O príncipe das desventuras

Policarpo Quaresma, como o próprio nome sugere, não teve uma vida feliz. Lima Barreto inicia sua obra “Triste fim de Policarpo Quaresma” expondo uma característica peculiar da personagem central, o nacionalismo exacerbado. Policarpo é extremamente patriota. Sua coleção de livros “unicamente de autores nacionais”, sua satisfação em trabalhar no Arsenal de Guerra, sua paixão pela língua Tupi e suas pesquisas folclóricas, são alguns exemplos desse seu patriotismo.

Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

O major Quaresma mora inicialmente no Rio de Janeiro, com sua irmã Adelaide. Ele se dedica às aulas de violão com Ricardo Coração dos Outros, por acreditar que “a modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede”. Seus estudos e reflexões o impelem a ideias para melhorar o país. Atrás de cantigas e tradições folclóricas nacionais, Policarpo conhece o “Tangolomango”, porém, tem sua primeira decepção ao descobrir que essa cantiga é estrangeira e que o violão também não é de origem nacional. Isso faz com que busque “alguma cousa própria, original”, que o leva a estudar os tupinambás. Essa primeira parte nos faz pensar no que realmente é a cultura brasileira. Nós adotamos costumes estrangeiros, falamos uma língua “emprestada” e perdemos a simpatia pelas coisas nacionais. Esses são alguns dos inúmeros obstáculos que encontramos na nossa busca por uma identidade nacional.

Policarpo então faz uma petição à Câmara pedindo que o tupi-guarani se torne língua oficial e nacional do Brasil. O pedido vira motivo de chacota e Quaresma é ainda mais ridicularizado. A situação piora quando, por descuido, acaba redigindo um documento oficial em Tupi, o que faz com que o deixem num hospício.

Saindo do hospício, Quaresma compra um sítio, o “Sossego” e resolve por em prática seus planos para a salvação da pátria por meio da “terra fértil” do Brasil. Porém, logo se vê decepcionado. Suas plantações são devastadas pelas saúvas e não lhe rendem lucro algum. Suas galinhas, perus e patos, são extintos pela terrível praga. Vê-se então obrigado a fazer uso das máquinas agrícolas. Entretanto, nem mesmo a ciência e os avanços científicos, que segundo o Positivismo, levam ao progresso da humanidade, são capazes de solucionar os problemas rurais de Policarpo, que tem seu plantio cada vez mais assolado pelas pragas e ervas daninhas.

Após sua primeira conversa com o tenente Antonino, que está envolvido em uma briga política com o doutor Campos, espalha-se pela cidade boatos de que Policarpo viera para a região para fazer política, o que justificaria algumas de suas atitudes como dar esmolas e permitir que façam lenha nas suas terras. Um tempo depois, o doutor Campos vai visitá-lo e tenta suborná-lo. Inflexível, Quaresma afirma que não é partidário nem eleitor e o doutor vai embora, sem contestar. Porém, dois dias depois, recebe uma multa, uma intimação do doutor Campos. Revoltado, passa a pensar no que o Brasil precisaria para crescer; reformas agrícolas, um governo forte. Então vê com a Revolta Armada uma oportunidade.

Quaresma vai ao Rio de Janeiro para servir à pátria, recebe a patente de major e tem a oportunidade de entregar a Floriano Peixoto seu memorial, com seus projetos e ideias para as reformas no país. Porém, presencia o pouco caso do marechal a seu trabalho. Depois de ler o memorial, Floriano chama Quaresma de visionário.

Tem-se neste tempo um acontecimento com o qual se pode prever o fim de Policarpo. A filha do general Albernaz, Ismênia, estava para se casar com Cavalcânti. Porém, fora abandonada e a partir daí passa a se iludir, em vão, com o casamento, algo que se tem ideia de que não acontecerá. E morre assim, lutando por sua quimera.

A desilusão de Quaresma se torna ainda maior quando num combate, acaba matando um dos revoltosos. Ele responde uma carta de Adelaide, no qual conta que está ferido, mas que não é grave. Ali, fica bem evidente sua decepção com a guerra e sua consciência de que tudo pelo qual lutou fora inútil. Com o término da revolta, Quaresma é encarregado de cuidar de uma prisão, onde presencia a escolha de alguns revoltosos para execução. Indignado, sua inocência faz com que envie uma carta ao marechal, contando o ocorrido. Ele é mandado à prisão, onde faz uma profunda reflexão sobre sua vida, seu patriotismo e o governo. Sua afilhada Olga e Ricardo Coração dos Outros até tentam salvá-lo, porém todos os considerados próximos de Quaresma, a quem recorrem, o desprezam, acusando-o ainda de traidor. Assim sendo, pelas suas críticas, Policarpo Quaresma é condenado a morte.

No início da obra, onde o autor começa a expor as qualidades patrióticas do major, alguns personagens com títulos vãos e fúteis, atribuem a culpa da “loucura” de Policarpo aos livros, que segundo eles, deveriam ser proibidos “a quem não possuísse um título acadêmico”. A ironia está no fato de que o major, justamente sem título acadêmico, lutava verdadeiramente pela pátria, ao contrário desses que o faziam por interesses pessoais; viviam absorvidos nos ideais positivistas, entretanto, eram tolos; militares egoístas que usavam suas patentes como máscara social.

Floriano Peixoto buscou, com a influência do positivismo, despertar o nacionalismo nos brasileiros e levar a nação ao progresso. Porém, Policarpo provou que a paixão pela pátria não seria capaz de resolver os problemas do Brasil. Sua conversa com o marechal revela um líder descomprometido com os reais problemas do país. Ironicamente, Lima Barreto contrapõe a imagem idealizada do líder Floriano à imagem de um político grosseiro e preguiçoso, voltado aos seus interesses próprios, que fez uso do positivismo para justificar toda violência adotada para se alcançar a ordem e, consequentemente, o progresso.

Todo o desfecho se resume na epígrafe da obra, que diz que o ideal de vida do homem, por melhor que seja, é derrotado por aqueles que são egoístas. “O grande inconveniente da vida real e o que a torna insuportável ao homem superior é que, se se transferirem para ela os princípios do ideal, as qualidades tornam-se defeitos, de modo que, muito frequentemente, o homem completo tem bem menos sucesso na vida do que aquele que se move pelo egoísmo ou pela rotina vulgar.”

Ao fim, os próprios militares contradisseram o positivismo pela crença no governo das elites intelectuais.