O conhecimento – Spinoza (1632 – 1677)

O filósofo francês René Descartes é considerado o fundador do dualismo moderno, que consiste na separação entre duas substâncias, corpo (substância material) e mente (substância imaterial). Nesse contexto, a filosofia de Spinoza vem como uma resposta ao dualismo de Descartes.

Mente e corpo, dualismo de René Descartes

Mente e corpo, dualismo de René Descartes

Quando se tem uma definição verdadeira, pode-se deduzir a partir dessa, outras verdades, formando com essas deduções um sistema metafísico. Portanto, pode-se demonstrar a metafísica dedutivamente, através de consequências evidentes derivadas de definições iniciais verdadeiras, só podendo-se chegar a conclusões verdadeiras se essas definições iniciais forem corretas.

Para que todo esse sistema metafísico faça sentido, é necessário entender que a substância, definida logo no início de sua obra “Ética”, é aquilo que necessariamente existe, para que todas as deduções feitas a partir dela se encaixem no seu modelo. Para se obter esses axiomas verdadeiros, Spinoza sugere então a distinção entre três formas de conhecimento, sendo o imaginativo, o racional e o intuitivo.

Segundo Spinoza, não existem ideias falsas ou verdadeiras em relação ao conhecimento. O que existem são proposições mais, ou menos, adequadas, de modo que ele evidencia três tipos de conhecimento. O conhecimento opinativo, também chamado de imaginativo, é o conhecimento prático, que é adquirido a partir das percepções que nós temos das coisas, sem a preocupação com sua causa ou finalidade. É considerado por ele uma forma mínima de conhecimento, pois é subjetivo. Assim, não apresenta a natureza das coisas conhecidas, mas representações que são baseadas nas qualidades do objeto e do sujeito, sendo estas fragmentadas e incompletas. Para tal, precisa-se de uma experiência vaga, mas é um conhecimento empírico no sentido depreciativo, pois é fundamentado na “impressão”. Dos seus limites decorrem o sofrimento e as paixões.

Baruch Spinoza

Baruch Spinoza

O conhecimento racional é aquele tipo de conhecimento notável que baseado na matemática, física ou geometria, permite ao homem compreender algumas realidades em relação a ele próprio e ao universo. É uma dedução imediata alcançada pelo raciocínio, havendo a preocupação com a causa e a finalidade. Pode-se obter o conhecimento através da observação, mas somente se for dirigida pelas características que todos os objetos têm em comum, não apresentando, assim, as distorções causadas pela experiência dos sentidos, como no conhecimento imaginativo. É desse modo que se dá o conhecimento a priori, segundo Spinoza, na matemática, física e geometria. Mas esse ainda não é o conhecimento completo.

O conhecimento intuitivo é considerado por ele o conhecimento perfeito. Por meio da intuição o homem consegue perceber diversas realidades, inclusive a própria noção que ele tem de Deus e de si mesmo. Esse conhecimento racional particular é a própria substância divina e é pela intuição que se pode afirmar que as coisas dependem de Deus como sua causa completa. Essa experiência mística viria acompanhada, segundo ele, por uma forte emoção, a qual chamou de “o amor intelectual de Deus”. É desse conhecimento que derivam a felicidade e a virtude plenas. Perceber as coisas por meio da intuição seria, para Spinoza, “ver com os olhos de Deus”.

Dessa forma, podemos concluir que o conhecimento não é uma adequação entre a mente e a coisa, mas uma relação de adequação entre a mens (do latim, mente, espírito) do sujeito com a mens do objeto.