Tempo

Por Jessica Barbieri

A torre do relógio era muito alta. Ela adorava quando o mecanismo de corda fazia girar a engrenagem principal.  Brincava naquela torre, pulava as engrenagens no segundo exato, sem tempo para erros e distrações. Ela era apenas uma criança e não tinha medo de viver.

Não entendia como funcionava o tempo, às vezes passava tão rápido, como naquela torre, e outras vezes tão lento.

Quando mais velha, construiu uma família, mas nunca se esqueceu da torre, de como era a sensação dos cabelos voando enquanto pulava de uma engrenagem a outra em movimento, enquanto o ponteiro marcava mais um minuto no relógio, sentindo o tempo passar como uma batida mais acelerada de seu coração.images

O tempo passou.  Ela cresceu e as mesmas engrenagens envelheceram, ficaram tão velhas que o minuto já não era um minuto. O tempo passava mais devagar. As engrenagens foram ficando mais lentas e ruidosas ao passar dos anos.

Seus pés não cabiam mais perfeitamente nos eixos das engrenagens. Agora a dificuldade de se equilibrar era maior, mas mesmo assim ela queria ter aquela sensação por mais uma vez. A sensação de estar livre, de viver.

Pulou a primeira engrenagem, seu pé escorregou, entretanto suas mãos seguraram firmemente ao ponteiro, o equilíbrio veio com muito custo, mas, com um sorriso, tirou seus finos cabelos dos olhos e recomeçou a pular. Das outras vezes, seus pés tocaram a engrenagem com leveza e conseguiu manter se em movimento.

Ela se lembrou da sensação quando criança e percebeu que nada tinha mudado; era a mesma sensação, a mesma torre e a mesma menina.  Adorava aquela sensação, queria ter aquilo de novo. Queria ser jovem de novo. Seu sangue correu nas suas veias mais freneticamente que o normal, sentia a adrenalina no seu corpo e ficava feliz por isso. Ela vivia mais uma vez.

Até que um erro fatal ocorreu, seus pés se embolaram e o pingente de sua sapatilha prendeu na barra de sua calça; a mesma sapatilha que seu primeiro namorado, amor e o pai de seus únicos filhos lhe deu;  suas mãos tentaram sem forças e agilidade suficiente agarrar ao ponteiro mais uma vez.  A sua queda foi de mais de 30 metros até o chão. Seu coração se apertou e pensou em chorar, ao mesmo tempo pensou em como era incrível voar.

Ela viveu sem ambição, sua vida não foi grandiosa, porém viveu tudo o que queria viver. Ela fazia o tempo passar sem medo de ser feliz. Ela foi feliz. Morreu feliz.

Anúncios

Faixas amarelas

Peter estava sentado numa cadeira de madeira desgastada e carcomida pelo tempo. Seu olhar estava fixo no ponteiro do relógio, que avançava lentamente, mais lento do que achava que deveria. Algo não estava bem. Ele sentia a sua cabeça girar com uma dor tão forte como nunca havia sentido. E continuava com o olhar imóvel ouvindo o tic tac incessante do relógio. Como um zumbi, ele se levanta e vai arrastando suas pernas até a mesa, num ritmo compassado ao ranger do chão de madeira, onde pega uma xícara de chá, que por estar lá há muito tempo, estava frio.

Peter levou a xícara à boca. Estava com os olhos arregalados e permaneceu imóvel por alguns segundos após devolver a xícara à mesa. Algo realmente não estava bem. Ele se jogou no sofá rasgado e sujo e se se encostou a uma almofada amassada. Dali podia ver a chuva forte e as gotas de água que escorriam pelo vidro da janela.

borboleta_azul-na-janela

Seu rosto estava contraído numa expressão séria. Os olhos bem abertos e a boca levemente caída. Estava num momento de introspecção profunda e não fazia a menor ideia do que estava fazendo ali. Sua cabeça doía ainda mais. Ela começou a pender lentamente, quando passou os olhos por uma lagarta, que estava na parte inferior da janela. Ele piscou forte várias vezes, com os olhos presos nela. De repente, a lagarta começou a se contorcer e rapidamente se transformou numa crisálida. Peter realmente deveria estar confuso, mas sua mesma expressão, com a boca aberta e com lentas piscadas, revelavam sua despreocupação. Poucos segundos se passaram e a crisálida se transformou numa borboleta. A linda borboleta azul abriu suas asas e batendo-as graciosamente partiu da janela e rodopiou pela sala. A dança da borboleta foi acompanhada por uma fumaça alaranjada e leve, que aos poucos, foi cobrindo toda a atmosfera do ambiente. Peter levantou lentamente uma sobrancelha. Nesse instante, ele ouviu batidas fortes na porta, tão fortes e agitadas que o fez virar a cabeça para a sua direção. Agora, ele se perguntava do que podia se tratar aquilo, já que estava numa casa abandonada, muito afastada da cidade, e como imaginara até então, sozinho. As batidas foram se tornando mais intensas e a cada solavanco, toda a casa e seus utensílios tremiam. Nisso, uma fresta foi aberta na madeira da porta e Peter pode ver, do sofá onde estava, o tamanho do peixe que se debatia do lado de fora.

Nesse momento, uma onda de desespero tomou conta dele e pode sentir um forte arrepio por todo o seu corpo. As batidas não paravam e o enorme peixe prateado continuava se jogando na porta, enquanto aquela borboleta psicodélica continuava batendo suas delicadas asas espalhando aquela fumaçinha diabólica que Peter sentia, aos poucos, o sufocando. Foi então nesse tempo de agonia e desespero que ele sentiu algo no seu ombro direito. Era um camundongo. Aquele pequeno roedor passou a mordê-lo muito forte mas lentamente no ombro, arrancando o primeiro pedaço de carne.

Peter abriu a boca e podia-se esperar um grito ensurdecedor e desesperado, mas nenhum som saiu. Ele queria se levantar, mover seus braços, arrancar aquele animal de seu ombro, mas não podia se mover. Seu rosto trazia uma expressão de agonia como de alguém que está sendo comido vivo. Aos poucos, foi perdendo a visão que por conta da borboleta azul, agora via tudo laranja. Não conseguia ouvir mais nada além daquelas batidas do peixe que incessantemente queria entrar. E aquele roedor, com o focinho vermelho de sangue, que continuava rasgando a carne do seu peito, como já fizera com todo o seu ombro.

Dias depois, os peritos recolhiam os restos já em decomposição de Peter. A casa foi toda lacrada com faixas amarelas, que terminavam amarradas na frente da janela. Enquanto terminava de lacrar, algo chamou a atenção do policial.

– Mcfloor, venha ver uma coisa.

– O quê?

– Tem alguma coisa aqui, do lado de dentro da janela.

Mcfloor se aproximou.

– Relaxa, Jake. É só uma lagarta.

Dê lugar ao caos (deixe-me entrar)

Era uma vez uma Casa. Uma Casa muito arrumadinha e certinha. Ela era de um azul suave e leve que mostrava ainda mais a limpeza que a casa tinha. Tudo estava limpo. Tudo estava certo. Até algo mudar tudo.

Tudo começou com um vidro, um bem simples de primeira vista. Ele estava na mão de um camundongo que estava sentado em uma almofada que havia sido arremessada por uma bruxa. Era uma bruxa diferente, era na verdade uma mulher comum e só recebia esse nome por morar na Casa número 61, bem a frente da nossa personagem principal. Algo, porém, acontecia com a bruxa. Ela tinha 16 anos (engraçado, não?) e acabara de torcer o ombro. Ficou tão zangada com isso que arremessou a almofada de seu sofá pela porta de sua Casa. A almofada, porém, acertou a janela da nossa Casa e a quebrou. Se não fosse pelo vidro que estava na mão do camundongo que estava na almofada, a janela não teria se quebrado; mas quebrou. Ao ouvir o barulho, a bruxa decidiu ir se redimir com a casa, por tê-la quebrado. A Casa a recebeu com muito carinho, porém tinha medo. Medo da bagunça da bruxa ao entrar em sua casa. Mas era tarde demais.

DSC04890A Casa lhe serviu um delicioso chá com peixe e botas secas à bruxa, que muito a vontade observava o relógio agressivo à parede. A senhora Casa percebeu o incômodo e então disse a bruxa que retirasse o simples e límpido relógio da parede. A bruxa tirou, e ao retirar entrou em sono profundo por causa da água que começou a respirar em sua cara saindo da parede onde o relógio estava. Nisso, na casa já toda molhada e inundada, uma incrível lagarta aparece remando em uma folha no rio que havia se formado. Muito simpática, começou a conversar com o camundongo e seu filho camundongo que acabara de sair de uma crisálida que estava no relógio assustador.

A Casa ainda estava atordoada em meio a tanta bagunça quando sua cabeça explodiu por causa de tanta água. Resultado? Todas as janelas quebradas. Após sua cabeça explodir, Casa chorou amargamente pela situação. Ninguém morava na Casa. A Casa era vazia de pessoas para que não sujassem nada. E agora tudo estava bagunçado e caótico. Mas não era o fim. A história ainda precisa de um príncipe para despertar a bruxa! E quem será esse príncipe?

O príncipe será a mesa, que escorregou escada abaixo e acertou a cabeça da bruxa fazendo-a despertar, muito grata e com dor de cabeça.

Casa não se desesperava mais; Casa amou a confusão e sorriu. O que ela esperava agora era que isso não acabasse mais, pois apenas assim ela conseguiria ver a alegria pousar sobre ela. Uma incrível borboleta de asas amarelas 99.

Moral do era uma vez: sempre esteja preparado para quando a bagunça chegar (e ela sempre chega).