O beijo de Juliana, de Osame Kinouchi

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O beijo de Juliana, Osame Kinouchi

Em O gene egoísta, obra que visa explicar a evolução na perspectiva do gene e não do organismo, Richard Dawkins trata o sorriso como um mecanismo que foi selecionado pois permite aos pais saber quais de suas ações são mais benéficas a suas crias, de modo que a partir do ponto em que um sorriso passa a ser algo recompensador, este pode ser usado como uma ferramenta de manipulação, ou seja, o gene de um indivíduo que sorri tem mais chances de sobreviver. A partir dessa perspectiva, até que ponto pode-se considerar o beijo de uma criança como algo puro e verdadeiro e não com motivação puramente egoísta? Existe solidariedade que não emerge do egoísmo? Vale a pena se preocupar com esses paradoxos?

O beijo de Juliana não é um livro de respostas, mas um lugar onde opiniões diferentes se encontram. O livro é composto por e-mails que foram trocados por quatro físicos onde estes falam de forma totalmente descontraída sobre assuntos diversos, como futebol, política, religião, felicidade, ciência, filosofia, pensamento humano, vida, cada um apresentando sua cosmovisão seja questionando, provocando, afirmando, de modo a deixar a leitura intrigante e diferente das demais que também tratam desse tema.

Quanto mais o texto caminha, mais desperta curiosidade, já que este vem apresentando questões que são sempre seguidas por uma discussão, de modo que são lidas já se esperando pela opinião que cada um irá expor. É um livro que provoca e que inevitavelmente faz com que se reflita sobre pontos que todos nós já pensamos antes, mas a partir de uma perspectiva diferente agora, ou até mesmo que nunca foram pensados.

Ao que cabe a mim concluir, o livro alcançou um de seus objetivos se este for fazer com que se reflita sobre a distância que há entre o conhecimento científico e a vida humana, os dilemas que surgem nessa distância e como estes se relacionam entre si. Se fosse possível resumir sua essência em uma só frase retirada do próprio livro, ‘Já pensaram dessa maneira antes?’ faria um bom papel. Entretanto, há muito mais nesse livro do que pode caber em uma frase.

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Visão geral sobre o pensamento de Foucault

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Michel Foucault

Nascido em Poitiers, na França, em 1926, Foucault vem de uma família de médicos. Estudou filosofia em École Normale Supérieure, logo após a Segunda guerra mundial. Passou um período na Suécia, depois na Polônia e Alemanha, até retornar à França em 1960. Com a História da loucura, estudo que afirma que a separação entre loucura e sanidade é uma construção social, recebeu um doutorado. Em 1968, Paris passou por um período de greves estudantis, momento no qual Foucault envolveu-se no ativismo político e continuou como ativista e professor pelo resto da vida.

Foucault está inserido na área da epistemologia, também chamada de filosofia do conhecimento, sendo um ramo da filosofia que trata da natureza, das origens e da validade do conhecimento. Ele faz uma abordagem sobre a arqueologia discursiva. Analisando-o dentro do contexto histórico-filosófico, temos no final do século XVIII Immanuel Kant lançando as bases para o modelo de “homem” do século XIX. Em 1859, Darwin provoca uma revolução no modo como interpretamos nós mesmos com A origem das espécies. Em 1883, Nietzsche anuncia que o homem é algo a ser superado, em Assim falou Zaratustra.

Foucault anuncia que o homem é uma invenção recente. Nós temos a ideia de “homem” como uma ideia natural e eterna. Entretanto, analisando a arqueologia do nosso pensamento, Foucault conclui que a ideia de “homem” surgiu como objeto de estudo no início do século XIX. Essa conclusão aparece em As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas.

Temos um conjunto de regras, em sua maioria inconsciente, fixadas pelas condições históricas em que nos encontramos, que formam nosso discurso, tendo por discurso a maneira como falamos e pensamos sobre as coisas. No entanto, essas regras e condições mudam com o tempo, assim temos também a transformação dos discursos. É por isso que Foucault toma por base de sua análise a arqueologia, pois ela se faz necessária na medida em que se pretende entender o “pensamento” atual. Não podemos aceitar os conceitos atuais, como o de natureza humana, como sendo eternos e que somente uma “história das ideias” é suficiente para traçar sua genealogia. Não podemos supor que as ideias que temos hoje podem ser aplicadas a qualquer ponto da história.

Essa ideia de “homem” foi fundada com a filosofia de Kant, quando este revolucionou o pensamento filosófico, trocando a questão de “por que o mundo é como é?” para “por que vemos o mundo como vemos?”. Segundo Foucault, essa ideia que temos de “homem” surgiu no começo do século XIX, com o nascimento das ciências naturais, e é para ele paradoxal, pois nos vemos como objetos no mundo, mas também como sujeitos que estudam o mundo.

Assim, ele sugeriu que essa ideia além de ser uma invenção recente, também pode estar perto do fim. Podemos obter indícios disso com os avanços na computação e nas interfaces homem-máquina, e com filósofos que, tendo domínio da ciência cognitiva, isto é, o estudo científico da mente ou da inteligência, questionam a natureza da subjetividade.

O pensamento de Foucault foi fortemente influenciado por Freud, Marx e Nietzsche, principalmente pela leitura de Nietzsche feita por Heidegger. Ele interpreta Nietzsche como o grande contestador da tradição metafísica no século XIX, em uma leitura que marcará as leituras subsequentes de Nietzsche, principalmente na linha francesa.

Partindo para um resumo de suas obras, temos em História da loucura, uma análise arqueológica da formação do nosso conceito de loucura e da forma de tratá-la. A arqueologia como método de análise do discurso é baseada numa tentativa de mostrar os elementos implícitos do objeto do discurso e o conjunto de práticas que ele estabelece. Foucault realiza uma arqueologia do saber médico e sua formação na modernidade em Nascimento da clínica e em As palavras e as coisas, uma arqueologia das ciências humanas. É em Arqueologia do saber que ele discute a arqueologia como método de análise crítica do discurso. Foucault introduz a noção de genealogia em Vigiar e punir, e a retoma e desenvolve em Microfísica do poder e na História da sexualidade. Ele se inspira na filosofia de Nietzsche sobre a genealogia da moral, no qual este analisa a origem dos valores morais vinculados ao pensamento socrático-cristão. A genealogia é, portanto, uma análise histórica da formação dos discursos, relacionando-os com o exercício do poder num determinado contexto social.

Podemos definir seu trabalho mais como história das ideias do que como vinculado à filosofia em seu sentido tradicional, já que envolve um conhecimento profundo de história, análise documental, pesquisa de campo, que não pertencem à metodologia filosófica. É exatamente com esse tipo de análise que vemos em Foucault sua natureza interdisciplinar e seu rompimento com as fronteiras tradicionais das disciplinas e áreas do saber.

Bibliografia

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia, 14ª reimpressão, 2013. Editora Zahar, páginas 276, 277.

Vários autores. O livro da filosofia, 8ª reimpressão, 2013. Editora Globo, páginas 302, 303.

Introdução à ética de Sócrates

Sócrates

Sócrates

A filosofia de Sócrates, diferente dos filósofos pré-socráticos, tinha como objetivo o homem e o conhecimento deste, deixando de lado assim, a busca por conhecer o cosmos e a physis. Sendo assim, Sócrates foi considerado o pai da ética, pois foi o primeiro a se aprofundar nesse assunto. Parte de sua filosofia era a construção do homem, tendo então como visão a constituição de Virtudes fundamentais para que o homem atingisse a plena felicidade. Algumas de suas principais virtudes apresentadas por ele como fundamentais são a justiça, que apenas poderia ser conhecida depois que se soubesse o que é a injustiça; a modéstia, que era a capacidade de ser bom no que faz naturalmente e sem se vangloriar; entre outros.

Importante prática de Sócrates que representava sua filosofia era a prática da Maiêutica, que através da dialética, “paria” o conhecimento das pessoas. Um exemplo dessa prática é o diálogo que Sócrates tem com o escravo Teeteto, em que ele explica ao escravo o processo da Maiêutica que gostaria de aplicar nele, pois a muito já havia percebido que algo na alma deste estava a ponto de vir à luz.

Sobre a dialética de Sócrates tem-se como exemplo o livro Êutifron de Platão. Neste livro há o diálogo entre Êutifron e Sócrates em que estes discutem sobre a piedade. Vemos que, com um mesmo assunto, Sócrates desenvolve a conversa a tal ponto que Êutifron “desiste” de discutir sobre isso e dá desculpas para ir embora. Uma frase boa de Sócrates para representar este livro, seria “Só sei que nada sei”, pois nesse desenrolar da conversa, o que realmente Sócrates quer mostrar é a ignorância do homem, principalmente neste caso em que Êutifron era soberbo e orgulhoso.

 

Ética sofista

Sócrates e Hípias, o sofista

Sócrates e Hípias, o sofista

A filosofia sofista era baseada no relativismo. Cada pessoa, seja pela cultura ou sociedade que vive, contém as suas ideias em que estas se tornam verdades para eles, assim como o ideal de uma outra pessoa, também será uma verdade. Sendo assim, não existe verdade absoluta, objetiva, mas sim uma verdade subjetiva, em que cada um tem a sua.

O trabalho dos sofistas era ensinar jovens sobre política e a arte da retórica, cobrando taxas para aplicar essas aulas. Foram considerados por muitos críticos como prostitutas do saber ou mercenários do saber, pois cobravam de algo que deveria ser dado gratuitamente.

A partir de sua filosofia, vê-se que os sofistas tinham por ética, algo também relativo, mesmo dentro de uma mesma sociedade. Enquanto para alguns era correto se fazer uma determinada coisa, para outros não era.

Ética socrática

Sócrates tinha por visão o objetivismo. Para ele, existia uma Verdade Universal e para se descobrir essa verdade era preciso ter uma vida moral, podendo-se ver isso através das Virtudes antes mencionadas. Por essa razão, Sócrates criticou grandemente os filósofos sofistas, em que tinham uma filosofia ética totalmente contrária a de Sócrates. Se por exemplo fosse pago aos sofistas que afirmassem que uma coisa era verdade, mesmo que não fosse, eles o fariam, pois acreditando em verdades relativas, tudo que se afirmasse estaria correto.

Sören A. Kierkegaard

Sören A. Kierkegaard

Para o filósofo Kierkegaard, que se baseou muito em Sócrates, o considerava irônico, ironia no sentido de fazer a aporia por satisfação pessoal. Atentava em Sócrates a comparação deste com Cristo, em que ambos não deixam nada escrito, possuem discípulos e morrem de forma trágica e significativa. Em muitas características se assemelham Sócrates de Kierkegaard, como pela própria ética, porém se diferem no sentido de alcançar a verdade por seus próprios esforços, que enquanto Sócrates crê nessa possibilidade, Kierkegaard não.

Vê-se que a base da ética socrática é o autoconhecimento. É poder se conhecer subjetivamente a ponto de conseguir entender e praticar a Verdade objetiva. Sendo assim, defendia a frase: “Conhece-te a ti mesmo”.

Introdução à ética de Nietzsche

Tragédia grega, conflito entre razão e emoção

Tragédia grega, conflito entre razão e emoção

Nietzsche, o filósofo do martelo, é conhecido por romper com a filosofia tradicional que visava até então, propondo um novo estilo filosófico que contrapõem a racionalidade filosófica e a moral cristã. Ele foi um grande crítico de Sócrates e da figura de Cristo, principalmente por conta dos valores morais, que afirmava serem instrumentos que os fortes inventaram para submeter e controlar os fracos.

Sua crítica tem início no surgimento da filosofia. A tragédia grega era a representação do equilíbrio entre a razão e a emoção. Esse equilíbrio dava-se através do conflito entre os deuses Apolo, deus da música e da arte, racional, intelectual, estilístico e moderado, e Dionísio, deus do vinho, inebriador dos sentidos humanos, tomando-os de prazer e libertando-lhes os instintos. Para Nietzsche, o homem era a ligação entre essas duas potências (razão e emoção), porém, Sócrates interpretou a arte trágica como irracional, e assim, o racionalismo passou a ser mais valorizado. Quando a razão socrática venceu, os deuses morreram. Essa é a maior crítica de Nietzsche a Sócrates, e a partir dessa crítica, propõe seu novo modo de filosofar, já que afirma que a filosofia é o resultado da relação do homem com a natureza, e que jamais deveríamos ter nos afastado dela.

 

Ética kantiana

Immanuel Kant

Immanuel Kant

A ética de Kant é baseada na busca de uma lei universal. Para saber se uma ação é moral ou não, primeiro é necessário se perguntar qual é a regra que seguiríamos ao realizar uma determinada ação. Depois, é necessário perguntar se estaríamos dispostos que esta regra fosse utilizada por todas as pessoas em todas as circunstâncias e sem exceção (tornando-se lei universal). Se a resposta for sim, então a ação é moralmente permitida; se não, moralmente proibida.

Somos tentados a abrir exceções a nosso favor, porque pensamos nas consequências delas, e nem sempre são boas (a nós, claro). Entretanto, não podemos ter certeza das consequências de nossas ações. Segundo Kant, é melhor evitar o mal conhecido, pois ainda que as consequências sejam más, estaremos justificados, pois cumprimos o nosso dever moral.

 

Ética nietzschiana

Friedrich Nietzsche

Friedrich Nietzsche

Nietzsche propôs uma nova abordagem sobre a genealogia moral, a formação histórica dos valores morais. As concepções morais são elaboradas pelos homens, a partir de interesses humanos. E as religiões têm papel fundamental nisso, pois impõem valores humanos como sendo produtos da “vontade de Deus”. Ele chegou à conclusão de que não existem noções absolutas de bem e mal. Afinal, se os valores morais são produto histórico-cultural, logo, também são mutáveis.

A grande crítica de Nietzsche às éticas socrática, kantiana e cristã, é a de que estas são “morais de rebanho”. O conceito de ética universal coincide com os preceitos de uma religião que tenta controlar as paixões e assim, homogeneizar os homens. A individualidade, tão valorizada por Nietzsche, acaba sendo diluída no meio do rebanho.

Jesus, o Cristo

Jesus, o Cristo

Nietzsche busca a “transmutação de todos os valores”, questionando o conceito de bem e mal em busca de novos valores “afirmativos da vida”, como a vontade, a criatividade e o sentimento estético.

Iluminismo italiano

O iluminismo italiano tem características comuns aos outros iluminismos (francês, inglês, alemão), como o culto da razão, a crítica à escolástica, a postura crítica diante da religião e da autoridade política. A Itália passou por um processo de pré-iluminismo, por causa das Academias nas quais se procuravam novos métodos.

Alguns acreditam que o iluminismo era fundamentado no ateísmo e que muitos dos que escreviam sobre teologia faziam para escapar das perseguições. Mas há aqueles que consideram o iluminismo compatível à religião.

Muratori era muito religioso, mas era iluminista por sua confiança na razão e pelo seu senso crítico, o qual chamava de “bom gosto”. Sobre isso, ele diz: “entendemos por bom gosto conhecer e poder avaliar o que é defeituoso, imperfeito ou medíocre nas ciências ou nas artes, para evitá-lo, e o que é o melhor, ou perfeito, para segui-lo a qualquer preço”. Muratori, assim como Galileu, dizia que não é preciso se basear na autoridade de nenhum homem para buscar o verdadeiro, mas sim, confiar em seu próprio intelecto.

Lodovico Muratori

Lodovico Muratori

Muratori defendia que o saber deve servir para melhorar os homens, tanto material quanto espiritualmente, e valoriza a contemplação a Deus. Entretanto diz que os homens devem ao mesmo tempo, viver para Deus e não deixar de se relacionar com os homens, sendo útil a eles.

Já dizia que a razão é limitada, e por isso, é fundamental ao homem a religião. Contudo, entendia por religião o “crer, adorar, amar e obedecer a Deus na forma que Cristo nos prescreveu”. Sendo a caridade o fundamento da religião cristã, não apenas pregava-a, mas a praticava e constantemente evocava esse mandamento, levantando sua importância.

Antonio Genovesi, outro filósofo iluminista, defendia a liberdade de filosofar, sendo ela uma liberdade em relação a toda autoridade humana. Ele teria praticado um “ecletismo programático”, tendo por eclético o que usa o senso crítico, aquele chamado por Muratori de “bom gosto”.

Era antiaristotélico, mas não por isso adepto à filosofia de Platão, que está distante da sua concepção de que qualquer teoria deve ser consolidada na experiência. Assim como Muratori, gostava da teologia iniciada por Newton, aquela que busca na física e em teorias científicas motivos para demonstrar a existência de Deus.

Por seu ideal de um saber útil à humanidade, dedicou-se ao estudo de economia, enquadrando-a numa concepção de vida em que a justificativa última é dada pela filosofia e pela religião. (ver sinônimos) A filosofia de Genovesi deu origem a duas vertentes distintas, uma corrente mais utópica e outra “ligada a problemas concretos e imediatos”.

Da primeira corrente, temos como um dos representantes Filangieri. Ele defendia que as leis devem responder às exigências da razão, e para isso, precisavam ter por princípio a filosofia. Portanto, era contrário aos fundamentos feudais, principalmente a liderança hereditária. Da segunda, temos Delfico, que também criticava o feudalismo, principalmente o controle político que era exercido pelo proprietário da terra. Seus ideais eram apoiados numa concepção filosófica materialista e irreligiosa.

Outro iluminista italiano foi Beccaria, que se baseava na filosofia dos enciclopedistas, fundamentalmente materialista e utilitarista. Sobre a legislação, diz que sua finalidade deveria ser “a máxima felicidade para o maior número de pessoas”. Ele é contra a tortura e a pena de morte, já que defendia que as penas têm como objetivo impedir que o cidadão delinquente cause novos danos à sociedade, e convencer os demais a não fazer o mesmo.

Dos assuntos filosóficos discutidos pelos iluministas, surgiu aquele que visava saber se prevaleciam os prazeres ou os sofrimentos. Seus representantes são La Mettrie, com uma visão mais otimista, e Maupertius, com uma pessimista.

Referências:

ROVIGHI, Sofia Vanni. História da filosofia moderna. Edições Loyola, 3ª edição, 2002.

O início da filosofia moderna – Nicolau Copérnico (1473 – 1543)

“Há certos ‘paroleiros’ que se acham no direito de julgar, embora sejam completamente ignorantes em matemática e, por distorcerem descaradamente o sentido de algumas passagens nas Santas Escrituras para ajustar-se ao seu objetivo, eles ousam censurar e atacar minha obra; preocupo-me tão pouco com eles que vou até mesmo desprezar seus julgamentos irrefletidos.”Das revoluções dos orbes celestes

Nicolau Copérnico

Nicolau Copérnico

Muitas fórmulas matemáticas foram usadas por Ptolomeu para explicar a teoria de Aristóteles, no qual a Terra estava imóvel no centro do universo e ao redor dela, estavam os planetas e o sol, fixos em esferas transparentes, que se encaixavam e giravam, dando movimento ao sistema. Mas foram as falhas na teoria de Ptolomeu que levaram Copérnico a estudar o movimento dos planetas. Foi assim que Nicolau Copérnico “parou o sol e moveu a terra”.

Sua obra “De revolutionibus orbium coelestium” (1543, Das revoluções dos orbes celestes) marcou o início da transição do pensamento geocêntrico para o heliocêntrico. Neste livro, ele propõe um modelo heliocêntrico para o universo, no qual o sol estaria imóvel no centro e a Terra, assim como os demais planetas, estaria em órbitas girando ao redor do sol. Agora o homem, criação de Deus, passava a deixar o seu lugar central no universo, para estar num lugar igual a tantos outros planetas.

Modelo heliocêntrico de Copérnico

Modelo heliocêntrico de Copérnico

Os primeiros a se opor a nova ideia de Copérnico foram os luteranos. Eles usavam como argumento a passagem bíblica tal qual dizia que Josué pediu a Deus que parasse o sol e não a Terra. Não demorou muito e a obra de Copérnico entrou no Index, lista de livros proibidos pela Igreja Católica. Pelo fato da Igreja interpretar os relatos bíblicos de forma literal, condenavam qualquer teoria que, supostamente, estivesse em contradição com o texto sagrado. Galileu escreveu a respeito desse conflito: “Copérnico não ignorou a Bíblia, mas sabia muito bem que, se sua doutrina fosse provada, não iria contradizer as Escrituras quando estas fossem entendidas corretamente”.

Copérnico foi o responsável por revolucionar o pensamento humano, mostrando a fragilidade dos conceitos religiosos e científicos consagrados até então, por meio da matemática e de suas pesquisas.

Heliocentrismo

Heliocentrismo

“Assim, uma vez que nada impede que a Terra se mova, sugiro que devemos considerar também se adequar várias moções, de modo que ela pode ser considerada como um dos planetas. Pois, não é o centro de todas as revoluções.” – Nicolau Copérnico (Das revoluções dos orbes celestes, 1543)

O início da filosofia moderna – Sir Isaac Newton (1643 – 1727)

“Muito do que concerne a Deus, no que diz respeito ao discurso sobre ele a partir das aparências das coisas, certamente pertence à filosofia natural.”Princípios matemáticos da filosofia natural

Sir Isaac Newton

Sir Isaac Newton

Em sua principal obra, “Princípios matemáticos da filosofia natural” (1687), Newton sintetiza as duas grandes correntes metodológicas da ciência moderna, a matematização e a experiência. Galileu Galilei já tinha concebido a ideia de lei natural e sua significação metodológica, porém, só a aplicou corretamente em poucos fenômenos particulares. Newton foi o responsável por mostrar que esta legalidade rigorosa poderia ser estendida por todo o universo. Também fundamenta a ciência que influenciará os pensadores iluministas, motivo pelo qual foi importante para a filosofia.

Newton fundamenta o uso do método indutivo pela ciência, ou seja, pode-se deduzir que das causas parecidas ou iguais obtém-se consequências iguais. Toda a sua filosofia foi desenvolvida com base na sua visão do universo como uma máquina que está constantemente em funcionamento. Para ele, a causa última das coisas não pode ser conhecida por meio de pesquisas científicas, pois não é mecânica, e só está contemplada no Ser Supremo. Ao estudar o sistema solar, os planetas e os cometas, afirma que estes só poderiam proceder do domínio de um Ser inteligente e poderoso. Ele diz, a respeito de Deus, que um ser, mesmo que perfeito, sem domínio, não pode dizer-se ser Senhor Deus (Newton, 1687).

Espaço absoluto, segundo Newton

Espaço absoluto, segundo Newton

Newton desempenha um papel importante para a história da filosofia pelas suas noções de espaço e tempo absolutos, formuladas nos Princípios. Não apenas de aspecto físico, essas noções apresentam consequências de ordem metafísica. O tempo absoluto liga-se à teoria do espaço absoluto. Ambos fluem uniformemente sem relação com nada externo, e este fato é o que confere ao tempo seu caráter de imutabilidade. Apesar das teorias do espaço e do tempo absolutos conferirem ao pensamento de Newton uma configuração metafísica, o autor repele qualquer noção de ordem metafísica ou religiosa.

Pelas palavras de Sir Isaac Newton:

“Nos livros precedentes tratei dos princípios da filosofia, mas não dos filosóficos, e sim apenas dos matemáticos, isto é, daqueles sobre os quais se pode discutir nos assuntos filosóficos. Tais são as leis e condições dos movimentos e das forças, coisas que dizem bem respeito à filosofia. (…) Resta deduzir desses princípios a constituição do sistema do mundo.” – Sir Isaac Newton (Princípios matemáticos da filosofia natural, 1687)

Referências:

NEWTON, Sir Isaac. Princípios matemáticos da filosofia natural, 1687.

O início da filosofia moderna – Galileu Galilei (1564 – 1642)

“Muitos são aqueles que sabem alguma coisa de filosofia; poucos são aqueles que entendem um pouco de filosofia; pouquíssimos são aqueles que conhecem alguma parte dela; um só, Deus, é o que a entende toda.”O ensaiador

Galileu Galilei

Galileu Galilei

Galileu já começa a inovar com suas primeiras investigações no campo da física, aplicando princípios matemáticos, pois os seguidores de Aristóteles – cientistas da época – discordavam da aplicação matemática ao estudo da física. Suas novas descobertas na área da ciência causaram forte oposição dos aristotélicos e da Igreja Católica, pois iam contra seus ensinamentos, como é o caso da descoberta das manchas solares, que segundo eles, destruía a perfeição do céu e negava a Bíblia Sagrada, e ainda, o heliocentrismo de Copérnico defendido por ele, que quase lhe custou a vida.

Entretanto, não foram nas áreas da física e da astronomia suas maiores inovações. A mais importante contribuição de Galileu foi ao campo das ideias filosóficas que, com seu método científico, abalou os alicerces do pensamento medieval.

O primeiro princípio do método galileano é a observação dos fenômenos e o seu estudo sem qualquer tipo de influência da tradição filosófica ou teológica. Ele abandona todos os preconceitos extra-científicos e passa a formar uma filosofia independente, baseada nos seus estudos sobre a natureza e o universo. Em “O ensaiador” (1623), Galileu deixa claro a Virginio Cesarini e a Lotário Sarsi, que irá trabalhar “sob a sombra destas teorias”, mostrando que não valeria às suas pesquisas o que já havia sido dito.

O segundo princípio do método de Galileu consiste na experimentação. Ou seja, uma nova afirmação só pode ser considerada verdadeira se for experimentada e comprovada assim sua veracidade.

O terceiro e último, estabelece que o correto conhecimento da natureza exige a descoberta de sua regularidade matemática. Segundo Galileu, tudo pode e deve ser medido através dos preceitos matemáticos.

O Universo está escrito em língua matemática

O Universo está escrito em língua matemática

Com toda a sua metodologia, Galileu demonstrou o engano do espírito lógico e dedutivo da filosofia aristotélico-escolástica, quando aplicado à experimentação dos fenômenos físicos. Ele também busca separar ciência e religião, dizendo que são dois livros separados e que ambos buscam revelar a mesma verdade, porém de pontos de vista diferentes. Um livro é a Bíblia, cujos escritos científicos são simplificados e de fácil entendimento para as pessoas; e o outro é a Natureza, que para ser interpretado deve ser lido de forma científica e objetiva. Por ambos os livros serem do mesmo autor, não podem ser contraditórios.

“Não acredito, porém, na explicação filosófica, isto é, que o chumbo se derretesse e que por isto fosse encontrado só no interior de ferro”(Galilei, 1623); com essas palavras de Galileu, fica bem claro que o campo da filosofia abrangia nesta época o campo da física e da matemática.

Pode-se resumir a filosofia de Galileu nas seguintes palavras:

“A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante nossos olhos (isto é, o universo), que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras” – Galileu Galilei (O ensaiador, 1623)

 

Referências:

GALILEI, Galileu. O ensaiador, 1623.