crias, de modo que a partir do ponto em que um sorriso passa a ser algo recompensador, este pode ser usado como uma ferramenta de manipulação, ou seja, o gene de um indivíduo que sorri tem mais chances de sobreviver. A partir dessa perspectiva, até que ponto pode-se considerar o beijo de uma criança como algo puro e verdadeiro e não com motivação puramente egoísta? Existe solidariedade que não emerge do egoísmo? Vale a pena se preocupar com esses paradoxos?

O beijo de Juliana não é um livro de respostas, mas um lugar onde opiniões diferentes se encontram. O livro é composto por e-mails que foram trocados por quatro físicos onde estes falam de forma totalmente descontraída sobre assuntos diversos, como futebol, política, religião, felicidade, ciência, filosofia, pensamento humano, vida, cada um apresentando sua cosmovisão seja questionando, provocando, afirmando, de modo a deixar a leitura intrigante e diferente das demais que também tratam desse tema.

Quanto mais o texto caminha, mais desperta curiosidade, já que este vem apresentando questões que são sempre seguidas por uma discussão, de modo que são lidas já se esperando pela opinião que cada um irá expor. É um livro que provoca e que inevitavelmente faz com que se reflita sobre pontos que todos nós já pensamos antes, mas a partir de uma perspectiva diferente agora, ou até mesmo que nunca foram pensados.

Ao que cabe a mim concluir, o livro alcançou um de seus objetivos se este for fazer com que se reflita sobre a distância que há entre o conhecimento científico e a vida humana, os dilemas que surgem nessa distância e como estes se relacionam entre si. Se fosse possível resumir sua essência em uma só frase retirada do próprio livro, ‘Já pensaram dessa maneira antes?’ faria um bom papel. Entretanto, há muito mais nesse livro do que pode caber em uma frase.

Manifesto do partido Comunista

“Proletários do mundo, uni-vos!”

Tendo como concepção de mundo uma visão de conjunto da natureza e do homem, que implica uma ação e não se trata da obra de um único pensador, mas sim da expressão de uma época, temos apenas três. A primeira, concepção cristã, define-se por uma teoria de hierarquia de seres vivos, valores e pessoas, na qual se encontra no topo o Ser Supremo, Deus. Mais visível na Idade Média, ficou conhecida por concepção medieval, porém é válida até hoje. Com o declínio da Idade Média, no século XVI, surge outra concepção, na qual a hierarquia dá lugar ao indivíduo: a concepção individualista. Corresponde à visão burguesa do mundo, ao liberalismo e a uma teoria otimista de harmonia entre o homem e a natureza. comunismo-3

Analisando as contradições da sociedade moderna – afinal, verifica-se contradições no homem e na sociedade, no qual o interesse individual pode opor-se ao interesse comum, e a inexistência de uma harmonia entre o homem e a natureza, já que este luta contra ela e tem a necessidade de dominá-la – surge então o marxismo como uma expressão da vida social, prática e real, uma concepção que não estabelece uma hierarquia nem se encerra na consciência do indivíduo isoladamente. Antes, toma conhecimento de realidades naturais, práticas, sociais e históricas.

Karl Marx e Friedrich Engels introduzem sua obra “Manifesto do partido comunista” a partir da situação da Europa naquele período: os poderes europeus já reconhecem o comunismo como um poder, aliaram-se contra ele e é tempo dos comunistas se manifestarem.  Na história da luta de classes, toda luta tem seu fim ou numa reconfiguração da sociedade ou num declínio de ambas as classes em luta. Na nossa época, as oposições de classes foram simplificadas a dois grupos que se enfrentam diretamente, a burguesia e o proletariado.

Na crise do feudalismo, o modo de produção feudal já não supria os novos mercados que surgiram com as grandes descobertas. Com a burguesia em ascensão, surgiu um novo modo de produção, a manufatura, que ocasionou num crescimento ainda maior dos mercados. Agora, a manufatura já não é mais suficiente e novamente o modo de produção passou por uma transformação. Surgiu a maquinofatura e com ela as grandes indústrias, que facilitou ainda mais o desenvolvimento do comércio, reagindo sobre a extensão da Indústria, permitindo o grande crescimento da burguesia. Sendo assim, a burguesia é o produto das revoluções no modo de produção num longo curso.

Marx e Engels

Marx e Engels

Com a industrialização, as necessidades velhas foram todas supridas, porém agora, surgem novas necessidades, que só podem ser supridas com produtos de outros países, gerando assim uma ligação entre eles. Essa dependência entre os países fez surgir produtos padronizados, formando um bem comum, e agora das literaturas locais formam-se mundiais.

O capitalismo, inevitavelmente, vem acompanhado das crises. Com o aumento cada vez maior do capital sob o domínio da burguesia, a sociedade moderna vive uma contradição histórica, pois o problema agora é a superprodução. Assim, a solução da crise para a burguesia está na aniquilação das forças produtivas e na exploração mais profunda dos mercados e a conquista de novos.

A burguesia não trouxe consigo somente a produção, a arma que lhe traz a morte, mas com ela também aqueles que a manejam, os proletários. Estes são mercadorias, vendem-se e por isso estão expostos as oscilações do mercado como qualquer outra mercadoria. Assim que surge o proletário, surge também sua luta contra a burguesia. A concordância entre eles não é vinda ainda da sua união, mas sim da união da burguesia, que põe em movimento todo o proletariado para atingir seus objetivos.

Segundo Marx, a burguesia não pode dominar por muito tempo, porque é incapaz de permitir a seu escravo a própria existência, deixando-o numa situação em que dependa dela para se alimentar, no entanto, ela deveria ser alimentada por ele. O próprio progresso da indústria acaba colocando a união dos proletários no lugar de seu isolamento causado pela concorrência.

Os comunistas compartilham os mesmos interesses com os proletários, porém, diferem por fazer valer os interesses comuns de burguesiatodo o proletariado, sendo o setor mais decidido e impulsionador. Ambos, comunistas e proletários, defendem a “formação do proletário em classe, derrubamento da dominação da burguesia, conquista do poder político pelo proletariado”. O comunismo não defende a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa. Marx afirma que o trabalho assalariado não cria a propriedade, e que a propriedade explora o trabalho assalariado. Ele também critica o caráter dessa apropriação, pois o operário só vive para aumentar o capital, conforme o interesse da burguesia. Até mesmo as ideias dos trabalhadores vêm da relação de produção e propriedade burguesas.

Portanto, através de uma revolução, o proletariado deve se elevar a classe dominante, usar sua dominação para tirar o capital da burguesia e centralizar os meios de produção na mão do Estado (proletário), para aí poder multiplicar as forças de produção. Marx acredita que se isso realmente acontecer e os antigos meios de produção forem realmente suprimidos, com eles também são suprimidas as condições de existência da oposição de classes, e com isso, as classes e também a dominação como classe. Marx termina por concluir que “o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”.

Ao falar do socialismo reacionário, Marx cita três. O primeiro, o socialismo feudal, surge quando as aristocracias francesas e inglesas, não podendo travar uma luta política com a burguesia, passa a usar as cantigas e os panfletos para tentar alcançar seus objetivos. Passaram a aparentar a perda de seus verdadeiros interesses e apoiar a causa dos proletários. Os feudais usam como argumento a diferença entre sua exploração e a dos burgueses, mas se esquecem de que os tempos mudaram e que seus métodos são ultrapassados.

Com o desenvolvimento da burguesia, e consequentemente do proletariado, surgiu também uma “pequena burguesia”, que se encontra entre essas duas classes. Seus membros estão constantemente sendo atirados para o proletariado pela concorrência. Com o desenvolvimento das indústrias, desaparecerão como parte autônoma e serão substituídos por criados. O objetivo do socialismo pequeno-burguês é restabelecer os antigos meios de produção e relações de propriedade, ou tornar passado os atuais.

A Comuna de Paris

A Comuna de Paris

Quando os burgueses alemães estavam em luta contra o absolutismo feudal, chegou à Alemanha a literatura socialista e comunista da França. Porém, por estarem em contexto histórico e social diferentes, a literatura francesa perdeu todo o seu significado. A partir daí, os literatos alemães passaram a adaptar as ideias francesas de acordo com seu ponto de vista. À esta adaptação filosófica dos ideais franceses, deram o nome de “socialismo verdadeiro”. A literatura socialista-comunista alemã, por não exprimir a luta de uma classe contra a outra, acreditava que defendia os interesses da essência humana, do homem em geral, que não pertence a nenhuma classe, ao invés dos interesses do proletariado. No entanto com o tempo, foi perdendo pouco a pouco a sua inocência. Por fim, acabou nomeando o alemão como o homem normal e a nação alemã como a nação normal. Deu a isto um sentido superior, anunciando-se como imparcial acima de todas as lutas de classe, de modo a distorcer todo o sentido original da literatura socialista francesa.

Para garantir a sua existência, a burguesia precisa remediar os males sociais. Ela não quer as lutas e nem os perigos decorrentes destas. Para isso, os burgueses buscam fazer com que o proletariado perca o interesse de movimentos revolucionários, camuflando seus verdadeiros objetivos e fazendo com que este acredite que defende seus interesses. Este é chamado socialismo burguês.

Para os socialistas utópicos, a classe trabalhadora só existe como a classe sofredora. Eles não veem do lado do proletariado nenhuma atividade histórica ou movimento político que lhes seja particular. Querem melhorar a vida de todos na sociedade, por isso defendem também os interesses da classe dominante e com isso, rejeitam toda a ação política e revolucionária, buscando atingir seus objetivos de forma pacífica. Quanto mais se desenvolve a luta de classes, mais perdem sua elevação fantástica e, pouco a pouco, vão entrando na categoria de socialistas conservadores.

Marx termina o Manifesto falando das lutas de classes que estavam acontecendo em diferentes lugares. Em toda parte, os comunistas estavam apoiando o movimento revolucionário. Travada a luta, estavam declarando que seus objetivos só podiam ser alcançados através do derrube de toda ordem social.

Se analisarmos a história da sociedade e sua evolução, vamos ver que as sociedades primitivas eram de certa forma, comunistas. comunismo_beer1Após a dissolução das comunidades aldeãs, foram se formando classes separadas que cada vez mais foram se opondo. Conforme as revelações da realidade foram pedindo revolução, estas foram reconfigurando as sociedades na história. É difícil imaginar uma revolução que consiga fazer com que a sociedade de hoje volte a ser como as primitivas, afinal, foram muitos anos e várias revoluções que permitiram suas constantes transformações até aqui e isso mostraria que a teoria da evolução de Darwin é um grande equívoco.

Ainda temos outro empecilho. Pensando na mudança da mente dos proletários que permitiria a revolução, ainda assim não temos garantia nenhuma de que será diferente da Comuna de Paris. Qual mudança seria necessária para vencer os frutos de um poder nas mãos? Essa é a fraqueza humana que corrompe até o melhor dos homens. A educação dos indivíduos que crescem numa sociedade tribal ou numa comunidade de famílias já é de caráter comunitário. As pessoas do mundo globalizado são educadas da maneira mais egoísta possível e com o acesso ao poder mais comum a nós do que àqueles, o egoísmo se tornou quase que inerente ao homem agora.

Com certeza, ainda muitas outras revoluções virão e mudarão o rumo da história. Mas fugir de um modelo em que há alguém no comando não cabe à realidade, pois a humanidade precisa de um controle e até mesmo nos agrupamentos familiares há o “chefe de família”, afinal, o homem que é mandado tem direção, mas aquele que é verdadeiramente livre, não sabe o que fazer.

 

Referências:

MARX e ENGELS. Manifesto do Partido Comunista, 1848.

LEFEBVRE, Henri. O marxismo, 1963.

O príncipe das desventuras

Policarpo Quaresma, como o próprio nome sugere, não teve uma vida feliz. Lima Barreto inicia sua obra “Triste fim de Policarpo Quaresma” expondo uma característica peculiar da personagem central, o nacionalismo exacerbado. Policarpo é extremamente patriota. Sua coleção de livros “unicamente de autores nacionais”, sua satisfação em trabalhar no Arsenal de Guerra, sua paixão pela língua Tupi e suas pesquisas folclóricas, são alguns exemplos desse seu patriotismo.

Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

O major Quaresma mora inicialmente no Rio de Janeiro, com sua irmã Adelaide. Ele se dedica às aulas de violão com Ricardo Coração dos Outros, por acreditar que “a modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede”. Seus estudos e reflexões o impelem a ideias para melhorar o país. Atrás de cantigas e tradições folclóricas nacionais, Policarpo conhece o “Tangolomango”, porém, tem sua primeira decepção ao descobrir que essa cantiga é estrangeira e que o violão também não é de origem nacional. Isso faz com que busque “alguma cousa própria, original”, que o leva a estudar os tupinambás. Essa primeira parte nos faz pensar no que realmente é a cultura brasileira. Nós adotamos costumes estrangeiros, falamos uma língua “emprestada” e perdemos a simpatia pelas coisas nacionais. Esses são alguns dos inúmeros obstáculos que encontramos na nossa busca por uma identidade nacional.

Policarpo então faz uma petição à Câmara pedindo que o tupi-guarani se torne língua oficial e nacional do Brasil. O pedido vira motivo de chacota e Quaresma é ainda mais ridicularizado. A situação piora quando, por descuido, acaba redigindo um documento oficial em Tupi, o que faz com que o deixem num hospício.

Saindo do hospício, Quaresma compra um sítio, o “Sossego” e resolve por em prática seus planos para a salvação da pátria por meio da “terra fértil” do Brasil. Porém, logo se vê decepcionado. Suas plantações são devastadas pelas saúvas e não lhe rendem lucro algum. Suas galinhas, perus e patos, são extintos pela terrível praga. Vê-se então obrigado a fazer uso das máquinas agrícolas. Entretanto, nem mesmo a ciência e os avanços científicos, que segundo o Positivismo, levam ao progresso da humanidade, são capazes de solucionar os problemas rurais de Policarpo, que tem seu plantio cada vez mais assolado pelas pragas e ervas daninhas.

Após sua primeira conversa com o tenente Antonino, que está envolvido em uma briga política com o doutor Campos, espalha-se pela cidade boatos de que Policarpo viera para a região para fazer política, o que justificaria algumas de suas atitudes como dar esmolas e permitir que façam lenha nas suas terras. Um tempo depois, o doutor Campos vai visitá-lo e tenta suborná-lo. Inflexível, Quaresma afirma que não é partidário nem eleitor e o doutor vai embora, sem contestar. Porém, dois dias depois, recebe uma multa, uma intimação do doutor Campos. Revoltado, passa a pensar no que o Brasil precisaria para crescer; reformas agrícolas, um governo forte. Então vê com a Revolta Armada uma oportunidade.

Quaresma vai ao Rio de Janeiro para servir à pátria, recebe a patente de major e tem a oportunidade de entregar a Floriano Peixoto seu memorial, com seus projetos e ideias para as reformas no país. Porém, presencia o pouco caso do marechal a seu trabalho. Depois de ler o memorial, Floriano chama Quaresma de visionário.

Tem-se neste tempo um acontecimento com o qual se pode prever o fim de Policarpo. A filha do general Albernaz, Ismênia, estava para se casar com Cavalcânti. Porém, fora abandonada e a partir daí passa a se iludir, em vão, com o casamento, algo que se tem ideia de que não acontecerá. E morre assim, lutando por sua quimera.

A desilusão de Quaresma se torna ainda maior quando num combate, acaba matando um dos revoltosos. Ele responde uma carta de Adelaide, no qual conta que está ferido, mas que não é grave. Ali, fica bem evidente sua decepção com a guerra e sua consciência de que tudo pelo qual lutou fora inútil. Com o término da revolta, Quaresma é encarregado de cuidar de uma prisão, onde presencia a escolha de alguns revoltosos para execução. Indignado, sua inocência faz com que envie uma carta ao marechal, contando o ocorrido. Ele é mandado à prisão, onde faz uma profunda reflexão sobre sua vida, seu patriotismo e o governo. Sua afilhada Olga e Ricardo Coração dos Outros até tentam salvá-lo, porém todos os considerados próximos de Quaresma, a quem recorrem, o desprezam, acusando-o ainda de traidor. Assim sendo, pelas suas críticas, Policarpo Quaresma é condenado a morte.

No início da obra, onde o autor começa a expor as qualidades patrióticas do major, alguns personagens com títulos vãos e fúteis, atribuem a culpa da “loucura” de Policarpo aos livros, que segundo eles, deveriam ser proibidos “a quem não possuísse um título acadêmico”. A ironia está no fato de que o major, justamente sem título acadêmico, lutava verdadeiramente pela pátria, ao contrário desses que o faziam por interesses pessoais; viviam absorvidos nos ideais positivistas, entretanto, eram tolos; militares egoístas que usavam suas patentes como máscara social.

Floriano Peixoto buscou, com a influência do positivismo, despertar o nacionalismo nos brasileiros e levar a nação ao progresso. Porém, Policarpo provou que a paixão pela pátria não seria capaz de resolver os problemas do Brasil. Sua conversa com o marechal revela um líder descomprometido com os reais problemas do país. Ironicamente, Lima Barreto contrapõe a imagem idealizada do líder Floriano à imagem de um político grosseiro e preguiçoso, voltado aos seus interesses próprios, que fez uso do positivismo para justificar toda violência adotada para se alcançar a ordem e, consequentemente, o progresso.

Todo o desfecho se resume na epígrafe da obra, que diz que o ideal de vida do homem, por melhor que seja, é derrotado por aqueles que são egoístas. “O grande inconveniente da vida real e o que a torna insuportável ao homem superior é que, se se transferirem para ela os princípios do ideal, as qualidades tornam-se defeitos, de modo que, muito frequentemente, o homem completo tem bem menos sucesso na vida do que aquele que se move pelo egoísmo ou pela rotina vulgar.”

Ao fim, os próprios militares contradisseram o positivismo pela crença no governo das elites intelectuais.