Manifesto do partido Comunista

“Proletários do mundo, uni-vos!”

Tendo como concepção de mundo uma visão de conjunto da natureza e do homem, que implica uma ação e não se trata da obra de um único pensador, mas sim da expressão de uma época, temos apenas três. A primeira, concepção cristã, define-se por uma teoria de hierarquia de seres vivos, valores e pessoas, na qual se encontra no topo o Ser Supremo, Deus. Mais visível na Idade Média, ficou conhecida por concepção medieval, porém é válida até hoje. Com o declínio da Idade Média, no século XVI, surge outra concepção, na qual a hierarquia dá lugar ao indivíduo: a concepção individualista. Corresponde à visão burguesa do mundo, ao liberalismo e a uma teoria otimista de harmonia entre o homem e a natureza. comunismo-3

Analisando as contradições da sociedade moderna – afinal, verifica-se contradições no homem e na sociedade, no qual o interesse individual pode opor-se ao interesse comum, e a inexistência de uma harmonia entre o homem e a natureza, já que este luta contra ela e tem a necessidade de dominá-la – surge então o marxismo como uma expressão da vida social, prática e real, uma concepção que não estabelece uma hierarquia nem se encerra na consciência do indivíduo isoladamente. Antes, toma conhecimento de realidades naturais, práticas, sociais e históricas.

Karl Marx e Friedrich Engels introduzem sua obra “Manifesto do partido comunista” a partir da situação da Europa naquele período: os poderes europeus já reconhecem o comunismo como um poder, aliaram-se contra ele e é tempo dos comunistas se manifestarem.  Na história da luta de classes, toda luta tem seu fim ou numa reconfiguração da sociedade ou num declínio de ambas as classes em luta. Na nossa época, as oposições de classes foram simplificadas a dois grupos que se enfrentam diretamente, a burguesia e o proletariado.

Na crise do feudalismo, o modo de produção feudal já não supria os novos mercados que surgiram com as grandes descobertas. Com a burguesia em ascensão, surgiu um novo modo de produção, a manufatura, que ocasionou num crescimento ainda maior dos mercados. Agora, a manufatura já não é mais suficiente e novamente o modo de produção passou por uma transformação. Surgiu a maquinofatura e com ela as grandes indústrias, que facilitou ainda mais o desenvolvimento do comércio, reagindo sobre a extensão da Indústria, permitindo o grande crescimento da burguesia. Sendo assim, a burguesia é o produto das revoluções no modo de produção num longo curso.

Marx e Engels

Marx e Engels

Com a industrialização, as necessidades velhas foram todas supridas, porém agora, surgem novas necessidades, que só podem ser supridas com produtos de outros países, gerando assim uma ligação entre eles. Essa dependência entre os países fez surgir produtos padronizados, formando um bem comum, e agora das literaturas locais formam-se mundiais.

O capitalismo, inevitavelmente, vem acompanhado das crises. Com o aumento cada vez maior do capital sob o domínio da burguesia, a sociedade moderna vive uma contradição histórica, pois o problema agora é a superprodução. Assim, a solução da crise para a burguesia está na aniquilação das forças produtivas e na exploração mais profunda dos mercados e a conquista de novos.

A burguesia não trouxe consigo somente a produção, a arma que lhe traz a morte, mas com ela também aqueles que a manejam, os proletários. Estes são mercadorias, vendem-se e por isso estão expostos as oscilações do mercado como qualquer outra mercadoria. Assim que surge o proletário, surge também sua luta contra a burguesia. A concordância entre eles não é vinda ainda da sua união, mas sim da união da burguesia, que põe em movimento todo o proletariado para atingir seus objetivos.

Segundo Marx, a burguesia não pode dominar por muito tempo, porque é incapaz de permitir a seu escravo a própria existência, deixando-o numa situação em que dependa dela para se alimentar, no entanto, ela deveria ser alimentada por ele. O próprio progresso da indústria acaba colocando a união dos proletários no lugar de seu isolamento causado pela concorrência.

Os comunistas compartilham os mesmos interesses com os proletários, porém, diferem por fazer valer os interesses comuns de burguesiatodo o proletariado, sendo o setor mais decidido e impulsionador. Ambos, comunistas e proletários, defendem a “formação do proletário em classe, derrubamento da dominação da burguesia, conquista do poder político pelo proletariado”. O comunismo não defende a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa. Marx afirma que o trabalho assalariado não cria a propriedade, e que a propriedade explora o trabalho assalariado. Ele também critica o caráter dessa apropriação, pois o operário só vive para aumentar o capital, conforme o interesse da burguesia. Até mesmo as ideias dos trabalhadores vêm da relação de produção e propriedade burguesas.

Portanto, através de uma revolução, o proletariado deve se elevar a classe dominante, usar sua dominação para tirar o capital da burguesia e centralizar os meios de produção na mão do Estado (proletário), para aí poder multiplicar as forças de produção. Marx acredita que se isso realmente acontecer e os antigos meios de produção forem realmente suprimidos, com eles também são suprimidas as condições de existência da oposição de classes, e com isso, as classes e também a dominação como classe. Marx termina por concluir que “o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”.

Ao falar do socialismo reacionário, Marx cita três. O primeiro, o socialismo feudal, surge quando as aristocracias francesas e inglesas, não podendo travar uma luta política com a burguesia, passa a usar as cantigas e os panfletos para tentar alcançar seus objetivos. Passaram a aparentar a perda de seus verdadeiros interesses e apoiar a causa dos proletários. Os feudais usam como argumento a diferença entre sua exploração e a dos burgueses, mas se esquecem de que os tempos mudaram e que seus métodos são ultrapassados.

Com o desenvolvimento da burguesia, e consequentemente do proletariado, surgiu também uma “pequena burguesia”, que se encontra entre essas duas classes. Seus membros estão constantemente sendo atirados para o proletariado pela concorrência. Com o desenvolvimento das indústrias, desaparecerão como parte autônoma e serão substituídos por criados. O objetivo do socialismo pequeno-burguês é restabelecer os antigos meios de produção e relações de propriedade, ou tornar passado os atuais.

A Comuna de Paris

A Comuna de Paris

Quando os burgueses alemães estavam em luta contra o absolutismo feudal, chegou à Alemanha a literatura socialista e comunista da França. Porém, por estarem em contexto histórico e social diferentes, a literatura francesa perdeu todo o seu significado. A partir daí, os literatos alemães passaram a adaptar as ideias francesas de acordo com seu ponto de vista. À esta adaptação filosófica dos ideais franceses, deram o nome de “socialismo verdadeiro”. A literatura socialista-comunista alemã, por não exprimir a luta de uma classe contra a outra, acreditava que defendia os interesses da essência humana, do homem em geral, que não pertence a nenhuma classe, ao invés dos interesses do proletariado. No entanto com o tempo, foi perdendo pouco a pouco a sua inocência. Por fim, acabou nomeando o alemão como o homem normal e a nação alemã como a nação normal. Deu a isto um sentido superior, anunciando-se como imparcial acima de todas as lutas de classe, de modo a distorcer todo o sentido original da literatura socialista francesa.

Para garantir a sua existência, a burguesia precisa remediar os males sociais. Ela não quer as lutas e nem os perigos decorrentes destas. Para isso, os burgueses buscam fazer com que o proletariado perca o interesse de movimentos revolucionários, camuflando seus verdadeiros objetivos e fazendo com que este acredite que defende seus interesses. Este é chamado socialismo burguês.

Para os socialistas utópicos, a classe trabalhadora só existe como a classe sofredora. Eles não veem do lado do proletariado nenhuma atividade histórica ou movimento político que lhes seja particular. Querem melhorar a vida de todos na sociedade, por isso defendem também os interesses da classe dominante e com isso, rejeitam toda a ação política e revolucionária, buscando atingir seus objetivos de forma pacífica. Quanto mais se desenvolve a luta de classes, mais perdem sua elevação fantástica e, pouco a pouco, vão entrando na categoria de socialistas conservadores.

Marx termina o Manifesto falando das lutas de classes que estavam acontecendo em diferentes lugares. Em toda parte, os comunistas estavam apoiando o movimento revolucionário. Travada a luta, estavam declarando que seus objetivos só podiam ser alcançados através do derrube de toda ordem social.

Se analisarmos a história da sociedade e sua evolução, vamos ver que as sociedades primitivas eram de certa forma, comunistas. comunismo_beer1Após a dissolução das comunidades aldeãs, foram se formando classes separadas que cada vez mais foram se opondo. Conforme as revelações da realidade foram pedindo revolução, estas foram reconfigurando as sociedades na história. É difícil imaginar uma revolução que consiga fazer com que a sociedade de hoje volte a ser como as primitivas, afinal, foram muitos anos e várias revoluções que permitiram suas constantes transformações até aqui e isso mostraria que a teoria da evolução de Darwin é um grande equívoco.

Ainda temos outro empecilho. Pensando na mudança da mente dos proletários que permitiria a revolução, ainda assim não temos garantia nenhuma de que será diferente da Comuna de Paris. Qual mudança seria necessária para vencer os frutos de um poder nas mãos? Essa é a fraqueza humana que corrompe até o melhor dos homens. A educação dos indivíduos que crescem numa sociedade tribal ou numa comunidade de famílias já é de caráter comunitário. As pessoas do mundo globalizado são educadas da maneira mais egoísta possível e com o acesso ao poder mais comum a nós do que àqueles, o egoísmo se tornou quase que inerente ao homem agora.

Com certeza, ainda muitas outras revoluções virão e mudarão o rumo da história. Mas fugir de um modelo em que há alguém no comando não cabe à realidade, pois a humanidade precisa de um controle e até mesmo nos agrupamentos familiares há o “chefe de família”, afinal, o homem que é mandado tem direção, mas aquele que é verdadeiramente livre, não sabe o que fazer.

 

Referências:

MARX e ENGELS. Manifesto do Partido Comunista, 1848.

LEFEBVRE, Henri. O marxismo, 1963.

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